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Dois anos sem reparação das famílias em Brumadinho - Atualidades

Dois anos sem reparação das famílias em Brumadinho

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Comunidades inteiramente atingidas pelo rompimento da barragem continuam sendo violadas em seus direitos

Por Marina Paula Oliveira

No próximo dia 25 de janeiro, o rompimento da barragem de rejeitos da mina de ferro Córrego do Feijão, em Brumadinho, no estado de Minas Gerais, de propriedade da mineradora Vale S.A., completa 2 anos, mas as vítimas seguem sem reparação. O desastre deixou uma inundação de rejeitos de mineração que vitimou pelo menos 272 pessoas, 11 delas ainda não encontradas. Além disso, destruiu fauna e flora, contaminando centenas de quilômetros da bacia do rio Paraopeba.

Os processos de reparação e/ou compensação estão sendo construídos, na maioria dos casos, sem a participação dos atingidos e atingidas da bacia do rio Paraopeba. O acordo de conciliação judicial, por exemplo, entre a Vale e o Governo de Minas Gerais, tem sido realizado em formato confidencial e sem a participação das vítimas.

Ato Brumadinho / Francielle Oliveira (Cáritas MG)

De acordo com Matuzinha de Fátima da Silva, moradora da comunidade quilombola do Sapé, em Brumadinho, “as audiências estão acontecendo, mas as comunidades não estão fazendo parte”. Os sentimentos que têm assolado as comunidades atingidas são o medo, a insegurança e a incerteza: “Temos que ter medo da Vale, porque infelizmente é uma empresa poderosa que tem muito dinheiro. É muito fácil ela chegar para alguém que às vezes tem dificuldades e oferecer dinheiro para ficar contra a luta das comunidades atingidas, ou até mesmo ficar calado. A Vale é um gigante poderoso, é um monstro”, avalia a moradora atingida.

Publicidade x Realidade

Apesar das propagandas da Vale, que exaltam ações de reparação ao crime nos principais veículos de comunicação do País, a realidade dos atingidos é outra. O poder exercido pela mineradora fica ainda mais evidente através de seus investimentos em estratégias de comunicação e publicidade: “Eles investem em publicidade para sustentar as mentiras da empresa. O resto do País e do mundo acredita que a Vale esteja reparando os seus erros, preocupada com a população. Nós, atingidos, não temos dinheiro para ir ao horário nobre da televisão, colocar uma publicidade e contar a realidade. Não temos voz diante das publicidades da Vale”, relata Fernanda Mercês Ribeiro, da comunidade do Tejuco, zona rural de Brumadinho.

Segundo Fernanda, a tragédia do rompimento da barragem continua vitimando muitas pessoas: “Meus filhos, após o ocorrido, passaram a apresentar problemas psicológicos. Como mãe e esposa, eu segurei a onda de três filhos, que passaram a sofrer de ansiedade e depressão, e de um marido que perdeu 22 companheiros de trabalho, além das pessoas conhecidas no Córrego do Feijão. Chegou uma hora que eu não aguentava nem mesmo dirigir, devido às crises de ansiedade”, relata.

A situação não é diferente na comunidade do Córrego do Feijão. Atamaio Ferreira é morador da comunidade e, além disso, perdeu uma irmã, uma cunhada e vários amigos. Ele relata a falta de informação e participação na construção do acordo entre o Governo de Minas Gerais e a Vale, referente ao processo de reparação dos atingidos: “Não estamos cientes do que está sendo debatido, nunca fomos consultados. Asseguro que no Córrego do Feijão não teve nenhuma consulta sobre reparação ou acordo”, informa.  

Patrícia Pereira dos Santos, moradora da comunidade quilombola de Ribeirão, em Brumadinho, argumenta que a falta de transparência por parte da empresa não é uma coincidência, é uma prática sistemática para invisibilizar as realidades das comunidades: “Nenhuma das nossas realidades está sendo apresentada nos relatórios e publicidades da Vale”. Ela continua: “Eles ignoram realidades, existem informações que desconsideram. Eles têm conhecimento claro, mas escolhem ignorar”.

Atingidos, violados, desrespeitados

A falta de informação e transparência no processo de reparação, aliada a uma estratégia de comunicação da empresa responsável pelo rompimento da barragem, gera frustração e indignação nas comunidades, uma vez que cria a falsa narrativa de que os danos e impactos estão sendo reparados a partir da escuta e do diálogo com as vítimas: “Na última semana, precisei ir ao hospital de Brumadinho, e na van, no rádio ligado, a Vale estava sendo exaltada durante o caminho todo. No programa, se dizia que no processo de reparação estão se ouvindo os atingidos. Não aguentei e disse: é mentira, a Vale não está nos ouvindo em nenhum momento. É uma covardia. É muito perverso”, destaca Matuzinha de Fátima, liderança de uma das comunidades atingidas.

Comunidades inteiramente atingidas pelo rompimento da barragem continuam sendo violadas no contexto de reparação e compensação, inclusive por muitas entidades que deveriam, fundamentalmente, defendê-las e respeitá-las. Desconsiderar a participação popular é negar a centralidade das vítimas no processo de reparação. 

Este princípio da centralidade, que garante a escuta e participação das comunidades, vem sendo violado sistematicamente desde o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Aquilo que deveria ser o principal aprendizado dos dois crimes – a centralidade das vítimas – instrumentaliza-se a favor dos empreendimentos minerários: a não participação e organização popular só beneficia aqueles que não estão comprometidos com uma reparação integral e justa.

Marina Paula Oliveira é moradora de Brumadinho, coordenadora de projetos para as comunidades atingidas pelo rompimento da barragem, pela Arquidiocese de Belo Horizonte, e mestranda em Relações Internacionais pela PUC Minas.

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