Família x alcoolismo

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Por Ivonete Kurten

O que fazer quando a doença do alcoolismo se instala dentro de casa? Conheça a história de dois casais cujas ações resultaram na felicidade da família

Experiência de Deus, apoio da(o) esposa(o) que não desistiu do(a) amado(a), família, amigos que apostaram na cura, a Igreja e a comunidade de fé são caminhos descobertos por diversos casais para a superação dos conflitos conjugais decorrentes do alcoolismo, doença que afeta a saúde física e o bem-estar emocional e comportamental do indivíduo e que é um fator de desajuste intrafamiliar e social.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de três milhões de pessoas morrem por ano em decorrência do uso nocivo do álcool. Outro dado que ajuda a entender o tamanho do problema são as doenças e lesões relacionadas à ingestão de bebidas alcoólicas, como a cirrose.

Dados do Ministério da Saúde de 2019 apontam que 17,9% da população adulta no Brasil faz uso abusivo de bebida alcoólica. O percentual é 14,7% maior do que o registrado em 2006 (15,6%). A doença é grave pelas consequências provocadas não só na vida do indivíduo, mas também na de sua família e comunidade.

Dos dados para os fatos

João Santos do Nascimento e Maria das Graças Santos do Nascimento, de Natal (RN), possuem três filhos e partilham a sua experiência nesta reportagem.  

“Comecei o meu envolvimento com o alcoolismo e drogas muito cedo, por volta dos meus 14 e 15 anos. Já tinha um histórico familiar de dependência de drogas. A juventude e fase adulta foram vividas assim, envolvido com más companhias. Conheci a minha esposa muito jovem. Ela tinha 17 anos, e eu, 19. No início do relacionamento era tudo muito bom, mais depois o vício foi me envolvendo e me tirando da família. Os ‘amigos’ eram mais presentes na minha vida do que ela e os filhos. Faltava ao trabalho com frequência. Meus fins de semana eram longe de casa. Saía do trabalho na sexta-feira e só aparecia dois dias depois. A minha família ficava em casa e eu não me preocupava. Achava normal. Pensava que dar a alimentação e moradia era o suficiente. Existiam muitas brigas e discórdias, e na frente dos filhos”, narra João.

Maria das Graças afirma: “Passamos muitos anos assim, nos maltratando com ofensas e desrespeito, até que fui convidada a participar de um encontro na igreja. Fui só. Sem ele. Decidi que, daquele dia em diante, nossas vidas tomariam um novo rumo. Seriam conduzidas por Deus. Começamos um caminho de fé em casa. Aos poucos, percebi mudanças na vida de João. Ele queria se libertar. Num domingo como tantos outros, João saiu de casa depois de uma discussão. Encontrou-se com os colegas, mandou comprar drogas, bebidas. E ele diz que naquele dia viu, como num filme, toda a história de nossa família: momentos felizes, as dificuldades, as brigas, e compreendeu que Deus pedia uma decisão dele, ou seja, aquela vida de sofrimento, de vícios, ou a esposa, o lar, a família”.

João comenta a sua decisão diante do acontecimento que a esposa relembrou. “Eu disse sim. Quero a minha família. Naquele momento senti algo novo. Diferente. Levantei-me, dei as costas e não olhei para trás. Depois dessa experiência, sou um homem liberto. Muitos não acreditaram em mim. Mas tive o apoio da minha família. Dos meus filhos, da minha esposa, que perseverou e não desistiu de mim. Faz dez anos que não uso drogas nem bebidas alcoólicas. Hoje caminhamos em uma comunidade católica: Casais Vida Nova”, expressa confiante o esposo.

Rainier Ridao – Unsplash

Um dia de cada vez

A mesma problemática é encontrada em lares espalhados por todas as regiões do país. Nem sempre é fácil para o casal abrir o coração e falar de suas experiências com a doença do alcoolismo.

De casais com os quais conversamos e que preferiram não dar entrevista ouvimos: “Não queremos mais falar sobre isso”. Mas completavam: “Mas para superar é preciso pedir força para Deus, rezar muito e viver um dia de cada vez. Ter muito amor no coração, perdoar sempre, que um dia Deus ouve nossa oração”.

Em Ivaiporã (PR), norte do Paraná, na família de Zenir da Costa Primo Fenelon e Daniel Machado Fenelon, a doença do alcoolismo também bateu à porta. Mas com muita persistência, fé e coragem, a família teve um final feliz e hoje ajuda outros casais que vivem a mesma experiência.

Ela conta como foi o processo de recuperação do seu esposo. “Casei-me com 27 anos, e, quando minha primeira filha nasceu, meu esposo começou a se envolver com bebidas e foi se afundando cada dia mais. Tivemos mais dois filhos e os eduquei sozinha, mas sempre confiando em Deus. Meu joelho sempre se dobrava, e elevava minhas preces a Deus, a Nossa Senhora e a Santa Mônica, pois tinha fé de que um dia esse sofrimento cessaria. Com muita oração ao Sagrado Coração de Jesus e às Santas Chagas, missas diárias, terços, adorações ao Santíssimo, vivia as 24 horas em oração e as dedicava à cura do meu esposo.

No ano de 2016, depois de muita insistência, ele aceitou ajuda e passou a participar do grupo dos Alcoólicos Anônimos em minha paróquia e, ao perceber que sua situação estava piorando, pediu para ser internado. Foram quatro meses entre hospital e a chácara de recuperação do Perpétuo Socorro. Neste ano, 2020, meu esposo completa quatro anos sóbrio, e, depois de 30 anos de casamento, vejo como sua cura mudou minha família. O que nos mantém confiantes e alegres é que, depois de sua cura, ele tem ajudado pessoas que vivem a doença do alcoolismo, levando-as para o grupo e, em outros casos, para a chácara de recuperação. A união, a oração e a fé em Deus movem montanhas. A quem passa por esse tipo de situação digo: tenha força e fé, pois Deus nunca desampara seus filhos e, por mais que pareça difícil, a vitória chega”, diz a esposa feliz.

Buscar ajuda médica

O Diretório da Pastoral Familiar da Igreja no Brasil orienta os membros da Pastoral Familiar a acompanhar de perto a família, observando caso por caso.

O monge beneditino dom Bruno Carneiro Lira apresenta as orientações que a Igreja Católica dá às famílias que vivem a mesma realidade da doença do alcoolismo: “A primeira orientação que a Igreja dá é a oração de qualidade, ou seja, confiar todo o problema ao Senhor, pedir com fé e insistência que se faça a vontade dele para o bem da unidade matrimonial. Junto com essa atitude de fé, orientamos a família a usar de caridade e ter a certeza de que as atitudes negativas do alcoólatra são fruto da doença, e não maldade da pessoa. Por isso é importante pôr em prática o perdão evangélico e o acolhimento. A outra postura é orientar para buscar a ajuda médica, um profissional da área da psicologia, ou mesmo psiquiatria, que possa acompanhar com terapias e, se for o caso, através de medicamentos”, conclui o sacerdote.

Ivonete Kurten é religiosa, jornalista e diretora de Marketing da Paulinas. Autora dos livros Comunicação e família e Comunicação na liturgia – A transmissão do mistério e coautora do livro Um mês com a Rainha do Céu, todos publicados pela Paulinas Editora. Gosta de cozinhar e cultivar plantas, que são formas de recordar sua história de vida.

4 COMENTÁRIOS

  1. Me fez muito bem ler este artigo. Obrigada Irmã Ivonete! Minha família estamos vivendo a luta contra o alcoolismo do meu pai. Esperamos que um dia a cura possa chegar também na nossa casa. Confíamos em Deus.

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