“Filhos gamers”

Artigos Recentes

Crônicas interativas

Juntos, apresentaremos aos outros leitores uma nova obra de arte: crônicas interativas sobre fatos do cotidiano...

A luta para adaptar o trabalho em tempos de pandemia

O impacto da pandemia na taxa de desemprego foi de um aumento de 27,6%, obrigando adaptações com as tecnologias digitais...

Por João Dias

Os desafios do convívio familiar diante dos jogos on-line e a importância de os pais terem conhecimento do universo digital no qual os filhos estão inseridos

Os jogos on-line ganharam e vêm ganhando força em meio à era digital, principalmente com o advento das redes sociais. Se no passado a brincadeira era corpo a corpo, agora é “celular a celular”, “computador a computador”. Cada vez mais realistas e com inúmeras funcionalidades, os jogos passaram a fazer parte do repertório de entretenimento de crianças e adolescentes. Para cada jogo uma história e um contexto, e para todos eles incertezas, benefícios e malefícios.

Segundo Geraldo Luiz de Souza, filósofo e mestrando em ciências humanas, os jogos on-line estão inseridos no mundo como uma nova forma de interação social: “A interação social que há por meio da tecnologia é benéfica. Por outro lado, o risco é a perda da dimensão da realidade. Há um mergulho nos relacionamentos virtuais. De um lado, você desenvolve uma aproximação com quem não conhece fisicamente e, do outro, se afasta das pessoas do convívio físico”.

Gustavo Keiji, 13 anos, e Igor Hideek, de 11, são irmãos. Eles nasceram na chamada “era digital” e são gamers desde os 7 anos. “Eu conheci os jogos on-line através do YouTube”, conta o irmão mais velho. “Eu conheci pelos meus amigos que jogavam e me contaram como era”, conta o mais novo.

Para Igor Hideek, o que mais chamou a atenção nos jogos on-line foi o fato de o adversário não ser um computador, e sim uma pessoa. “Eu gosto de jogar na internet com os meus amigos porque a gente conversa sobre o jogo e também sobre assuntos aleatórios, como a escola, por exemplo”, relata, acrescentando que, além de jogar com os amigos, joga também com os primos que moram no Japão.

Marcelo Dias e Tânia Zen Dias são pais dos irmãos Gustavo e Igor. Eles contam que, quando os filhos começaram a jogar, foi uma grande surpresa, por conta da violência contida nos jogos. “Nós resistimos muito por conta da violência do jogo. Questionávamos se era o momento ou até onde esses jogos poderiam influenciar a vida deles, por conta do processo de formação pelo qual estão passando”, relata o pai. Mas a “saída foi permitir conscientizando”, complementa Tânia.

Pontos positivos e negativos dos jogos on-line

Teddy Guerrier – Unsplash

Os pais afirmam que os jogos on-line têm seus pontos positivos vistos pelo lado da diversão e da interação com os amigos e familiares. Mas Marcelo destaca as regras internas da casa: “O tempo máximo de jogo por dia é de 1 hora, e antes do jogo vêm as tarefas escolares, que devem estar em dia em primeiro lugar”. E acrescenta: “Não é permitido jogar de madrugada, além de não poderem conversar com pessoas ‘estranhas’. Por isso, eles interagem apenas com os amigos e primos”.

Marcelo afirma que, eventualmente, olha o histórico dos celulares e computadores dos filhos, porém, segundo ele, “o mais importante é a relação de confiança que criamos com eles”. E quando questionado sobre quais dicas ele e a esposa dariam para os pais, são enfáticos: acompanhar, saber o que está acontecendo, priorizar os compromissos, dialogar. “Perguntamos sempre para os nossos filhos com quem eles estão conversando, se alguém diferente procurou por eles na escola, e orientamos que eles não passem informações para ‘estranhos’”, comenta.  

Para Luciana Negrão, psicóloga clínica e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Neuropsicologia, “os jogos estimulam áreas diferentes do cérebro, como a percepção, partes sensoriais e motoras. Além disso, eles também estimulam questões como planejamento, desenvolvimento estratégico, capacidade de tomada de decisão, entre outras habilidades”.

Negrão aponta que os jogos, em contrapartida, propiciam a falta de controle emocional. “Eu atendi uma criança com excelente formação e pais muito presentes, porém ele jogava muito, e um dia ele perdeu no jogo e foi muito criticado. Com isso, ele arremessou o controle e quebrou a televisão.” Ela conta que a atitude dos pais foi puni-lo deixando-o sem televisão.

Do ponto de vista da interação familiar, Luciana afirma que os jogos podem contribuir quando os pais, mesmo não entendendo e não tendo as habilidades dos filhos, demonstram interesse por esse universo: “É interessante quando os pais procuram entender do que se trata o jogo, qual o objetivo, quais estratégias que eles montam, pois esse interesse gera uma aproximação”.

Os benefícios dos pais jogarem com os filhos

Ketut Subiyanto – Pexels

Marcelo Dias conta que já aceitou o convite do filho para jogar algumas partidas, mesmo não sabendo jogar. “A meu ver, foi bom para ver o jogo de perto, como era, e também para interagir com ele. Era o que ele mais queria.” Tânia Dias acrescenta que o filho mais novo, Igor, conta mais sobre os jogos dentro de casa, e com isso acabam interagindo com ele sobre o assunto.

A psicóloga Luciana analisa que, com essa aproximação, os filhos passam a se sentir importantes por ensinarem aos pais algumas questões em relação aos jogos. “Os pais podem mostrar-se humildes ao dizer que não entendem, ou ao afirmar que os filhos jogam muito bem e eles (os pais) não, é uma forma de valorizá-los neste contexto. É possível estimular muito – através dos jogos on-line – o diálogo”, orienta.  

De acordo com ela, os pais precisam acompanhar os filhos em estado de atenção. “A preocupação deve começar quando ocorre o prejuízo no convívio familiar, tanto com os amigos quanto com a família. A preocupação deve começar quando não há outro tipo de atividade além dos jogos. Há alguns critérios para diagnósticos de transtornos que apontam que mais de 2 horas de jogo podem vir a ter uma consequência patológica”, comenta a psicóloga.

Geraldo Luiz acrescenta: “Não temos que ter uma rejeição em relação a estes jogos. É preciso estar atento, logicamente, porque algo que muitas vezes começa de forma muito saudável, porém é mal administrado, passa a gerar prejuízos. Estudos apontam que o comportamento de um jogador viciado é o mesmo comportamento de um dependente químico, por exemplo”, salienta. 

É necessário os pais estarem atentos ao comportamento dos filhos

Para Negrão, “não há uma receita pronta, mas eu recomendo a observação constante dos pais para com os filhos quanto à relação com eles, à educação, aos sentimentos, à saúde, além de proporcionar um ambiente agradável de diálogo, a fim de que os filhos queiram estar e pertencer ao convívio familiar. E se vierem a existir consequências mais agravantes, sugiro que procurem ajuda, procurem profissionais capacitados, porque, quanto antes elas forem sanadas, maiores serão os benefícios para os filhos”.

Você já jogou uma partida com o seu filho? Faça essa experiência. A vida familiar pode ser muito mais saudável com equilíbrio, e inserir-se no universo digital de seus filhos pode ser uma ótima oportunidade de relacionar-se melhor com eles.

João Dias é jornalista, especialista em Marketing Digital pelas faculdades Cásper Líbero e USP de São Paulo, empresário e palestrante. Gosta de ensinar e de escrever; acredita que a educação é a ferramenta para a formação humana e a chave para a transformação social.

Deixe seu comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

error: Ação desabilitada