As telas que amenizam a solidão dos idosos

Artigos Recentes

Respirar um futuro melhor

“Não posso respirar!” É um grito dramático, é o grito da vida. Abala global e localmente qualquer consciência social, ecológica, econômica...

Crônicas interativas

Juntos, apresentaremos aos outros leitores uma nova obra de arte: crônicas interativas sobre fatos do cotidiano...

Por Karina de Carvalho

Idosos ressignificam suas rotinas e encontram no virtual uma forma de ficar isolados, mas não sozinhos

“Isolamento” e “distanciamento” tornaram-se, neste ano, palavras corriqueiras do nosso vocabulário. O novo coronavírus (Covid-19) é um vírus tão pequeno, invisível aos olhos humanos, e ao mesmo tempo tão perigoso, que impôs à humanidade uma mudança de comportamento nunca antes experimentada em proporções mundiais.

O abraço e o beijo carinhoso em quem amamos se tornaram sinônimo de perigo. Até mesmo um aperto de mão tornou-se arriscado. O novo contexto exigiu, como medida de prevenção, um cuidado maior com as pessoas que fazem parte do grupo de risco, como os hipertensos, asmáticos, diabéticos, fumantes e idosos.

Segundo dados de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui mais de 28 milhões de idosos, ou seja, pessoas com mais de 60 anos, um número que representa 13% da população brasileira. Os idosos talvez sejam o grupo que mais tem sofrido as consequências dessa pandemia. Muitos que já sentiam solidão em dias normais, provavelmente, experimentam esse sentimento triplicado no peito.

Aquela alegria de receber a visita dos filhos e netos, aquele prazer de sair, conversar com os vizinhos e amigos, participar das celebrações religiosas e tantas outras atividades, tudo isso foi dissipado pelo medo de contrair esse vírus perigoso. Deixar os idosos isolados em casa, mesmo sentindo as dores da solidão, tornou-se o maior gesto de amor.

A forma de reinvenção dos idosos na pandemia

Com uma vida social movimentada pela dança, compromisso fiel de três a quatro dias da semana, Izoneia Fernandes, de 79 anos, viu uma mudança brusca acontecer no seu cotidiano. Casada, mãe de três filhas e avó de três netas, ela foi obrigada a se trancar em casa até que o vírus não represente mais um perigo. “Fiz quatro meses de isolamento rígido. Foi muito difícil, porque eu tinha uma vida muito ativa e de repente fui proibida de sair. Agora ando saindo um pouco, ao menos para ir ao mercado, com todos os cuidados, porque se eu não morrer com a Covid-19, posso morrer de ficar dentro de casa”, relatou Izoneia.

Foram as próprias filhas e netas que mais insistiram para que Izoneia fizesse o isolamento corretamente. Mas, para amenizar os efeitos da solidão, a motivaram e ensinaram a fazer uso da tecnologia, para que pudesse encontrar, ao menos virtualmente, com as pessoas que ama. Antes da pandemia, o uso do celular era mínimo para ela, pois gostava mesmo é de estar junto com a família e os amigos, porém, agora, o uso tornou-se essencial para que não “morra de ficar dentro de casa”.

As chamadas de vídeo com as filhas e as netas e com os grupos de dança tornaram-se corriqueiras. Já chegou a participar de uma reunião com 14 amigas que antes reuniam-se, frequentemente, para ir aos bailes. Também já fez uma live para os amigos, cantando no karaokê que tem em sua casa. Cantar é outro de seus hobbies. Para usar essas tecnologias, contou com a ajuda de sua neta que mora próximo e também do marido, que entende um pouco mais do que ela.

As novas tecnologias como aliadas contra a solidão

Edward Jenner – Pexels

A mudança na rotina também foi brusca para Adelina Mendes, de 82 anos. Ela mora na cidade de Antonina, no litoral paranaense, com uma das filhas e uma neta. Mas, diferentemente de Izoneia, antes da pandemia, seus dias eram marcados pela participação na Igreja Católica. Participava assiduamente das missas na Paróquia Nossa Senhora do Pilar e da oração do terço da misericórdia, todas as sextas-feiras, às 15 horas.

Tanto as celebrações quanto os encontros foram suspensos desde março. A partir de então, ela entrou num isolamento rígido, não saiu mais de casa. A filha e a neta assumiram a função de providenciar tudo o que ela precisasse. Até mesmo uma forma de continuar a participar da sua comunidade e de estar perto das outras duas filhas que residem em Curitiba.

Um tablet se tornou o instrumento para que o isolamento não fosse sinônimo de solidão. “Eu achava que jamais ia dar conta de mexer no tablet e nessas redes sociais. Mas minha neta me ensinou um pouco e depois fui me virando”, contou Adelina. Agora, ela participa da missa de sua paróquia, que faz uma transmissão ao vivo no Facebook, e continua a rezar o terço da misericórdia com o seu grupo, no mesmo dia e horário, por meio de uma videoconferência. Além da participação na comunidade, Adelina consegue se comunicar com as filhas que moram em Curitiba, semanalmente, por videochamada.

Durante esse tempo, não foi só a se comunicar virtualmente que Adelina aprendeu. Ela descobriu no YouTube uma plataforma para aprender coisas novas. Como gosta muito de artesanato, começou a assistir a tutoriais e aprender novas artes. “Estou me sentindo bem, porque com esse tablet eu estou aprendendo uma porção de coisas no YouTube. Assim, percebo que tenho usado bem o meu tempo. Por isso, acho que estou levando esse isolamento numa boa, aprendendo e rezando pelas pessoas que necessitam e também pelas que perderam seus parentes”, contou Adelina.

Muitos pensadores e estudiosos da comunicação já haviam alertado para o risco de os dispositivos móveis isolarem as pessoas, afastando-as de quem está perto para conectar-se com quem está distante. Neste momento da história, no entanto, em que todos são obrigados a se manter distantes e até mesmo isolados, eles se tornaram um instrumento essencial para que possamos ficar isolados e protegidos em casa, mas não sozinhos. É pelas telas que os encontros que dão significado e alegria à vida têm acontecido.

Karina de Carvalho é jornalista, curitibana e trabalha no âmbito da comunicação na Igreja Católica. Na comunicação se aventura por vários caminhos: escrever, diagramar, fotografar, filmar e editar. Escrever, porém, é uma das artes preferidas.

Deixe seu comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

error: Ação desabilitada