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O sistema meritocrático faz sentido? - Revista Familia Cristã

O sistema meritocrático faz sentido?

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Sistema defende que todo indivíduo é capaz de prosperar apenas com seu próprio mérito

Por Erica Hong

Há pouco mais de 60 anos, quando o mundo vivenciava mudanças em diversas esferas sociais, como movimentos contraculturais e guerras, surgia o termo “meritocracia”. Tal palavra, mencionada pela primeira vez no livro de Michael Young, em 1959, The Rise of Meritocracy [A Ascensão da Meritocracia], foi cunhada pelo próprio autor para retratar um mundo distópico, onde toda autoridade é distribuída conforme o mérito individual.

Apesar de a expressão ser bastante nova, desde a antiguidade é possível observar elementos meritocráticos. Caminhando um pouco mais na linha do tempo, após a Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte decretou que a origem de nascimento não contaria mais para o ingresso nas carreiras públicas. A partir daquele momento, não seria feita distinção entre quem veio de uma família nobre ou burguesa. Todos deveriam ascender socialmente através do esforço próprio.

Nesse sentido, quem nunca ouviu a frase: “Só depende de você”? Isso diz muito sobre como o imaginário da meritocracia ronda a sociedade. Mas, por fim, para deixar mais claro, a socióloga Angela Xavier explica que a meritocracia é uma ideologia político-social, baseada na hierarquização da sociedade, e tem como premissa a ascensão – seja no âmbito econômico, político, educacional, seja no empresarial – por mérito individual.

Na prática, cada indivíduo é responsável por alcançar as melhores posições sociais, dentro da estrutura de classe em que ele se encontra, independentemente da realidade em que vive. “Por exemplo, o sucesso educacional de Maria, que está batalhando para se manter na universidade pública, seria responsabilidade exclusiva de suas atitudes, força de vontade, sacrifício, sem levar em consideração as suas condições sociais”, diz a especialista. 

Além disso, uma curiosidade é que na Itália, em uma cidade chamada Florença, as famílias mais ricas de hoje continuam sendo as mesmas há 600 anos. Isso quer dizer que quase 12 gerações usufruem das mesmas condições e alcançam as posições sociais que desejam. Será que todos conseguiram pelo seu próprio mérito ou foi uma sorte de berço?

Então, no exemplo, Maria, que talvez tenha de ter mais de um emprego para se sustentar, cursar a universidade, usar o transporte público, não se esforçou tanto quanto as gerações dessa família italiana?

Desigualdade social 

O Brasil está entre os dez países mais desiguais do mundo, segundo o último levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). E, ainda, o maior país da América Latina é um dos recordistas em concentração de renda no mundo. Isso significa que mais de 28% da renda está nas mãos de apenas 1% da população, de acordo com o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado antes da pandemia.

Desigualdade social
Pixabay.com

Para a socióloga, tratar da meritocracia em um país tão desigual como o Brasil não faz sentido. “Falar de um sistema baseado em méritos sem ter a consciência de que muitas pessoas não têm condições de pagar sequer o transporte coletivo para participar de processos seletivos, é uma falta absurda de consciência social”, afirma.

Angela Xavier ainda destaca outro discurso que anda de mãos dadas com a meritocracia: a romantização do sacrifício. “Como a mãe, exausta, é uma guerreira por ter jornada tripla e ainda cuidar dos filhos com excelência. O discurso meritocrático está totalmente aliado à romantização do sofrimento. O que acaba por retirar a responsabilidade pelas mazelas sociais dos órgãos governamentais”, aponta ela.

Do mesmo modo, segundo a gestora ambiental Camila Ohana da Cunha, um país com um histórico de exploração, que passou por um longo período de escravidão, o qual deixou marcas até hoje, não pode ser encaixado na meritocracia. “Para quem é negro e pobre, é necessário um esforço muito maior para conquistar estudo, profissão e sucesso do que para quem é branco e de classe alta. O ponto de largada de cada um é diferente, o acesso a conhecimento e oportunidades é diferente”, reforça.

O designer gráfico André Luiz Ribeiro segue na mesma linha de pensamento. Para ele, seria possível o sistema funcionar de maneira eficaz em um cenário utópico. Entretanto, ele vê como positivo o diálogo em torno do assunto, inclusive como forma de repensar e criar novas alternativas para conceder méritos e poder às pessoas de forma mais igualitária e justa.

Mas você pode ainda se perguntar: e quanto às pessoas pobres, que vieram da periferia e de alguma forma conseguiram “chegar lá”, não é mérito? Em parte sim, mas questões como tempo e lugar certo ou golpe de sorte também contaram com a chegada desse sucesso, ou seja, tudo o que envolve contexto social, momento histórico e político pode influenciar nessa trajetória.

Mas como reverter essa realidade? O ideal é oferecer a todas as pessoas condições iguais, o mesmo acesso para todos alcançarem seus objetivos. Para chegar a um cenário menos desigual e para que a meritocracia faça sentido, são necessárias políticas públicas voltadas para educação de qualidade, segurança pública e geração de emprego e renda, de acordo com a socióloga. E, além da análise crítica da população em relação à realidade do país, é preciso conhecer a história, ler e estudar fontes confiáveis.

Erica Hong é jornalista, apaixonada pelos seus cachorros e ama ler os mais diversos temas. Sociedade e cultura a inspiram. Admira quem dá voz àqueles que precisam ser ouvidos e sonha um dia também dar luz às questões sociais que vivemos. 

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