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Os cortes e os recortes da vida - Revista Familia Cristã

Os cortes e os recortes da vida

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Você consegue desfrutar das perdas como podas que transformam um jardim?

Por Elizete Santos

Os atos de cortar e podar, embora distintos, produzem efeitos semelhantes. As técnicas da poda se tornam eficazes na medida em que as particularidades da planta são respeitadas pelo jardineiro. Um corte precipitado torna-se fatal.

Na vida também somos surpreendidos por diversos “cortes” ou perdas. Neste tempo de pandemia, talvez as mais impactantes estejam sendo a nível emocional, que, diferente da dor física, a dor psíquica ganha um status menos privilegiado, possivelmente por ser considerada “invisível”.

Nada tem sido mais inquietante e até mesmo doloroso do que a experiência de perder alguém ou até mesmo um objeto, causa dos investimentos emocionais. Os sentimentos de tristeza, ansiedade, rejeição e depressão, caracterizam-se como dores de fortes impactos na vida humana, deixando marcas profundas.

A própria natureza nos ensina o modo belo e encantador de conviver com as perdas. Para se tornar uma borboleta, a lagarta precisa envolver-se em seu casulo, transformando-se naquilo que realmente ela deve ser. Para lidar com as perdas emocionais, precisamos desejar nomeá-las para compreendê-las e superá-las melhor.

Às vezes, precisamos muito mais do que isso. É preciso buscar ajuda de algum profissional da saúde mental (psicólogo, psicanalista ou psiquiatra) para poder reconhecer o abismo em que se está “sepultado psiquicamente”. Todavia, é imprescindível aceitar sair dele para superar o medo de viver e de conviver com as perdas.

Faz parte da vida

A saúde mental como preocupação mundial é uma das realidades mais evidenciadas nesse contexto caótico. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), é urgente investir em serviços de saúde mental ou até mesmo arriscar um aumento nas condições de saúde psíquica das populações atingidas pelo sofrimento.

Numa travessia sem rumo, buscam-se saídas para os diversos contextos em que se sucedem as perdas. O ingresso no inconformado desamparo é a experiência de pessoas que, submetidas aos cortes inesperados da vida, sentem-se resignadas pela essência da dor, sejam elas físicas ou emocionais.

Pessoas queridas se foram, alguns laços familiares se desfizeram, as convivências sociais se transformaram. Sintomas como a depressão e o estresse tornaram-se manifestos…  Acontecimentos que, embora precipitados, podem sinalizar um ato preciso em nossa história.

O brotar da vida se aproxima da experiência de quem se sente arremessado ao deserto. A angústia sentida faz parte de quem caminha rumo a uma “terra prometida”, na certeza de que o percurso se fará desejado pela aridez proporcionada, agora não mais pelos cortes, mas por um recorte que a posteriori produzirá um reencontro com a essência sentida.

“Perder faz parte da vida”, afirma um dito popular. Parece-nos interessante pensar que é preciso ultrapassar a superfície da terra, assim como quem aguarda o desabrochar de uma rosa. Aos olhos de quem a contempla, contentando-se não apenas com os galhos, um dia poderá se alegrar com o cuidado da vida que floresce.

A eficácia dos cortes

Cultivar exige dedicação, assim como o debruçar da vida nas sutilezas de sua existência. Apostar no absurdo do infinito que não se vê é acreditar na beleza que ainda há de surgir nos detalhes exuberantes, porém finitos, de uma rosa.

Assim, surgem os pequenos galhos, soltos e desimpedidos, envoltos pelas suas esvoaçantes folhas. Um delicado rebento, às vezes, necessita de um suporte para acolher as primícias que um dia brotará num amanhecer inesperado. Cortar e podar se assemelham na técnica. Quando bem utilizada, pode virar arte.

Podas
Pixabay.com

A reelaboração das perdas parece se firmar no entrelaçar das relações que nos envolvem. Sentar ao lado do outro pode romper com a estranheza da intimidade, revelando-nos que “sozinho somos pétalas, unidos somos rosa”, como afirmou Dom Helder Camara.

Os cortes e os recortes da vida, sem dúvida, são inúmeros. Revestem-se de sentido os acontecimentos impressos na história de cada ser. Maravilha-se quem consegue desfrutá-los, como podas que transformam um jardim. Portanto, deixemo-nos moldar pelas contínuas e, muitas vezes, inevitáveis perdas, elas apenas esperam que floresçamos numa estação oportuna.

Elizete Santos é uma irmã paulina, filósofa, psicóloga e especialista em Adolescência e Juventude. Amante da filosofia e aprendiz na arte da escuta psicanalítica, que possibilita fazer falar o “indizível” e compreender o incompreensível.

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