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Pantanal: o que virá depois? - Revista Familia Cristã

Pantanal: o que virá depois?

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Não são poucos os obstáculos a ser enfrentados para evitar que nossas manchetes de jornal sejam de novo “fogo no Pantanal”

Por Felício Pontes Jr.

No ano passado, o Pantanal ardeu em chamas como nunca acontecera. As causas parecem já bem postas em tantas reportagens sobre o tema. O aquecimento global foi turbinado pela devastação local. Sem querer deixar de lado a investigação sobre os responsáveis por tamanha destruição, que começou tanto em fazendas do agronegócio quanto ao norte do bioma, é necessário pesquisar as consequências que os povos pantaneiros devem sofrer por algum tempo. Isso para que nosso processo de conscientização sobre o problema não estanque, já que o sofrimento desses povos não aparecerá mais na grande mídia.

A única referência que temos está ao lado do Pantanal. No ano de 2019, um bioma da Bolívia chamado “Chiquitânia” ardeu em chamas. Foram 6,4 milhões de hectares reduzidos a cinzas. Também lá o aquecimento global teve muita gasolina.

Uma sentença de um tribunal ético, chamado Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza, investigou o ecocídio. Foi provado que, desde 2013, houve flexibilização das leis ambientais, culminando com uma lei que permitiu queimadas sem prévia autorização do órgão ambiental boliviano (Lei n. 1.171/2019).

Consequências

Aqui, todos os estados pantaneiros possuem projetos de lei para também flexibilizar a legislação ambiental. Os parlamentares deveriam visitar nosso vizinho. Deveriam falar com a líder da Organização Indígena Chiquitana (OICH), Polonia Supepí. Ela disse que “durante esses quatro meses (de incêndios) se esgotaram nossas colheitas para todo o ano. As primeiras chuvas trouxeram cinzas que contaminaram nossas fontes de água”. Germinda Casupá, outra líder indígena, declarou que “as onças, antes ferozes, tornaram-se mansas, porque buscavam ser protegidas”. 

Para se ter uma ideia do que vem por aí, esses relatos locais devem ser somados aos estudos científicos. Um dos mais recentes trabalhos divulgados pela prestigiosa revista Nature foi capitaneado por cientistas brasileiros da Universidade de São Paulo (USP). O estudo revela que o volume de chuvas no hemisfério Sul tropical e subtropical deve ser reduzido em 30% até o fim do século. Se a falta de chuvas ao pantaneiro foi uma das causas do desastre, mais redução ocasionará uma completa mudança no bioma.

Responsabilidade de todos

Pixabay.com

Mas isso pode ser evitado. Basta que a temperatura não suba acima de 3°C até o fim do século. E a responsabilidade para evitar essa catástrofe não é apenas dos habitantes do bioma. É de todos nós. Sabemos o que precisa ser feito para evitar esta “crônica de um ecocídio anunciado”, parafraseando Gabriel García Marquez. Somos o 14º país que mais emitiu dióxido de carbono (CO2) na atmosfera em 2018, tendo como carro-chefe (ou seria causa-chefe) o desmatamento da Amazônia.

Hoje, temos informação suficiente para evitar que na estação seca que se avizinha haja mais fogo no Pantanal. Isso não significa que conseguiremos. É preciso lutar contra quem nega a ciência e não apresenta, pelo menos, uma teoria como alternativa. Talvez aí esteja, verdadeiramente, o maior obstáculo a ser enfrentado para evitar que nossas manchetes de jornal, no meio deste ano, sejam de novo “fogo no Pantanal”.

Felício Pontes Jr. é procurador regional da República e sempre atuou na defesa de indígenas, quilombolas e populações tradicionais da Amazônia. É autor do livro “Povos da Floresta: cultura, resistência e esperança”, pela Paulinas Editora.

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