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Crônica: Vi que o caminho é de luz - Revista Familia Cristã

Crônica: Vi que o caminho é de luz

Morte
Pixabay.com

Nosso espírito pertence a Deus e Ele o chama de volta para seu seio

Por Carmen Maria Pulga

Acompanhei minha mãe nos últimos meses de sua vida. Estávamos uma ao lado da outra, reflexivas. Eu tricotava uma meia, enquanto lhe fazia companhia. De repente ela rompeu o silêncio que nos envolvia e exclamou:

 – Sabe, não tenho mais medo.

– Por quê, mamãe? Você estava com medo?

– Ééé! Medo de morrer! – disse timidamente.

Parei para contemplar sua fala. Ela tinha um sorriso de luz quando acrescentou:

Não tenho mais medo. Vi que o caminho não é escuro, ele é de luz… Deus é fabuloso!

Continuamos em silêncio. Um silêncio sagrado, como se estivéssemos cercadas de anjos e o céu de testemunha. Mamãe entregou-me essa pérola, de forma despretensiosa e serena como uma criança entrega o brinquedo ao irmão que chora. Acho que ela percebeu o meu medo. Porque temos medo não somente de nossa morte, mas da morte de nossos pais, de nossos filhos, dos irmãos, dos amigos, de todo ser vivo, sobretudo, daqueles a quem dispensamos afeto e cuidados.

Sim, porque é sofrido deixar as mãos sedosas que nos acariciaram; os olhos ternos que nos compreenderam; o coração que guardou nossas histórias e nossos segredos; o sorriso que nos contagiou e a alma que nos inspirou. São laços afetivos que cultivamos para eternizar. É duro nos despedirmos para sempre desses contatos, dessas pessoas queridas. Tudo de que cuidamos cria laços de pertencimento que sangram ao romper-se.

tricô
Pixabay.com/ Foundry

Quem não sabe como é dolorido ver o fim de uma vida! E será sempre, para todos, porque significa desprendimento, desapego, incerteza. Ninguém sabe como vai reagir diante dessa experiência, que não pode ser delegada a outros; jamais pode ser terceirizada. A experiência da morte abre um leque de emoções que poucos estão preparados para administrar, mas, quando você tem o privilégio de assistir a uma morte serena, é um aprendizado que vale a pena ser vivido.

Pessoalmente, professo a mesma verdade do poeta místico Tagore: “A morte é definitivamente tão necessária quanto o nascimento. O caminhar tanto está no levantar o pé como em pousá-lo no chão”.

Somos seres criados, em que uma molécula diz “sim” à outra, e, num jogo de perda e ganho, a vida nasce em sua imensa diversidade. Viemos da morte de elementos que se dividem e se desprendem para criar outras células vivas. Todas têm um começo e precisam de um fim para fechar o ciclo e possibilitar nova vida. É desse movimento amoroso e doloroso que amadurecemos para uma nova experiência.

A estrutura básica da célula é circular. A Terra, o Sol, a Lua, tudo que tem movimento é circular. O círculo, quando fechado, representa a totalidade, a perfeição, o infinito. E o círculo só é círculo quando fechado; do contrário, é um traço em curva. Nossa trajetória nesta vida tem que fechar para alcançar a plenitude.

Nosso corpo físico pertence à terra e ela o chama de volta para si. Nosso espírito pertence a Deus e Ele o chama de volta para seu seio. O chamado de Deus é o aceno confiante do Pai que nos espera. A ternura de Mãe que nos dá à luz uma nova vida, um novo nascimento. Criados à semelhança de Deus, trazemos em nós esse grito de “não à morte” e “sim à vida”. A morte não é outra experiência senão o desprender-se do invólucro biológico à busca de quem nos fez à sua imagem e semelhança.

Esse trajeto é vida do começo ao fim. É vida o nascer e o morrer. Como é belo o crepúsculo e magnífico o entardecer. Nascemos inconscientes e desprovidos e morremos carregados de conhecimentos, de perguntas, de dúvidas, de medos. Nisso está o amadurecimento. O primeiro abrir do olho é vida tanto quanto o último fechar das pálpebras.

Eu acredito que nascemos com uma natureza finita, limitada e com todas as possibilidades para construir o caminho pelo qual Deus nos projetou: a felicidade em plenitude.

Fecho esta reflexão com as palavras do sábio mestre Tagore:

“Não me deixe implorar pelo alívio da dor, mas pela coragem de vencê-la.

Não me deixe procurar aliados na batalha da vida, mas a minha própria força.

Não me deixe suplicar com temor aflito para ser salvo, mas esperar paciência para merecer a liberdade.

Não me permita ser covarde, sentindo sua clemência apenas no meu êxito, mas me deixe sentir a força de sua mão quando eu cair”.

Carmem Maria Pulga é filósofa, teóloga, mestra em Novas Tecnologias da Comunicação e autora dos livros A pétala e Divino livro proibido, ambos publicados pela Paulinas Editora. Gosta de arte, desde a culinária até a sucata, e ama ler os autores mais ecléticos.

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