Qual o valor do seu dinheiro?

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O dinheiro está presente na vida de todos – em maior ou menor quantidade –, mas possui valor único para cada um

Por Michelle Thomé

Felicidade, angústia, dificuldade, liberdade, vida, medo, necessidade, sucesso, pavor, alívio. Essas são as respostas de dez pessoas ao pedido: “Defina o que é dinheiro para você em uma palavra”. O “valor” do dinheiro mencionado aqui tem esse duplo sentido: a representação numérica de algo e o fundamento moral que norteia o comportamento humano.

O psiquiatra canadense naturalizado americano Eric Berne, criador na década de 50 da Análise Transacional, uma teoria da personalidade e do relacionamento humano, afirmou que a maneira como o indivíduo se relaciona com o dinheiro é uma forte indicação de como se relaciona consigo mesmo e com os outros. O significado do dinheiro costuma seguir um padrão familiar transgeracional, sendo repassado de avós para pais e de pais para filhos, geração a geração, de maneiras tanto conscientes quanto inconscientes.

Segundo a psicóloga mexicana Gloria Noriega, que baseia suas pesquisas de comportamento na Análise Transacional, a transmissão transgeracional é a passagem, de uma geração para outra da mesma família, de valores, traços relacionais e emocionais, respostas biológicas e fisiológicas, temas e ideologias da própria cultura de pertencimento. “Os scripts transgeracionais são padrões sistêmicos inconscientes que as pessoas repetem em famílias, grupos e organizações por meio de crenças, emoções e comportamentos que recriam a história e os eventos de vida vividos por seus ancestrais”, afirma Gloria em um artigo publicado em 2008.

Portanto, quando um casal se forma, são dois sistemas familiares que passam a conviver em vários aspectos, incluindo o financeiro. “Os valores familiares são essenciais no repasse das informações sobre o uso do dinheiro. Os prejuízos de uma não educação financeira costumam ser vistos na fase adulta, quando o indivíduo assume sua vida e/ou decide compartilhar a vida com outra pessoa. Mesmo que os dois tenham recebido educação financeira, o fato de virem de sistemas diferentes já traz a necessidade de ajustes”, afirma a psicóloga Aline Peres de Carvalho.

Gerenciamento em casal

Freepik.com

A médica Rosecler Alice da Silva está em um processo de coaching financeiro e conta que entender a influência da família na maneira como se relacionava com o dinheiro foi fundamental para iniciar a sua transformação. “Meu pai era displicente com o dinheiro, minha mãe era o oposto e costumava julgar as pessoas pelos recursos financeiros. Então, desde pequena, decidi que ganhar dinheiro era uma questão de sobrevivência. Lembro que, ao receber meu primeiro salário, paguei todas as contas, liberando meus pais das despesas comigo, e decretei internamente que era minha obrigação, a partir daquele momento, ajudá-los financeiramente, mesmo que ninguém tenha me pedido nada na época. Para dar conta do que assumi de despesas, precisei trabalhar também à noite e nos finais de semana. Só que eu trabalhava mais, ganhava mais e não cuidava do dinheiro, então estava sempre faltando. Vivi anos assim, sem saída, até que entendi que precisava de suporte externo para interromper este ciclo”, revela.

Em seu processo de desenvolvimento, a partir dessas revelações, Rosecler entendeu que era necessário colocar energia na relação com o dinheiro para aprender a fazer diferente do que tinha feito anteriormente. E isso incluiu conversas periódicas com sua família de origem e com o marido sobre suas novas decisões. “Hoje tenho uma relação mais madura com o dinheiro, não tenho mais medo de pensar nele. Até pouco tempo atrás, eu tinha uma sensação de não merecimento, era um temor que o dinheiro fosse usado de maneira inadequada. Eu também acreditava que as pessoas me viam através do dinheiro e não enxergavam quem eu realmente era. Agora posso dizer que alterei significativamente a relação com o meu dinheiro. Antes era pavor, hoje o defino como uma segurança”, avalia.

Atualmente, o casal faz o gerenciamento dos gastos mensais familiares em parceria. E são criativos nas ferramentas. “Criamos até um grupo de WhatsApp para nós dois só para anotar em tempo real os gastos do dia a dia, facilitando o nosso controle”, conta a médica.

Os diferentes diagnósticos

A dificuldade com o dinheiro pode ser um sintoma de prejuízos em outras áreas da vida. Falta de informação, desregulação emocional, disfunção cerebral e aprendizagem errônea são alguns motivos para isso. Segundo a psicóloga Aline, somente um diagnóstico com profissionais especializados evidencia as causas, que então podem ser tratadas adequadamente, oferecendo à pessoa a atualização de modelos de relacionamento com o dinheiro.

“Convivo no atendimento clínico com aspectos emocionais dos pacientes que reforçam comportamentos de escassez ou de abundância, conectados diretamente com a educação financeira familiar. Também há quem não tem permissão de desfrutar a vida e vive em privação emocional e financeira. Há quem quer ter muito dinheiro, mas não sente plenitude e segurança com nenhum valor. E o contrário também é verdadeiro: alguém com pouco dinheiro pode se sentir realizado. Também há questões psiquiátricas a considerar: pensamentos impulsivos e o sistema de recompensa desregulado”, relata.

“Não devemos rotular quem apresenta dificuldades, pois as causas podem ser muitas”, afirma taxativa. Neuropsicólogos e psiquiatras podem fazer uma avaliação do funcionamento cerebral; psicoterapeutas, consultores financeiros, coachs ou mentores podem oferecer um espaço seguro para refletir sobre padrões de comportamento, oferecer informações para um novo aprendizado e dar suporte para montar um plano de ação para viver de forma diferente.

A dedicação de Rosecler em seu processo de mudança tem dado resultado. “Hoje o dinheiro me favorece, é justo, traz segurança e ajuda no alcance dos meus objetivos. Ainda sinto um pouco de estranheza neste novo lugar, que não me impede de me manter firme no planejamento e desfrutar dos recursos que eu crio”, comemora.

Em seu último livro publicado, Eric Berne descreveu o diálogo com uma paciente que ouviu muitas vezes da sua mãe: “A vida é uma luta, fique em casa com o papai”. Essa paciente buscou suporte para trabalhar sua própria autonomia. Em uma sessão, ela perguntou a Berne:

–  O que faço para ficar boa?

E ele respondeu:

– Cuide das suas coisas. Pare de lutar e comece a viver.

Michele Thomé é jornalista, professora e estudiosa do comportamento humano. Gosta de tomar café, de fazer mudinhas de plantas para presentear os amigos e de colecionar miniaturas de cadeiras.

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