Já sou assinante!

Ainda não é assinante?

Identifique-se para ganhar mais 2 artigos por semana!

ou

ou Assine Já

O menino e as teclas - Revista Familia Cristã

O menino e as teclas

Artigos Recentes

O ser humano aprende imitando o que vê em seu entorno e os olhares infantis estão sempre observando o comportamento dos pais

Por Carmen Maria Pulga

Lucas ainda não distingue as letras, muito menos entende as conexões tecnológicas, mas gosta de escutar o barulho das teclas no computador. Espreita o pai interagindo com a tela e observa o movimento das mãos no teclado. Aquele cenário o encanta e desperta curiosidade. Até que, numa manhã em que se encontra sozinho na sala do computador, Lucas não hesita.

Arrasta a cadeira junto à mesinha, sobe nela e, em pé sobre o assento da cadeira, ensaia o gesto do pai: tec, tec, tec, e a tela desconectada não dá sinal de vida. O pequeno não duvida, pega o mouse e começa a bater com toda força: TAC, TAC, TAC, mas as teclas, cuja natureza é inerte, resistem firmes. O menino quer ver o movimento e as luzes na tela, briga com o teclado; briga com a mesma seriedade com que viu o pai interagir com aquela ferramenta.

O desafio o empurra para o que é instintivo do ser humano: aprender fazendo, pertencer ao mundo que o convida a interagir. Esse mundo no qual o pai passa horas olhando para a tela, ensaiando palavras com os lábios, movimentando a mão sobre o mouse, transpirando concentração em seu rosto.

E, colado à imagem do pai, o pequeno persiste.

Ao encontrar o pequeno naquele duelo, Alex, pai de dois filhos – Lucas de 4 e Fábio de 7 anos –, juntou as lembranças que lhe chegavam aos pedacinhos e se viu na infância, quando o pai lhe ensinava a montar o primeiro carro todo em Lego. Depois vieram os trilhos, o trem, o apito, a torre, a estação, a praça, até montar um cenário perfeito, e o encanto da conquista.

Ao retirar Lucas do computador, Alex recordou-se da atenção com que o pai o colocava diante dos pequenos desafios: “Vai, filho, você consegue!”; a mãe, paciente, permitindo ocuparem todo o espaço da sala para as brincadeiras; os filmes assistidos junto; as histórias antes de dormir; o sorriso dos adultos aplaudindo as primeiras descobertas. Emocionado, entendeu como esse momento é maravilhoso, forte, educativo.

pequeno
Pixabay.com

Sentado no chão da sala, Alex abre a caixa de brinquedos e, cheio de cuidados, explica para seu pequeno as formas, o encaixe, as diferenças e combinações de cada objeto. Então, um sopro carregado de lembranças e afetos costura os vínculos familiares e consolida o caráter que se molda na tonalidade dessas relações. E, em meio a palavras soletradas, Alex estabelece regras de interação e disciplina para o aprendizado do filho.

O pai sabe por experiência que o ser humano aprende imitando o que vê em seu entorno, que os olhares infantis estão sempre observando e internalizando o comportamento dos adultos, especialmente dos pais. Que tudo o que eles veem vai se misturar depois nas paredes da memória e se tornar patrimônio próprio. Por isso, a importância de dedicar tempo para ajudá-los a escolhas positivas.

Convicto de que, hoje, é impossível imaginar uma infância longe do acesso às tecnologias digitais, Alex se preocupa em estabelecer limites para que esses recursos contribuam para a formação da personalidade de seus pequenos e para a inserção adequada ao meio social que os espera. Entende que as crianças expostas a telas animadas formam seus princípios – morais e éticos – a partir dos personagens que povoam esse cenário. Por isso, a importância do olhar vigilante dos pais e adultos, através da fala, do diálogo, de brincadeiras e de todo e qualquer envolvimento físico que estimule o desenvolvimento pleno, plural e integral dos pequenos, introduzindo-os com o máximo cuidado no teatro midiático no qual serão obrigados a interagir.

Carmem Maria Pulga é filósofa, teóloga, mestra em Novas Tecnologias da Comunicação e autora dos livros A pétala e Divino livro proibido, ambos publicados pela Paulinas Editora. Gosta de arte, desde a culinária até a sucata, e ama ler os autores mais ecléticos.

Deixe seu comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

error: Ação desabilitada