Já sou assinante!

Ainda não é assinante?

Identifique-se para ganhar mais 2 artigos por semana!

ou

ou Assine Já

Uma espiritualidade do perguntar - Revista Familia Cristã

Uma espiritualidade do perguntar

Stefan Spassov – Unsplash

As perguntas não são uma ameaça e não devem ser reprimidas, mas, antes de tudo, estimuladas e desenvolvidas

Por Mariana Aparecida Venâncio

Nós hoje vivemos o que os estudiosos costumam chamar de pós-modernidade. Para além dessa nomenclatura, precisamos considerar que as relações e as estruturas que criamos em nossa sociedade contemporânea nos desafiam a todo momento, exigindo reflexões e escolhas que, muitas vezes, não impactam somente em nossas vidas particulares, mas na vida das comunidades que vamos criando – nosso grupo de amigos, nossa família, nossa comunidade eclesial, nosso país, a sociedade global.

A pós-modernidade tem como característica a fluidez: são fluidas e mutáveis as identidades e as verdades. Não se vê como eterna e imutável nenhuma instituição ou discurso. O ser humano pós-moderno não se contenta com explicações absolutas sobre o universo e a sua própria existência. Não há uma identidade fundamental com a qual nascemos e morreremos: somos seres em constante mudança e autodescoberta.

É exatamente por isso que muitos cristãos, hoje, ainda reproduzem o discurso de que a pós-modernidade é uma ameaça à Igreja, à família, ás verdades de fé que carregamos. Mas será que é mesmo assim? Ou será que a pós-modernidade é uma oportunidade diferente para vivermos de modo mais consciente a nossa fé e a nossa espiritualidade?

Mudança de tempos

Foi-se o tempo em que as mães faziam as escolhas por seus filhos e eram obedecidas sem nenhum questionamento. Talvez assim fosse realmente mais fácil educar: eu (penso que) sei o que é melhor para meu filho, escolho por ele e ele aceita sem questionamentos. Assim também a fé foi estabelecida em seu lugar inquestionável para muitas gerações, que enxergavam na Igreja a residência da verdade absoluta, sem se perguntarem de onde vinham essas verdades e como elas deviam ser, de fato, enxergadas e vividas. A pós-modernidade criou, no entanto, homens e mulheres que, antes de tudo, são capazes de perguntar. As respostas talvez nos interessem muito menos, hoje. As crianças questionam suas mães desde muito pequenas e crescem formulando questões, cada vez mais maduras, sobre sua própria identidade e sobre as coisas, verdades e instituições que são estimuladas a conhecer.

Pixabay.com

E isso é um problema?

Sei que muitas pessoas enxergam isso como algo desestabilizor, que tira a hegemonia da fé – e mais ainda – da Igreja. Mas não vejo assim. As perguntas da pós-modernidade nos estimulam a vivermos, de maneira mais consciente, tudo aquilo que nos cerca – somos mais conscientes de quem somos, de quais as nossas motivações, do nosso papel na sociedade. Quando estamos inseridos em uma comunidade de fé, as perguntas nos levam a vivermos de modo mais consciente a nossa fé. Investigamos as razões que estão por detrás dos discursos, os motivos que conduzem a certas práticas, o fundamento das verdades que proclamamos. Decerto, Deus não nos deu conhecimento e sabedoria para que não os aplicássemos, ao contrário, concedeu-os para que fôssemos capazes de dar razões da nossa fé e para que a vivêssemos de modo mais corajoso, diante da fluidez dos nossos tempos. Não é nossa fé que muda, mas o modo de lidarmos com ela – não mais como indivíduos que simplesmente obedecem no silêncio passivo, mas como pessoas corajosas que questionam e procuram entender sempre mais.

Um desafio sempre novo…

Mas reconheço que a pós-modernidade nos desinstala. Principalmente os que exercem algum papel de liderança em nossas comunidades – padres, diáconos, catequistas, coordenadores de pastoral… – precisam ser preparados para a reflexão, para o diálogo diante das perguntas que podem aparecer. Muitos leitores vão, com certeza, recordar situações em que ficaram “numa saia justa” por não saberem responder a alguma pergunta. Assim, as comunidades precisam estar atentas à formação de qualidade de leigos e líderes, porque o nosso tempo os vê como pessoas que podem dialogar e discutir, oferecer uma visão das razões pelas quais a nossa fé, em tempos tão fluidos, ainda permanece firme e – principalmente – digna de crédito.

É difícil enxergar que perguntas não representam uma ameaça e não devem ser reprimidas, mas que, antes de tudo, podem ser até estimuladas e desenvolvidas. Às crianças e aos jovens de hoje nem sempre devemos oferecer respostas, mas diálogos fecundos por meio dos quais eles possam encontrar suas respostas ou, então, reformular suas questões. Esses espaços de diálogo não nos devem assustar, especialmente se os alimentamos a partir da fé, de uma espiritualidade do perguntar – não só do responder.

Não nos esqueçamos de que o Senhor atravessou diferentes tempos e sociedades, deixando suas marcas na história, desde Abraão. Agora, também nas estruturas fluidas da pós-modernidade, ele vai encontrando o ser humano e deixando-se encontrar. Basta que saibamos reconhecer que cada um de nós, em suas perguntas mais particulares, é capaz de encontrar um caminho para Deus.

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa da Bíblia como literatura, é autora de roteiros homiléticos para a CNBB e oferece cursos bíblicos em paróquias. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar.

Contato: marianaavenancio@gmail.com

Artigos Recentes

Deixe seu comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

error: Ação desabilitada