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Uma espiritualidade chamada feminino - Revista Familia Cristã

Uma espiritualidade chamada feminino

A vida das mulheres se torna um sinal do que o Senhor é capaz de realizar coletiva e definitivamente: a escuta e a salvação

Vytas sdb/ Cathopic.com

Por Mariana Venâncio

As personagens femininas da Bíblia, em uma perspectiva literária, são construídas de maneira a privilegiar o íntimo, bem mais que as personagens masculinas. Se examinarmos a figura de mulheres importantes no Antigo Testamento, como Sara, Rebeca, Raquel, Tamar, Raab, Rute e Ester, por exemplo, encontraremos um conjunto de características comuns a suas identidades, dentre as quais é importante destacar o silêncio, a sensibilidade às necessidades coletivas, suas ações precisamente relevantes, a coerência entre as atitudes e sua humanidade, a angústia que as aproxima de Deus.

Elvira Moisés, em um artigo que analisa a construção identitária de personagens femininas no Gênesis e no Êxodo (2009), percebe com grande maestria que é a condição de angústia que faz com que essas mulheres do Antigo Testamento se tornem interlocutoras de Deus. Quando experimentam a situação da preferência e do conforto, suas vidas não são palco da ação do Senhor – vide o exemplo de Raquel. Mas, quando experimentam a rejeição e a angústia, aí elas se aproximam da condição mais emblemática que distingue o povo amado por Deus. É a angústia e a opressão do povo que despertam os ouvidos do Senhor no Êxodo e são essas condições que tornam as mulheres da Bíblia, em certa dimensão, as Mães do povo: aquelas que entendem suas angústias, que se identificam com suas dores e que se tornam seus sinais. Por consequência, sua vida se torna um sinal do que o Senhor é capaz de realizar coletiva e definitivamente: a escuta e a salvação. 

Emmanuel Levinas, no prefácio à obra As matriarcas (1992), de Catherine Chalier, conclui que “as palavras destas mulheres e seus atos e seus gestos e seus passos desceram as dimensões e o sentido do humano”. É nessa perspectiva que o feminino na Bíblia se torna uma espiritualidade possível a todas as pessoas.

Olhar voltado ao outro

Uma espiritualidade da escuta, da sensibilidade e da ação responsável em favor do outro. O filósofo define a identidade dessas personagens como “o ser para o outro”, a existência que busca a justiça e que é, portanto, amor. É preciso, no entanto, entender que esse “ser para o outro” não significa a abnegação de si mesmo, a renúncia aos próprios sonhos, a ignorância dos próprios sentidos e intuições. Não é silêncio passivo – vide a história de Rebeca. Ela pronuncia poucas palavras nos relatos bíblicos e poderíamos vê-la como alguém aprisionado no silêncio. No entanto, suas falas representam seus próprios desejos, que direcionam o destino do povo sempre de maneira muito acertada. Elas não erram, mesmo quando enganam. Isso nos estranha, mas mostra o quão sensíveis elas estão às profundidades de nossa humanidade e o quanto elas são capazes de lidar, domar, superar, moldar e usar a favor de todo o povo as camadas mais profundas de suas próprias identidades. Como é difícil conviver com o próprio silêncio! Elas, porém, não só conviveram com esse silêncio que revela o mais íntimo, como o deixaram aflorar de maneira a dar um rumo certo e um sentido coerente para a história de todo o povo. Não existiria povo “de Israel” se Rebeca não tivesse assumido sua preferência pelo filho mais novo e deixado que essa intuição agisse em favor do povo, como marca da ação do Deus verdadeiro na história da primeira aliança.

Cathopic.com

Evangelho, abertura ao outro

Nesse sentido, no ser feminino há sementes da vivência autêntica do Evangelho, que o faz ser uma dimensão não reservada a uma parcela de pessoas, mas uma sensibilidade transcendente que deve estar presente no coração de todo aquele que deseja se aproximar do caminho do discipulado – porque viver o Evangelho é, antes de tudo, essa abertura ao outro que nos faz estabelecer uma aliança com Deus. Que tal, portanto, revisitar as narrativas dessas mulheres do Antigo Testamento, que tanto têm a nos ensinar, hoje? Decerto, muito delas ainda pode viver em nós, porque, de um lado, experimentamos a angústia que nos aproxima de Deus e faz com que sua ação tenha lugar em nosso cotidiano; por outro lado, porque fazemos parte de uma sociedade em que se tornaram raras as virtudes da escuta, do silêncio, da sensibilidade às necessidades coletivas. Ser profeta hoje não é só sobre ser enérgico como Isaías ou Amós, mas sobre a sutileza de ser sensível como Sara, Rebeca, Maria…

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa da Bíblia como Literatura, é autora de roteiros homiléticos para a CNBB e oferece cursos bíblicos online. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar. Contato: marianaavenancio@gmail.com Instagram: @cursosbiblicos.mv

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