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Relendo um clássico - Revista Familia Cristã - Leo Cunha

Relendo um clássico

Dariusz Sankowski – Pixabay

Por Leo Cunha

Acabei de reler o romance “São Bernardo”, de Graciliano Ramos, que eu tinha lido na época de escola, aos 16 ou 17 anos. Confesso que não lembrava quase nada do livro, a não ser que era ótimo.

Dessa vez, o livro me caiu literalmente nas mãos, quando eu estava fuçando as estantes da biblioteca da minha mãe. Despencou lá de cima e, quando bati o olho na capa, tive a sensação de que precisava reler a obra, obedecendo aos estranhos desígnios do acaso, que derrubou o livro da estante.

Acho que, na adolescência, eu não aproveitei quase nada do livro. Ou melhor: certamente me envolvi com a incrível história do protagonista Paulo Honório, que em poucos anos passa de um pobre coitado, sem um tostão furado no bolso, para um grande fazendeiro e principal força política de uma cidadezinha do interior de Alagoas.

Também me encantou, na época, a trama de paixão e ciúmes de Paulo por Madalena, e toda a rede de intrigas entre fazendeiros, vizinhos, funcionários, juízes, jornalistas, políticos e professores daquele universo tão desconhecido (para um leitor de cidade grande, como eu). Por outro lado, não tenho dúvida de que muita coisa me escapou naquela primeira leitura.

Características do livro “São Bernardo”, de Graciliano Ramos

É maravilhoso revisitar “São Bernardo” num momento histórico repleto de debates sobre empreendedorismo, fake news, escola sem partido… Incrivelmente, todos esses temas e debates já estavam anunciados naquela história aparentemente tão provinciana, de gente tão rústica! Que impressionante encontrar tudo isso nas páginas atentas, alertas e visionárias de Graciliano, escritas há quase 90 anos!

Outros aspectos do livro “São Bernardo” me surpreenderam. É, em grande medida, uma obra sobre a escrita. Eu me recordava um pouco da trama, mas não desse lado metalinguístico, que é muito saboroso. Paulo Honório não se limita a narrar sua história: relata também como e por que a escreve.

Expõe inquietações sobre sua capacidade de escrevê-la e põe em dúvida as contribuições dos outros, a quem pede ajuda no processo de escrita e publicação do livro. Logo no início, o narrador ridiculariza, por exemplo, a sugestão do amigo João Nogueira: “Queria o romance em língua de Camões, com períodos formados de trás para diante. Calculem”.

Mais que isso, Paulo questiona em vários momentos sua própria linguagem, o modo como constrói os personagens, a necessidade ou não de detalhar as paisagens e diálogos. Sugere ao leitor que desconfie de tudo o que está naquelas páginas.

“De repente, voltou-me a ideia de construir o livro. Assinei a carta ao homem dos porcos e, depois de vacilar um instante, porque nem sabia começar a tarefa, redigi um capítulo. Desde então procuro descascar fatos, aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café, à hora em que os grilos cantam e a folhagem das laranjeiras se tinge de preto.”

Freepik.com

O aprendizado ao reler o livro “São Bernardo”

Depois da leitura de “São Bernardo”, estou decidido a usar mais vezes esse inusitado método de escolha: livros que despencam da estante. Acredito que vai funcionar bem, especialmente para a leitura de obras clássicas, aquelas que já estão inquietas ali na prateleira, esperando há anos – talvez décadas – por novos dedos que as folheiem.

Outro dia um amigo escritor, o Nelson de Oliveira (também conhecido como Luiz Brás, Valério Oliveira, Teo Adorno, Sofia Soft e outros heterônimos), estava discutindo, nas redes sociais, o dilema da escolha de livros: devemos ler obras atuais ou antigas? Livros de autores vivos ou de autores mortos? Clássicos ou novidades?

Nelson lembrou o ensaio provocador de Pierre Bayard, intitulado “Como falar dos livros que não lemos?”. Nessa obra, Bayard lembra que a maioria de nós nunca leu a maioria dos livros, por um óbvio motivo: são milhões de obras publicadas! Mesmo os clássicos – que são, digamos, alguns milhares – ultrapassam nossa capacidade de leitura. Além do mais, lembra o autor, um livro lido há mais de vinte anos é na prática um livro não lido, pois terá sido, em grande parte, esquecido, como pude comprovar, agora, ao reler “São Bernardo”.

Leo Cunha é graduado em Jornalismo e Publicidade e especialista em Literatura Infantil, pela PUC Minas. Mestre em Ciência da Informação e doutor em Artes, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Casado com Valéria, pai da Sofia e do André. Apaixonado pelas artes e pelo humor.

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