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Educação: o melhor de nós - Revista Familia Cristã

Educação: o melhor de nós

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Por Amaro França

Os anos passaram, mas essa cena sempre volta à memória quando me deparo com situações em que as crianças ou as pessoas com as quais convivo não se sentem capazes de resolver alguma questão ou desenvolver uma determinada atividade.

Na ocasião eu era ainda um jovem coordenador e estava conduzindo uma reunião com um pequeno grupo de professores, quando, de repente, adentram a minha sala (de forma abrupta) uma professora e uma criança; a professora, estupefata, expressando em seu olhar e em palavras um pedido de socorro, e a criança, aos prantos, gritando em profunda crise emocional.

Essa criança era um garoto que tinha por volta de seis anos. Chorando, ele repetia manifestando a sua dor: “Eu sou burro! Burro… Burro!”. A professora nesse momento olhou para mim e disse: “Por tudo que é mais sagrado, me ajude! Ele entrou em crise há alguns minutos e ninguém consegue contê-lo. Eu não sei o que fazer”.

Sabe, às vezes na vida, a gente se depara com situações em que, mesmo conhecendo algumas teorias, precisa da ajuda divina. E foi o que fiz. Pedi ao Senhor que pudesse me iluminar para conter aquela situação e proporcionar à criança um pouco de paz. Enquanto eu pensava/orava, o aluno entrou debaixo da mesa de reunião e repetia sua dor insistentemente, em autoafirmação, de que era: “Burro… Burro!”.

Nesse momento, pedi licença aos professores que estavam na reunião e solicitei que saíssem da sala, me deixando apenas com a professora e o garoto.

Colocar-se no lugar do outro

Falei para a professora: “Não se espante com o que vou fazer”. Agachei-me e fiquei na mesma posição do garoto, como um gesto de imitação, visando a uma aproximação. Ele olhou espantado e falou: “Eu sou burro… Burro!”. E eu repeti no mesmo tom: “Eu sou burro… Burro!”. Daí ele me olhou mais uma vez e foi mudando o tom do que dizia. E eu, por minha vez, também ecoava no mesmo tom. E, assim, fomos “estabelecendo” uma proximidade. Até que ele foi parando de chorar e começou a me olhar discretamente de maneira sorridente. Acho que deve ter pensado: “Esse grandão deve ser mais burro do que eu!”. E assim, lentamente, pela imitação, houve uma sintonia entre nós e depois começamos a sorrir. Logo, ele saiu debaixo da mesa, enxugou as lágrimas com um lenço de papel, pediu para tomar água, se recompôs e começou a conversar comigo. Enquanto isso, a professora nos olhava emocionada pelo que estava presenciando.

Depois de certo tempo de conversa, o garoto falou que queria voltar para a sala de aula e perguntou se poderia me visitar de vez em quando em minha sala; e claro que, prontamente, falei com um largo sorriso: “Sim”. Ele me deu um abraço e saiu.

A professora, agora sorrindo, me agradeceu com um forte abraço. Orientei-a que, juntamente com o Serviço de Orientação Educacional, ela pudesse narrar o ocorrido aos pais do aluno e que certamente um encaminhamento da criança a um profissional da psicologia se fazia necessário.

A raiz dos comportamentos

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Posteriormente, em outra oportunidade, obtive a informação de que um dos fatores desencadeadores da crise emocional do aluno fora o fato de ele ter-se deparado em sala de aula com uma atividade a qual não reconheceu ser capaz de realizar. Algumas vezes, isso também ocorria quando ele estava no ambiente familiar, principalmente, quando realizava as suas tarefas para casa e que, por infelicidade, a sua mãe dizia repetidamente: “Como você não sabe resolver isso?! Você é burro mesmo!”.

Sem nenhum julgamento à mãe do garoto, penso que o nosso papel enquanto educadores (pais, responsáveis e/ou docentes) é despertar o melhor nos nossos filhos e educandos. A palavra educação, em sua origem etimológica do latim, é: educere, que revela a ideia de “extrair”, de “conduzir para fora” e que, na língua portuguesa, produziu o verbo “eduzir” e a própria palavra “educação” (extração).

Capacidade de superação

Em um processo educativo, como afirma o professor e escritor Nilson José Machado: “É impossível viver sem fé no ser humano, sem confiança em sua capacidade de superação, sem um ideal de crescimento permanente, de perfectibilidade. Uma ação nunca é eticamente defensável se não oferecemos aos outros o melhor de nós, em cada momento. Particularmente na ação docente, a subestimação das expectativas relativas aos alunos é imperdoável. Ela conduz, inevitavelmente, ao limbo do conformismo, à praga do fatalismo ou às profecias nefastas, que se autorrealizam”.

Em sintonia com uma perspectiva de fato educativa, é possível realizar um processo educacional se houver por parte dos educadores uma “aproximação” (presencial ou remota), em uma construção de vínculo, a partir de um olhar de afeto para que cada educando, nas interações humanas e cognitivas, cresça em um contínuo aprendizado de ser o melhor de si, na consolidação do melhor de nós.

Amaro França é escritor, palestrante e gestor educacional; autor do livro Gestão Humanizada: liderança e resultados organizacionais, da editora Ramalhete. Apaixonado pela educação, gosta de escrever, tendo como propósito impactar positivamente as pessoas com suas ideias, liderança e trabalho.

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