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Na sinergia da natureza - Revista Familia Cristã - Crônica

Na sinergia da natureza

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Por Carmen Maria Pulga

Como trabalha à noite, Daniela aproveita a tardezinha para viver com o filho momentos de puro prazer e cuidado. Ela, que dificilmente pode embalá-lo ao dormir – privilégio que cabe ao pai, de levar o filho para a cama com seus braços protetores –, prende-se inteira ao filho nesses momentos em que podem armazenar a felicidade.

A tarde está indolente, quase mórbida; as nuvens, estagnadas e baixas, amenizam o calor excessivo como uma tenda de branco platinado. O cachorro de orelhas caídas pisca o olho preguiçoso; a natureza toda submissa no aguardo da chuva. Mãe e filho estão no quintal, conectados por um fio de olhar que permuta proteção e dependência. A mãe varre as folhas que o vento acaba de afunilar no canto da calçada e o menino, firme na ponta dos pés, luta para subir na rede, presa entre os troncos de duas velhas jabuticabeiras. Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu – canta o pequeno, enquanto barganha com a rede, que, um pouco mais ao alto, lhe escapa teimosamente das mãos feito um barquinho jogado, de lá pra cá, pelas ondas. Mãe, me põe na rede, mãe – pede Arthur, ansioso pelo balanço. Daniela puxa um banquinho e senta ao lado. Embalos, histórias, beijos, brincadeiras… a vida plena só com eles dois.

O tempo pinga os minutos no silêncio de uma tarde preguiçosa, até que o vento, transformado em música, desperta as nuvens e grossas gotas caem, aqui e acolá, na melodia de um teclado. Daniela enrola rapidamente a rede e, em um lance decidido, a joga na varanda. Pés descalços, ela corre no verde descampado da relva macia: Bóra brincar filho! E de braços abertos, desafiando a chuva, mãe e filho correm, cantam, brincam de esconde-esconde entre os troncos das árvores, soltos num território sem limites.

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A mãe toma o pequeno pelas mãozinhas e, debaixo da água, que agora já cai espessa, rodopia com ele de peito aberto, em uma gargalhada sonora. A euforia deles junta-se à natureza toda que, atiçada pela chuva, também se movimenta em um folguedo vibrante. Os cavalos trotam altivos entre o rebanho de ovelhas em busca de abrigo, enquanto os patos cirandam pelo açude entre mergulhos profundos e rápidos. O gado em alvoroço espanta os “quero-queros” aninhados sobre os filhotes e os pássaros gorjeiam pelos galhos do arvoredo em uma sinfonia peculiar. O cheiro da natureza refeita pela água evapora em toda parte como um respiro de vida. Neste paraíso terrestre, mãe e filho deixam-se encharcar corpo e alma, entregues à raridade do momento. Querendo ainda mais desta delícia, Daniela corre com o filho até o canto da calçada, onde um jato de água cristalina forma no chão um chafariz borbulhante. Mãe e filho bagunçam mais um pouco, jogando água um no outro, e a diversão só termina no banho que prepara o encontro da família neste dia molhado de contentamento.

Arthur senta na varanda, o gato chega de mansinho aos seus pés, ele o abraça e, em um monólogo incompreensível, senta com ele no balanço da varanda.

O carro entra na garagem. Arthur corre ao encontro do pai, lançando-se em seus braços. Papai adivinha o que a mãe e eu fizemos hoje? Agitado, o menino procura os olhos do pai, que o mantém inteiro em seus braços, engolindo, aos poucos, a felicidade agitada do filho. Alex vai ao encontro da esposa para um beijo. Em um abraço carregado de expectativas, mãe, pai e filho encharcam de amor os desejos nessas poucas horas que o turno de trabalho lhes possibilita viver juntos.

Carmen Maria Pulga é filósofa, teóloga, mestra em Novas Tecnologias da Comunicação e autora do livro A pétala, da Paulinas Editora. Gosta de arte, desde a culinária até a sucata, e ama ler os autores mais ecléticos.

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