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Oração, jejum e caridade hoje: novos sentidos para antigas práticas -

Oração, jejum e caridade hoje:
novos sentidos para antigas práticas

Pixabay.com

Ao longo dos séculos, o Cristianismo enfrentou diversos desafios. Um dos maiores, em nosso tempo, é o da atualização de suas antigas tradições

Por Mariana Venâncio

A palavra atualização pode dar a ideia de algo que se tornou obsoleto, que não serve ou não responde mais. Não é esse o caso da Tradição cristã. Nossas comunidades enfrentam a grande missão de demonstrar o quanto a Tradição – essa mesma, com T maiúsculo, que sustentou a Igreja por séculos – continua válida hoje, mesmo com todos os avanços e todas as mudanças da sociedade.

A Tradição da Igreja, com a fidelidade a práticas que subsistem desde o Evangelho, oferece um caminho seguro de acesso ao Senhor e de construção do Reino de Deus.

Uma atualização necessária

Por que atualização, então? Porque, embora a Tradição não tenha perdido seu valor, nossa vida não é mais a mesma daquelas pessoas que viveram com Jesus ou dos antigos que viviam na Idade Média. Nosso tempo construiu um estilo de vida que quase não dá espaço para a vida religiosa, enquanto, em outros tempos, a religiosidade orientava todo o cotidiano. Então, além de reconhecer que a Tradição ainda tem seu lugar, é preciso descobrir como vivê-la no cotidiano contemporâneo.

Neste mês, estamos celebrando a Quaresma. Esse é um tempo significativo, uma oportunidade de conversão que a Igreja nos dá, com o convite de olharmos para dentro, para o nosso coração, de acordo com o que diz o Evangelho. Desde muito tempo, três práticas orientaram a Quaresma dos cristãos: jejum, oração e caridade. Mas será que eles continuam tendo, para nós, o mesmo significado que outrora?

O esvaziamento de sentido

Uma grande marca da vivência religiosa hoje é o esvaziamento de significado da prática da Palavra de Deus – mas não ignoremos que isso acontecia também desde o tempo de Jesus. O jejum está hoje em voga, mas não com sentido cristão: dietas (absurdas ou não) propõem que se faça jejum, jejum intermitente… vários tipos. Ele visa ao alcance de uma imagem ideal para o corpo, a fim de que as pessoas sejam mais saudáveis – ou não! O “sacrifício” de privar-se da comida às vezes visa ao emagrecimento para aceitação da sociedade, que impõe a mulheres – e também a homens – o ideal de um corpo perfeito sempre a se alcançar, pelo qual sacrifícios absurdos são assumidos, colocando em risco mesmo a saúde mental e física das pessoas. Esse não é o jejum da Quaresma.

Quando falamos em caridade, é mais fácil lembrar pessoas que se dedicam de verdade a ajudar os que mais precisam, material ou espiritualmente. Mas também é fácil lembrar como, às vezes, nos escondemos atrás de doações vazias, criando, para nós mesmos, a ilusão de que estamos sendo caridosos.

Rodnae Productions – Pexels

Você já se perguntou se é caridade verdadeira os centavos que você doa no caixa do supermercado (para facilitar o troco)? E aquela instituição que liga pedindo uma doação e vem buscar na sua porta? Não quero sugerir que tais gestos sejam inválidos, mas quanto do seu coração é depositado naquela oferta? E quando você passa por um morador de rua, quantas vezes teve a compaixão de olhar em seus olhos e oferecer mais que algumas moedinhas? Se Jesus um dia disse: “Não saiba sua mão esquerda o que faz a direita…” (cf. Mt 6,3), talvez hoje dissesse: “Não precisa postar no Instagram a esmola oferecida!”.

E a oração? Você dirá: a oração hoje não está esvaziada! Há igrejas, comunidades, grupos de oração, missas, terços sendo transmitidos, novenas rezadas nas casas! Sim, existem! Nosso mundo não perdeu a prática da oração. Mas será que nos assustaríamos se pudéssemos ver o quão sinceras são essas orações que se praticam? Ou o quanto brotam dos corações? 

Rechear com o coração os gestos praticados

Como resolver, então, esse esvaziamento de sentido próprio do nosso tempo? Não adianta esperar intervenções institucionais! Isso começa por cada um. Comece você e ajude os outros à sua volta a começarem também. Talvez a chave esteja em entender que tais gestos têm, sim, um significado importante para nossa contemporaneidade – quando vividos conscientemente.

O jejum cristão não é a simples privação da comida, mas o controle de um dos impulsos naturais aos quais mais facilmente sucumbimos. Quando ignoramos nosso desejo pela comida e escolhemos outro alimento, ou adiamos a hora de comer, estamos mostrando ao nosso corpo que não são os nossos impulsos que nos movem, mas as nossas escolhas. E então ficará mais fácil entender que, em todos os âmbitos da nossa vida, nos relacionamentos com as outras pessoas, não precisamos ser movidos pelos impulsos, mas pelas nossas escolhas, ancoradas no ideal do Evangelho.

Quando oramos, é com o nosso coração que o devemos fazer. Jesus ensinou: fechar-nos no nosso quarto, na intimidade com o Senhor, e ali estabelecer com ele um diálogo sincero (cf. Mt 5,6ss). Um minuto de oração que brota do coração significa mais que dias de novena feitos por hábito, sem vontade, sem sinceridade.

E a caridade, nem preciso dizer: a caridade verdadeira é aquela que vem do amor que Jesus demonstrou por nós, de seu nascimento à sua morte, que deixou como exemplo para a nossa existência, dos sentimentos à prática. Mas não nos esqueçamos do que Ele disse aos seus discípulos, em sua última Ceia: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor” (cf. Jo 13,35). Quanto mais formos capazes de demonstrar amor, mais claro a nós e aos outros será o nosso discipulado.

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa da Bíblia como Literatura, é autora de roteiros homiléticos para a CNBB e oferece cursos bíblicos em paróquias. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar.

Contato: marianaavenancio@gmail.com

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