Já sou assinante!

Ainda não é assinante?

Identifique-se para ganhar mais 2 artigos por semana!

ou

ou Assine Já

Preceitos ecológicos de um defensor do meio ambiente

Preceitos ecológicos
de um defensor do meio ambiente

Artigos Recentes

Por Carmen Maria Pulga

Há mais de cem anos, quando muito pouco se falava em ecologia, o Padre Cícero – como extraordinário homem de vanguarda que foi – se antecipava e ensinava aos romeiros coisas simples, em forma de alerta, como os seguintes preceitos ecológicos:

– Não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau.

– Não toque fogo no roçado nem na Caatinga.

– Não cace mais, e deixe os bichos viverem.

– Não crie o boi nem o bode soltos; faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer.

– Não plante em serra acima, nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra, para que a água não a arraste e não se perca a sua riqueza.

– Faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar água de chuva.

– Represe os riachos de 100 em 100 metros, ainda que seja com pedra solta.

– Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só.

– Aprenda a tirar proveito das plantas da Caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca.

– Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer; mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo, o sertão todo vai virar um deserto só.

Se, em nosso tempo, com os grandes avanços técnico-científicos, ainda não encontramos soluções plausíveis para os efeitos desastrosos das estações secas, imagine como terá sido o Nordeste entre meados do século XIX e XX, quando viveu Padre Cícero (1844-1934), defensor especialmente do bioma, a Caatinga.

Consciência ambiental

O Dr. Rubens Ricupero, ex-Ministro do Meio Ambiente, em artigo publicado no jornal O Globo (19/01/94), escreve: “Padre Cícero pregou em pleno sertão nordestino a palavra que hoje a consciência ambiental a duras penas começa a inscrever na nossa visão de mundo. Muito antes que se realizasse a I Conferência Internacional sobre o Meio Ambiente, em Estocolmo, em 1972, ele teve essa percepção aguda de algo que constitui antes de tudo um interesse legítimo, identificado por quem está próximo da realidade”.

É justamente desse aspecto, talvez pouco conhecido do Padre Cícero, que podemos buscar lições e metodologias, que, se postas em prática, podem ajudar na preservação do meio ambiente. Talvez, por ser religioso, ele tenha entendido – como se deu com Francisco de Assis – que o ser humano recebeu de Deus a missão de guardião do planeta, nossa Casa Comum.

Em todo o Nordeste brasileiro, o Padre Cícero Romão Batista ou Padim Ciço – como tem sido carinhosamente chamado pelos seus devotos – é reconhecido e estimado pelo povo devido ao cuidado e atenção que teve, especialmente, para com a população pobre, vítima da exploração dos coronéis e da seca que castigava essa região do Brasil.

Influência e legado do Padre Cícero

Ele exerceu o ministério sacerdotal e toda sua atividade humanitária no então vilarejo de Juazeiro do Norte (CE), pertencente ao município de Crato (CE), sua cidade natal.

A influência do Padre Cícero para o povo nordestino, seus devotos, inclui obviamente a dimensão religiosa, mas vai muito além. Ele é o padrinho, aquele que aconselha, orienta, protege, intercede e ajuda seus afilhados em tudo.

É considerado o maior benfeitor do povo e da cidade de Juazeiro, e a figura mais importante da história dessa cidade. Dentre os incontáveis benefícios, doou em testamento todas as suas posses ao bispado de Crato, para que fossem sempre colocadas a serviço dos pobres: seis sítios, uma fazenda e um conjunto de casas em Juazeiro.

Padre Cícero nunca desfrutou pessoalmente de suas propriedades. Eram todas ocupadas pelos pobres. Ele fazia questão de manter as escrituras em seu próprio nome, apenas para impedir que os proprietários fossem expulsos, e suas terras ou propriedades, ilegalmente tomadas pelos grandes latifundiários e coronéis poderosos da região.

Iniciativas realizadas pelo Padre Cícero

Dentre seus vários feitos estão a fundação da Associação dos Empregados do Comércio, bem como a sua contribuição para a instalação de muitas escolas, inclusive a famosa Escola Normal Rural e o Orfanato Jesus, Maria e José.

O sacerdote trouxe para Juazeiro a Congregação dos Salesianos, que se dedica, entre outras atividades, à área da educação; incentivou e dinamizou o artesanato artístico e utilitário, como fonte de renda para a população pobre, inclusive a instalação do ramo de ourivesaria, muito apreciada na região; incentivou a fundação do primeiro jornal local (O Rebate); realizou a primeira exposição da arte juazeirense, no Rio de Janeiro, estimulou a expansão da agricultura, introduzindo o plantio de novas culturas; socorreu a população durante as secas e epidemias, prestando-lhe toda a assistência e, finalmente, projetou Juazeiro no cenário político nacional, transformando um pequeno lugarejo na maior e mais importante cidade do interior cearense.

Carmen Maria Pulga é filósofa, teóloga, mestra em Novas Tecnologias da Comunicação e autora do livro A pétala, da Paulinas Editora. Gosta de arte, desde a culinária até a sucata, e ama ler os autores mais ecléticos.

Deixe seu comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

error: Ação desabilitada