Da periferia ao topo do mundo

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Brasileira é a primeira latino-americana e a terceira mulher negra a subir ao topo do Monte Everest. Ela realizou o sonho depois de quase dois anos de preparação física e arrecadação financeira 

Por Roseane Welter

Dizem que os sonhos movem montanhas. Para Aretha Duarte Freitas, educadora física, montanhista e empreendedora social, um sonho a levou para o alto – ao topo da maior montanha do planeta, o Monte Everest.

Em entrevista à Família Cristã, a jovem nascida e criada na periferia de Campinas (SP) contou como foi o despertar do sonho, a trajetória de lutas e desafios até a realização do sonho. Ela conquistou o marco histórico de ser a primeira latino-americana e a terceira mulher negra a subir ao “topo do mundo”.

O sonho

Reciclagem
Foto: Vinícius Popoh

Aretha conheceu o montanhismo ao cursar Educação Física. “Nunca tinha ouvido falar sobre esse tipo de esporte, mas fiquei apaixonada”, disse, ressaltando que, a partir de então, decidiu fazer cursos de escalada em rocha e começou a trabalhar em uma empresa de montanhismo.

Em 2019, impressionada com fotos e histórias de pessoas que chegaram ao cume do Monte Everest e sedenta de aventura, quis escalar a montanha que é considerada a mais alta do planeta, com 8.848 metros de altitude, localizada no continente asiático, na Cordilheira do Himalaia, entre o Nepal e o Tibete.

Em 2020, em plena pandemia, começou a viabilizar recursos financeiros para a realização do sonho. A reciclagem foi uma das fontes de renda. “Recolhi quinhentos quilos de itens recicláveis por dia – no total, foram 130 toneladas –, o que rendeu um terço do orçamento necessário para a viagem”, disse, destacando que fez vaquinhas online, bazares e recebeu doações.

“Minha escalada não era só uma realização pessoal. Muito pelo contrário, sempre acreditei que geraria resultados coletivos, e a busca por uma sociedade melhor se tornou minha prioridade desde o momento em que me decidi pela expedição rumo ao Everest”.

Superação

A subida até o topo durou 54 dias. Aretha narrou o itinerário. “Do campo-base para cima são quatro acampamentos-bases, o primeiro acampamento tem aproximadamente 5.900 metros, e o último tem quase 8.000 metros de altitude”.

A alpinista contou que o itinerário é longo e minucioso. É preciso adaptar-se às altitudes. “É necessário todo um ciclo de aclimatação, uma logística, para se adaptar ao local. O itinerário da subida é feito em etapas – campo 2, campo 3 e campo 4. Do campo 4, vamos até o topo, voltamos até o campo 4, depois voltamos para o campo-base, para descer tudo até onde iniciamos a escalada”, disse a escaladora.

Monte Everest
Foto: Gabriel Tarso

Aretha ressalta a experiência transformadora que essa conquista lhe proporcionou. “O Everest é uma vivência rara, incomum, maravilhosa. A cada dia de ascensão, eu ficava mais surpresa e feliz. Eu me sentia ainda mais grata pela oportunidade e pelo privilégio de estar vivendo a concretização do sonho”.

O frio de menos vinte graus também foi um dos grandes desafios enfrentados. “Durante a subida, me deparei com algumas situações difíceis: frio congelante, problemas de saúde, mas desistir nunca foi uma opção”, disse Aretha.

Inspiração

Segundo Aretha, a montanha é uma grande professora: “Ela me conecta ainda mais com a natureza e as pessoas”, disse, enfatizando que estar no Everest mudou sua perspectiva de viver a vida. “Percebi e entendi que preciso melhorar o meu modo de ser e viver para que a vida na cidade seja tão especial quanto na montanha”, comentou.

Monte Everest
Foto: Ju Coutinho

“Estar lá no topo e contemplar a beleza à volta é uma sensação única e gratificante. A montanha é para todo mundo, inclusive para as mulheres”, salientou, mencionando que os homens ainda são os recordistas em alcançar o topo do Everest.

A alpinista espera que sua conquista sirva de exemplo para que outras mulheres percebam seu potencial e vão em busca de seus sonhos. “Acredito que a minha conquista pode servir de inspiração para todas as mulheres, mostrando que nós podemos realizar, nós somos capazes. Espero que, daqui para a frente, todas nós sejamos a mudança que queremos, tanto pessoalmente quanto na sociedade”, pontuou.

Missão

Aretha reforçou que o sonho se transformou em uma missão propulsora de transformação social e ambiental. “Está muito além de chegar ao topo dessa montanha. Minha escalada não era somente uma realização pessoal. Muito pelo contrário, sempre entendi que geraria resultados coletivos, e a busca por uma sociedade melhor se tornou minha prioridade desde o momento em que me decidi pela expedição rumo ao Everest”, afirmou.

Aretha está empenhada na missão de proporcionar oportunidades para crianças, jovens e mulheres em situação de vulnerabilidade. “Hoje, eu tenho a missão e o compromisso de instalar paredes de escalada na periferia, para que esse esporte que me faz tão bem chegue a mais pessoas, assim como de oportunizar acesso à tecnologia, à robótica, às artes, à filosofia”, salientou ela, que acredita e investe em projetos socioambientais.

A montanhista acredita que a cultura, a educação e o esporte são agentes transformadores, pois proporcionam conhecimento e qualidade de vida às pessoas. “O que realmente importa é ajudar a dar uma vida digna e justa, além de despertar a capacidade individual e coletiva de desenvolver-se”.

Nunca deixe de sonhar

Com a conquista de chegar ao cume do Everest, Aretha tem se dedicado a mostrar, com a própria experiência, que é possível realizar os sonhos. “Como é difícil escalar esta montanha! Mas experimentei uma satisfação gigantesca ao ver o quão forte, preparada e resistente eu sou para encarar um desafio tão grande como este”, ponderou.

Monte Everest
Foto: Rosita Belinky

“Todo mundo pode ter um grande sonho e conseguir realizá-lo. As pessoas só precisam acreditar no seu poder interno. Espero que eu seja uma entre muitas mulheres negras latino-americanas alcançando grandes feitos”, finalizou.

Roseane Welter é jornalista, produtora de Rádio e TV. Graduada em Filosofia e licenciada em História. Apaixonada pela vida, gosta de música, de viajar, de escrever boas histórias inspiradas no cotidiano e de criar iniciativas que impactem o próximo.

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