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Os impactos da pandemia na saúde mental das crianças e adolescentes - Revista Familia Cristã

Os impactos da pandemia na saúde mental das crianças e adolescentes

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Na pandemia a saúde mental das crianças e adolescentes foi afetada, aumentando o número de casos com depressão e ansiedade

Por Renata Rocha

Há mais de um ano convivemos com a pandemia do coronavírus. A vida mudou demais. São muitas as privações. O convívio social, o lazer ao ar livre, o contato físico, o uso de máscaras, a higienização, o medo da morte, as incertezas políticas e econômicas. Tudo isso tem abalado a vida da população e a saúde mental das crianças e adolescentes aumentando os casos de depressão e ansiedade, por exemplo.

De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entre um terço e metade da população exposta a uma epidemia pode vir a sofrer alguma manifestação psicopatológica, caso não seja feita nenhuma intervenção de cuidado específico para as reações e sintomas manifestados.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), antes da pandemia, o Brasil já era o país mais ansioso do mundo e, também, apresentava a maior incidência de depressão da América Latina, impactando cerca de 12 milhões de pessoas.

Saúde mental das crianças e adolescentes

Infelizmente, a depressão não é uma condição que afeta apenas pessoas na fase adulta. Crianças e adolescentes estão sujeitos a essa condição que se agrava em um cenário pandêmico.

Uma pesquisa realizada pelo grupo Apoiar, do Laboratório de saúde mental e psicologia clínica social do IPUSP, identificou os impactos na saúde mental dos adolescentes. O estudo foi realizado entre abril e setembro de 2020, com 1.500 pessoas entre 11 e 18 anos. De acordo com o levantamento, os principais sentimentos aflorados durante a pandemia entre o grupo pesquisado foram: tristeza, irritação e solidão. 

A professora Leila Tardivo, do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia (IP) da USP, explica que o número de adolescentes em busca de ajuda contra a depressão aumentou de forma significativa nesta pandemia. “Eu coordeno o grupo Apoiar On-line, e este ano o número de pessoas que atendemos aumentou consideravelmente. Em quinze dias, recebemos pelo menos oitocentos casos. Dentro do contexto da pandemia, os adolescentes sentem muita falta do convívio com os amigos, o que aflora os sentimentos de tristeza e solidão”, destaca.

De acordo com a professora, os principais sintomas de alerta são a irritabilidade e a tristeza; nestes casos, a orientação é buscar ajuda.

Impacto na saúde mental e no desenvolvimento intelectual

Saúde mental
Dra. Larissa Henriques Freire Krohling destaca que o tempo excessivo em frente às telas pode provocar transtornos de comportamento. Foto: Arquivo Pessoal

Para além das questões que afetam a saúde mental de crianças e adolescentes, outro problema preocupante neste período de pandemia são os impactos no aprendizado e no comportamento. 

De acordo com a médica neurologista infantil e pediatra Larissa Henriques Freire Krohling, estudos já comprovam que o tempo excessivo em frente às telas pode provocar transtornos de comportamento, como ansiedade, Transtorno Opositivo Desafiador, Déficit de Atenção, Transtorno de Leitura e baixo rendimento escolar. 

Segundo a especialista, um estudo realizado pelo Jornal Americano de Pediatria afirma que o tempo de tela influencia no desempenho cognitivo das crianças. “Isso pode gerar atraso no desenvolvimento delas. O tempo de exposição à tela influencia a visão, a interpretação audiovisual e elimina a oportunidade de desenvolver outras áreas do cérebro. Interfere nas habilidades interpessoais, motoras e na comunicação. Isso, de fato, pode atrasar o desenvolvimento da criança. Para ela ter habilidade motora para escrever, ter desenvolvimento emocional, por exemplo, ela precisa ter brincado bastante. Na frente das telas, as crianças apenas recebem informações e o cérebro não trabalha o suficiente para se desenvolver como deveria”, destaca a médica.

Autismo virtual

De acordo com dra. Larissa, um termo que já surgiu diante da realidade atual é “autismo virtual”. “Trata-se do excesso de tela que provoca uma debilidade na interação e na comunicação, que pode gerar um atraso na fala, por exemplo. Neste caso, os sintomas podem ser revertidos ao se tirar o hábito de acesso às telas na primeira infância”, explica.

A mudança de comportamento foi o primeiro sinal de alerta para a professora Aline Segrini de Oliveira, que a levou a desconfiar que o filho Pedro, à época com um ano de idade, poderia ter algum problema.

“Até 1 ano e 2 meses, meu filho era uma criança normal. Brincava, estava começando a falar as primeiras palavrinhas, e aí veio a pandemia. Como eu sou professora e precisava dar aulas, enquanto eu trabalhava, ele ficava aos cuidados da avó no quarto ao lado. E, para ficar quietinho, ele assistia a vídeos e filmes de carrinhos, que ele adorava. Com o tempo, o meu filho foi esquecendo como falar o que ele já tinha aprendido e só emitia sons dos carrinhos que ele via nos vídeos. Foi aí que eu vi que alguma coisa estava errada e que eu precisava agir”, lembra. 

A professora buscou ajuda médica e, após a realização de exames, recebeu o diagnóstico de que a criança tem características de uma pessoa com Transtorno do Espectro Autista, mas os especialistas desconfiam que na verdade ele é uma criança “pandêmica” ou portadora de “autismo virtual”.

Autismo virtual
A família inteira se uniu para ajudar Pedro a superar o problema – Foto: Arquivo pessoal

“Depois do diagnóstico, a nossa vida mudou totalmente. Ele está sendo acompanhado por alguns profissionais, o meu marido pediu demissão do emprego para se dedicar ao Pedro e às necessidades da nossa família no momento, e já começamos a ver muitas melhoras. O meu filho fez dois aninhos em fevereiro e ele hoje é outra criança. Se eu pudesse voltar atrás, eu nunca teria mostrado uma tela com vídeo para o Pedro. Se eu pudesse dar um conselho para todas as mães, eu diria isso: cuidado com o tempo que seus filhos gastam com as telas. As consequências podem ser muito ruins”, destaca Aline. 

Aumento de casos de miopia na pandemia

O número de casos de miopia disparou nesta pandemia. Estudo realizado na China com mais de 120 mil crianças, mostrou que os casos de miopia entre crianças de 6 anos aumentaram 400% nos cinco primeiros meses de lockdown de 2020, em comparação aos anos anteriores. Nos participantes com 7 anos, o aumento foi de 200%, e nos de 8 anos, de 40%.

Marina Leite tem 11 anos e usa óculos desde os 8. Na pandemia, para a preocupação de seus pais, a miopia aumentou um grau. A mãe de Marina, a odontopediatra Marcele Leite, explica que a filha fica até sete horas por dia exposta à tela azul dos dispositivos eletrônicos. “Com as aulas on-line, não tem muito jeito, ela acaba ficando mais tempo do que gostaríamos na frente do computador. Com a pandemia não conseguimos fazer a revisão médica em 2020 como é recomendado. E, após um ano, tivemos a surpresa do aumento de grau”, relata Marcele.

O impacto do uso excessivo dos dispositivos móveis

Doutor Caio Regatieri é professor do Departamento de Oftalmologia da Unifesp e explica que a miopia é uma alteração do globo ocular que leva a uma deficiência de visão. Segundo o especialista, o contato excessivo com os dispositivos eletrônicos provoca uma alteração na lente natural do nosso olho, que é o cristalino, durante o momento da visão de perto, podendo alterar a formação do olho. Isso estimula o crescimento do globo ocular e assim aparece a miopia.

“A orientação que dou aos pais é deixar as crianças expostas às telas o menor tempo possível. Eu sei que neste momento é complexo por conta da pandemia e das aulas on-line. Tentar manter o olho mais afastado das telas e de tempos em tempos orientar o olhar para o horizonte, para dar um descanso momentâneo”, explica. 

Olhar diferenciado às crianças e adolescentes

O momento é complicado, sobretudo com o aumento do número de mortes no Brasil e no mundo por conta do coronavírus, mas os especialistas são unânimes em afirmar que as crianças e os adolescentes precisam de um olhar diferenciado de seus pais ou responsáveis para conseguir superar este momento da melhor forma.

“Os pais também estão cansados, sobrecarregados, mas eles precisam olhar para os seus filhos com atenção e paciência para ajudá-los a identificar os problemas e superá-los”, orienta a professora Leila Tardivo.

“Uma dica que dou aos pais e mães é que brinquem com seus filhos, conversem, leiam juntos, façam coisas fora das telas, mesmo que dentro de casa. Os filhos são o bem mais precioso dos pais. O trabalho é importante, mas é preciso tentar conciliar o tempo para diminuir as perdas”, destaca dra. Larissa Henriques Freire Krohling. 

Renata Rocha é jornalista, radialista e mestra em Comunicação. Tem vinte anos de experiência na área e já fez muitas coisas legais nesta vida, mas a melhor de todas foi ter-se casado com o Wayner e construído uma família linda! Seu grande aprendizado se constitui aí!

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