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Não deixe a positividade tornar-se tóxica - Revista Familia Cristã

Não deixe a positividade tornar-se tóxica

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“É desonesto conosco nos permitir apenas sentir emoções positivas e reprimir as ditas negativas”, afirma psicóloga

Por Fabiane Pita

Talvez você nunca tenha ouvido falar em positividade tóxica, mas com certeza vai se identificar com alguns comportamentos que vamos citar ao longo desta matéria.

E o que vem a ser tóxico na situação de uma positividade? A psicóloga clínica, com atuação em psicanálise, perinatalidade e parentalidade, Ludimila Oliveira explica que é quando a pessoa minimiza ou nega o sofrimento de determinada situação que se apresenta diante dela, seja em relação a ela mesma, seja em relação ao outro. “É desonesto conosco e na nossa existência nos permitir apenas sentir emoções positivas, e sempre reprimir ou negar as ditas negativas, que na verdade não são negativas, porque tudo faz parte do espectro de emoções inerente à vida humana. O ser humano transita na vida sentindo tristeza, alegria, medo, insegurança, raiva, todo sentimento que vem com a nossa existência”, diz.

Quem nunca?

Diante de uma situação difícil ou de sofrimento, você já se pegou dizendo frases do tipo: “Pense positivo”; “Vai passar”; “Esqueça isso”; “A vida é bela”; “Tente olhar o outro lado”; “Está tudo bem”; “Pelo menos tal coisa está melhor ou ainda tal coisa se preservou”. A psicóloga afirma que muitas vezes essas frases trazem uma emergência em responder à angústia do outro, e que isso, na verdade, fala da nossa própria forma de lidar com a angústia, reprimindo-a. Um sentimento nunca deve ser desmerecido ou minimizado. O que a pessoa precisa é ser escutada e ter seu sofrimento legitimado. “A gente sabe que a vida não é fácil. As pessoas perdem o emprego, adoecem, morrem, vivem situações conflitantes na família, ouvem o que não querem dos seus pais, a mãe machuca, o pai também. A vida tem as suas nuances de alegria, de tristeza, e é legítimo um ser humano sentir tanto a alegria como a tristeza, o medo, a frustração. Não existe esse estado de felicidade permanente, como as mídias e redes sociais mostram. O que existe é o ser humano vivendo sua vida, encarando as dificuldades e fases, e nem sempre está tudo bem”, explica Ludimila.

Lugar do outro

Recentemente, Ana Motta, artista, mediadora e facilitadora do Círculo de Construção de Paz, tem passado exatamente por essa situação. Quando perguntam por sua mãe, que tem Alzheimer, e ela responde que a cada dia está perdendo a memória e que isso é muito triste, ouve do outro lado: “É a vida”, “Pense positivo”, “Dê um sorriso”, “Pelo menos ela está viva”, “Tem gente pior”. “Sentir tristeza é tão natural quanto sentir alegria. Negar, ignorar, evitar, abafar os sentimentos que nos incomodam não vai fazer a vida se tornar perfeita e sem desafios. Muito pelo contrário. Quando negamos as dores e evitamos expressar os sentimentos ditos ‘ruins’, deixamos de conhecer a nós mesmos e podemos até adoecer física e mentalmente”, diz Ana.

Positividade
Pixabay.com

Ela lembra ainda que “aceitar os sentimentos que nos incomodam não significa que estamos abraçando o negativismo, mas sim que estamos no caminho de compreender o porquê de sentir tal sentimento. Na era das redes sociais só é permitida a entrada da alegria, da ostentação, do corpo perfeito, da juventude eterna. Nesse ambiente, a tristeza, a frustração, os defeitos não fazem parte. O mundo é perfeito e sem conflitos”.

As palavras da artista corroboram as colocações da psicóloga, de que a vulnerabilidade é inerente ao ser humano e, se a acolhemos, é daí que brotarão a coragem e a resiliência. “O otimismo generalizado e sem questionamento nos levam à positividade tóxica, que vem afetando a autenticidade do ser humano e desequilibrando a nossa saúde física e mental”, finaliza Ana.

E o que eu posso fazer?

Então, que tal trocar as frases acima por: “Eu sinto muito que você esteja passando por isso”. Ludimila pontua que é necessário falar sobre o sentimento que está machucando, entristecendo, para que essa vivência seja elaborada e, a partir daí, a pessoa possa desenvolver resiliência e capacidade de adaptação ante os desafios e crises.

Viver de forma rasa e superficial, encarando tudo na good vibe, não se sustenta a longo prazo, porque a vida é bela, mas muitas vezes é dura também. Dessa forma, é preciso saber transitar pelos momentos difíceis. Aprender a lidar com a vulnerabilidade, se escutar, perceber e validar os próprios sentimentos é importante para viver a positividade que é saudável, a que vem da resiliência, do potencial criativo para resolver os problemas. Levantar-se após uma queda, uma frustração, e permanecer caminhando, exige coragem antes para se aceitar e se expor sem medo. A positividade saudável vem de um processo de reconhecer a emoção, legitimar seus sentimentos e, então, integrá-los.

Saúde e bem-estar

A não legitimação e a repressão das emoções podem levar à somatização, e é nesse momento que o corpo fala no seu lugar e os sentimentos procuram saídas por outras vias. Pode ser na forma de um sintoma físico ou de um adoecimento mental. “Existem estudos que mostram que os efeitos da positividade tóxica na saúde mental são piores do que o da depressão. Você está ali sendo orientado e motivado por outros a olhar somente para o lado cheio do copo. Apesar da dificuldade de acolhimento também, a depressão já é reconhecida como uma patologia. Entretanto, a positividade tóxica muitas vezes acontece na invisibilidade, de maneira muito sutil”, finaliza Ludimila Oliveira.

Fabiane Pita, mulher negra, católica, jornalista, especialista em Gestão da Informação para Multimeios. Curiosa por natureza, foi assim que surgiu seu perfil no Instagram com uma amiga @curiando_o_role. Ama ler, escrever, contar boas histórias e viajar.

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