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Igualdade racial: mito ou verdade? - Revista Familia Cristã

Igualdade racial: mito ou verdade?

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Sentimos na pele, em pleno 2021, as marcas da exclusão na educação precária, nos postos de trabalhos inferiorizados e na pouca presença de negros nas universidades federais

Por Fernanda Izidoro

Há racismo no Brasil? Como expor verdades incontestáveis e importantes para nossa compreensão de mundo, de forma encorajadora? Inicialmente, é importante dizer que o racismo é uma construção sócio-histórica perpassada pelo conceito de raça.

Silvio Almeida, autor do livro Racismo estrutural, afirma que o racismo concede o sentido, a lógica e a tecnologia que mantêm a desigualdade social e a violência vigentes atualmente, e que este se manifesta de forma individual, institucional e estrutural. Individual, por atribuir ofensas a uma pessoa ou grupo; institucional, porque se refere às instituições público-privadas que operam nas relações sociais, reproduzindo subjetivamente a discriminação racial; e estrutural, por estar associado ao processo sócio-histórico e ainda presente nas estruturas da sociedade contemporânea, conforme apresentaremos a seguir.

Por esse motivo, é necessário primeiramente tratar sobre a noção de raça. Lia Vainer Schucman, em seu texto Racismo e antirracismo: a categoria raça em questão, mostra que a ideia de raça surgiu na modernidade, no século XVI. O europeu avançava pelas rotas marítimas, invadia terras longínquas, com intenções mercantilistas e exploratórias, e estabeleceu contato, inicialmente, com os africanos, indígenas americanos e, posteriormente, com os asiáticos.

Nesse período, havia também os filósofos, que observavam o homem de diferentes formas, refletiam sobre a criação do ideário de homem universal, diferenciavam o civilizado e o selvagem e classificavam pessoas a partir das características físicas e culturais. Essa política, denominada “colonialismo”, impôs “civilidade europeia” aos selvagens por meio de destruição, morte, roubo e humilhação.

Seleção natural

No século XIX, a ciência se consolidou como importante fonte de conhecimento. Lilia Moritz Schwarcz, em seu livro O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, explica que os cientistas davam continuidade ao trabalho dos filósofos e se apropriavam do determinismo, que afirma não existir acaso, mas, sim, seleção natural, em que alguns grupos, de forma naturalizada, passam a sobrepor-se a outros e a exercer dominação.

Além disso, os cientistas faziam inúmeras pesquisas para explicar as diferenças morais, psicológicas e intelectuais entre os povos e defendiam que os africanos possuíam tendência criminosa. Com base nesta teoria, criavam leis para manter os civilizados protegidos dos selvagens. Posteriormente, descobriram que não há marcadores genéticos que nos diferenciam.

Outro problema apresentado por Schwarcz: o Brasil, naquele século, enfrentava a pressão do mercado externo, principalmente da Inglaterra, para abolir a escravidão, porque não era lucrativa aos moldes do capitalismo.

Assim, precisavam de trabalhadores assalariados e consumidores para a manutenção do sistema capitalista. Com o fim da escravidão, a população negra ficou sem moradia, alimentação, vestimenta e nenhum amparo governamental. O encarceramento e os manicômios passaram, então, a receber com frequência os negros “vadios”, assim chamados porque eram encontrados sem emprego andando pelas ruas; porém, em nenhum lugar se empregavam negros.

Branqueamento

Em 1911, João Batista Lacerda, Diretor do Museu Nacional do Rio Janeiro, no I Congresso Internacional das Raças, em Londres, mostrou o quadro de Modesto Broccos, “Redenção de Cam”. Nele estavam apresentadas, de forma resumida, as conclusões dos teóricos do branqueamento: em um século, o país seria branco como a criança no quadro.

A partir das relações inter-raciais entre negros e brancos e pardos e brancos, aconteceria a exclusão da raça negra das terras brasileiras. Giralda Seyferth, em seu artigo “Colonização, imigração e questão racial”, relata que iniciaram a política de imigração com a permissão da entrada de imigrantes preferencialmente europeus, liberando certos incentivos, como doação de terras. E aqui é importante destacar que, para os negros libertos, não houve doação de terras nem renda, por isso viveram e vivem na informalidade e na marginalidade.

Segundo o Censo do IBGE, em 2010, a população brasileira tinha o total de 191 milhões de pessoas, distribuídas racialmente da seguinte forma: 97 milhões (51%) – Pardos e Negros; 91 milhões (47%) – Brancos; 2 milhões (1%) – Amarelos; e 817 mil (0,43%) – Índios. Portanto, a nação era e ainda é, majoritariamente, negra, desbancando, assim, a previsão de João Batista Lacerda.

Antirracismo

Any Lane / Pexels.com

Retomo aqui a pergunta inicial: há racismo no Brasil? Embora o projeto de extinção da população negra não tenha vencido, sentimos na pele, em pleno 2021, as marcas dessa exclusão, seja na educação precária, nos postos de trabalhos inferiorizados, na pouca presença de negros nas universidades federais, lançados às margens da sociedade, sendo encarcerados ou vítimas da violência policial nas favelas, sem recursos e sem propriedades.

Acreditamos em uma sociedade antirracista, em que os negros ocupem posições de destaque e relevância social, tenham educação satisfatória, moradia digna, renda familiar favorável, saúde, e que vivam em paz consigo e com o mundo.

Para alcançar esta meta, faz-se necessária a compreensão e o apoio à luta da população negra, conforme propõe o tema da Campanha da Fraternidade de 2021: “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”. Apesar de o racismo estrutural ser de difícil combate, é pertinente destacar que a população negra engajada nessa luta já tem alcançado vários resultados e é historicamente resistente à opressão.

Que vivamos, pois, o sonho e o orgulho de dizer: viva a igualdade racial, sem mitos!

Fernanda Izidoro é Influenciadora Digital no Canal Cara Mente Branca, Discente de Psicologia (UNA/MG); Estudiosa dos temas: Educação, Diversidade e Cultura de Paz: Como Promover uma Sociedade Antirracista? (UNA/MG); Psicologia Antirracista (UNA/MG); Comunicação Não Violenta (UNA/MG).

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