Já sou assinante!

Ainda não é assinante?

Identifique-se para ganhar mais 2 artigos por semana!

ou

ou Assine Já

Comer história: projeto resgata ancestralidade e memória afetiva dos alimentos

Comer história: projeto resgata ancestralidade e memória afetiva dos alimentos

Artigos Recentes

Historiadores contam, por meio de vídeo, áudio, texto e receitas, sobre a alimentação do passado

Por Erica Hong

Você já parou para pensar por que come o que come ou por qual razão combina certos alimentos na cozinha e outros não? Muito mais do que apenas misturar ingredientes e agradar o paladar, preparar uma refeição traz consigo uma centena de contextos, histórias e hábitos de povos do passado, além de toda memória afetiva que os pratos são capazes de despertar.

História
Arquivo Pessoal @Comerhistoria

A partir da história do alimento pode-se pensar sobre a sua produção, aquisição, circulação ou falta, hábitos de consumo, regimes de alimentação, artes e saberes culinários, espaços e equipamentos mobilizados e, ainda, vislumbrar aspectos cotidianos, políticos, econômicos, culturais, biológicos, pragmáticos, simbólicos de toda uma sociedade, segundo os historiadores Ana Carolina Viotti, Rafael Afonso Gonçalves e Gabriel Ferreira Gurian. Foi a partir dessa riqueza do campo da narrativa da alimentação e do desejo de divulgar o resultado de suas pesquisas que os três decidiram criar o Comer História, um projeto que se dedica a contar as histórias que as receitas carregam e explicar o universo que rodeia as práticas alimentares. 

Assim, há pouco mais de um ano, comida e um bocado de passado têm andado juntas, com a curadoria dos três, trazendo toda a ancestralidade dos saberes e das infinitas composições do ato de cozinhar. “Trazer pitadinhas diárias, com uma curadoria séria, em formato acessível, possibilita que nosso público se informe sobre assuntos pouco comuns no fluxo de informações do dia a dia e que possam refletir sobre eles em vários níveis, a partir da disposição de cada um”, explicam.

Dessa maneira, Ana se dedica, principalmente, ao Brasil colonial; Gabriel é especialista em História Moderna e trabalha o consumo de bebidas no Brasil holandês; enquanto Rafael, também especialista em História Medieval, pesquisa temas relacionados às viagens ao Oriente, à representação da natureza e dos animais. Como resultado, a linha de pesquisa dos três abrange um período que vai do século XIII ao XX, da Ásia na Idade Média ao Brasil Republicano, o que lhes permite atravessar épocas e lugares distintos, por meio de uma variedade de documentos.

Aprendizado, produção e adaptação

A ideia inicial era produzir apenas vídeos para o YouTube, trazendo histórias de alguns pratos, o modo de preparo e interligando-os, ainda, com o contexto em que foram elaborados e as formas como se disseminaram entre diferentes lugares ou camadas sociais. “Queríamos fazer com que a alimentação fosse uma chave para aprender história”, comentam. 

alimentos
Arquivo Pessoal @Comerhistoria

Porém, logo se deram conta de que era possível explorar o universo da cozinha e da alimentação em outras plataformas, como o Instagram e, mais recentemente, o TikTok – um aplicativo de mídia para criar e compartilhar vídeos curtos. “Assim, além de imagens e documentos que encontramos em arquivos, museus, hemerotecas e outros acervos, desenvolvemos também um trabalho de reprodução de receitas do passado. A partir de livros de cozinha, mas também de outros textos históricos, tentamos mostrar por meio de vídeos, imagens e descrições que cara e que gosto tinham as comidas que as pessoas de outras épocas comiam e como elas nos ajudam a explicar as muitas dinâmicas sociais do passado”, explicam os historiadores.

Para tornar o conteúdo ainda mais robusto, eles ainda têm contato com manuais e livros de relatos de viajantes, jornais e outros periódicos que facilitam a seleção de histórias a serem contadas e receitas – que ficam por conta de Ana – a serem testadas e reproduzidas. 

Mas para colocar todo esse material no ar foi preciso muito aprendizado e disciplina de estudos, a fim de deixar as histórias com a cara que queriam, como eles mesmos mencionaram: mais apetitosas! Portanto, os três, além da pesquisa diária, embarcaram no mundo da produção e da edição de conteúdo para plataformas digitais. Sendo assim, fugir do texto acadêmico, manusear e manipular equipamentos de vídeos e programas de edição foi um desafio. “Falar de forma simples, mas sem ser simplista: esse é um dos objetivos que guiam nossa produção. Chegar até as pessoas, mas sem perder de vista o rigor e nosso compromisso com o ofício de historiador, isso para nós é fundamental”, afirmam.

Receitas e próximos passos

De acordo com os autores do projeto, desde o início do Comer História, perceberam que falar sobre comida desperta nas pessoas uma familiaridade. “As pessoas, no geral, se sentem muito à vontade de dizer o que comem, suas memórias com comida e também aquilo de que não gostam”, relatam. Outro ponto é que sempre houve um grande interesse, por parte do público, pela culinária brasileira,  principalmente, pelos que carregam uma memória afetiva. Como foi o caso do vídeo da história da pamonha, em que reproduziram uma das primeiras receitas publicadas no Brasil, no final do século XIX. 

Também o preparo de um “beijinho de coco”, publicado em um livro de 1927, ganhou o público no TikTok. Dessa maneira, percebem que a recepção do público tem sido muito positiva.

Para os próximos passos do Comer História, o grupo espera conseguir realizar algo no campo presencial, com parcerias e atividades junto a museus, centros de memória e escolas, além de atuar com serviços de consultoria e lançar um livro em conjunto, fruto do trabalho produzido até agora.


Erica Hong é jornalista, apaixonada pelos seus cachorros e ama ler os mais diversos temas. Sociedade e cultura a inspiram. Admira quem dá voz àqueles que precisam ser ouvidos e sonha um dia também dar luz às questões sociais que vivemos.

Deixe seu comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

error: Ação desabilitada