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Round 6 e o espírito de competição: o que é vencer?

Round 6 e o espírito de competição: o que é vencer?

Round 6
Pexels/Cottonbro

A série permite refletir sobre o significado da competição e o que podemos entender por sucesso

Por Pe. Cleiton Viana

Cuidado! Este artigo pode conter spoiler!

A série sul-coreana Round 6 tem-se tornado um grande sucesso, não apenas no Brasil, como também no mundo, e, como todo sucesso, faz emergir um conjunto de reflexões e questionamentos. Deixo de lado as cenas para lá de fortes em relação à violência ou à morte das personagens. Essas cenas mereceriam outro tipo de reflexão. Quero me concentrar com vocês em um tema mais comum, mas não menos perigoso: a competição e como nós podemos lidar com ela em nosso dia a dia.

O cenário da competição

Toda a série trata de um jogo entre pessoas falidas, deslocadas social e familiarmente, a quem não lhes sobra nada senão dispor do próprio corpo para tentar a sorte de ganhar um prêmio milionário. Além disso, pouco a pouco todos os personagens se dão conta de que não têm outra opção a não ser ir até o fim. E nos poucos momentos em que os jogadores parecem ter algum controle sobre o jogo, por exemplo, a cena quase final da diferença entre os vidros temperados ou não, os “organizadores” têm recursos suficientes para complicar tudo ainda mais.

O jogo brinca, como no espelho, com a nossa realidade mais substancial: estamos unidos e essa unidade vai além da nossa própria vontade. Ela nos constitui. Você não brotou “do nada”. Cada existência individual é dependente de outras pessoas tanto para iniciar-se como para permanecer por aqui. A conexão é muito mais verdadeira e fundamental do que as desconexões.

Em outras palavras, todos nós vamos juntos na mesma direção, é o que significa, do latim cum-peto. Competir é ir acompanhado! Competir é um fato da existência, mas considerar os companheiros como adversários ou inimigos é parte do cenário da série e do mundo em que vivemos. Competição não significa, por si mesma, necessidade de eliminação do outro.

Se conseguíssemos enxergar um pouco mais longe, não transformaríamos nossos companheiros de jornada em inimigos mortais. Por isso, o horror que muitos experimentaram na série é reflexo do horror presente em nosso cotidiano mais comum. Nossa consciência nos lembra de que algo não está certo…

Como competir sem perder o equilíbrio?

No enredo da série, como no da vida, acontece um paradoxo: o que vence, o que se torna número 1, é também o nº 1 destruído. Seong Gi-Hun, o vencedor do jogo, pelo menos na primeira temporada, volta para casa, mas sua mãe está morta e, quando vai embarcar atrás de sua filha, nos últimos minutos da série, retorna para passar a limpo a história, dando a entender que vem mais jogo por aí. Qual foi sua vitória? Não gastou quase nada do dinheiro, sua mãe não poderia ser beneficiada pela sua riqueza e mais uma vez ele deixa sua filha para depois.

No cenário da série e do mundo, o ser humano é reduzido a um caminhante que não para em lugar nenhum, que não sabe aceitar que sua existência é limitada. É permanentemente descontente. Se você não se perguntar sobre o que realmente quer, estará sempre correndo atrás de um novo resultado que outros colocam como meta para sua vida. Sempre haverá alguém com mais coisas do que você, alguém que viveu algumas experiências além das suas ou que se destaca diferentemente de você. Mas, para você, o que mesmo importa?

Competição
Pexels/Pixabay

No mundo em que vivemos, a competição e a consideração do outro como adversário e inimigo vão ser mais frequentes do que imaginamos, e você deve estar preparado para correr atrás dos seus objetivos. Mas tenha cuidado para que os objetivos sejam meios para alcançar finalidades mais fundamentais: ser feliz, estar em paz e ter uma vida digna, por exemplo. Essas coisas não podem estar no depois. Se a existência é um jogo, a existência que vale a pena é jogar cada etapa e mover-se estando plenamente em cada instante em que se vive, sem a ilusão desesperada de ser feliz somente depois.

Da competição à colaboração

Se você for movido pelo desejo de realizar-se por inteiro, e não apenas ser comparado melhor do que os outros, então seus objetivos serão mais facilmente alcançados, sem perder outros valores que são igualmente importantes.

Chama a atenção que até grandes empresas se tornam mais conscientes de que até mesmo seus concorrentes são importantes para um equilíbrio de mercado. Essas mesmas empresas também aprenderam a reconhecer que seus quadros de funcionários desempenham melhor seu trabalho não pelo espírito de competição predatória, mas de colaboração. Ou seja, no conjunto tudo é melhor quando vemos o outro como parte do processo, e não como ameaça aos nossos resultados. A competição não é alheia à colaboração.

A série é o que é, e, se teve sucesso, podemos esperar ainda mais violência, horror e impacto nas próximas temporadas. Mas vale a pena lembrar que competir faz parte da nossa existência, mas o modo como tratamos nossos competidores ou concorrentes revela o caos interno de nossa existência. Round 6 e o mundo desejam um vencedor, mas esse é um destruído e errante. E será um em determinada temporada, sem garantias para a próxima. Vencer no mundo da ganância é nunca vencer, é apenas ter uma vantagem temporária.

Padre Cleiton Silva é doutor em Teologia Moral, pároco, pós-graduado em Marketing e Mídias Digitais, professor na Faculdade Paulo VI, em Mogi das Cruzes, e autor dos livros Confessar e Coração inquieto, publicados por Paulinas Editora. Gosta muito de futebol, de cozinhar e de participar das redes sociais, para comunicar as riquezas da fé. https://www.flowcode.com/page/pecleitonsilva

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1 COMENTÁRIO

  1. Caramba Pe. Cleiton
    Amei seus comentários sobre Round 6.
    Seu percurso foi muito bom.
    Você nos fez entender o percurso mas com senso crítico. Nos fez rever nossas opções e saber que o sucesso pode ser acompanhado e nunca sozinha.
    Super obrigada
    Carinhoso abraço.

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