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Depressão infantil: é preciso estar atento - Revista Familia Cristã

Depressão infantil: é preciso estar atento

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Um quadro persistente de tristeza, além de sintomas que prejudicam o desempenho social e escolar, são indícios da doença

Por Erica Hong

Levantar, escovar os dentes, tomar café, arrumar a cama, brincar, tomar banho, jantar e dormir. Essa é a rotina de Miguel* (nome fictício) nesse período de pandemia, por conta do vírus da Covid-19. Apesar de parecer um dia comum, o pequeno, de apenas 11 anos, enfrenta uma batalha silenciosa: a depressão infantil.

Segundo dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), o índice de crianças entre 6 e 12 anos diagnosticadas com depressão infantil é de 8% em todo o mundo. No Brasil, esse número gira em torno de 1% a 3% da população entre 0 e 17 anos.

Em 2016, o pai de Miguel sofreu um acidente. De volta em casa, ele já não era o mesmo. Não podia se movimentar, precisava de ajuda para comer, tomar banho e fazer as atividades diárias, realizadas com muita dedicação por Solange* (nome fictício), sua esposa.

Além das sequelas do acidente, ele foi diagnosticado com depressão; então, Solange recorreu a todos os tratamentos que estavam ao seu alcance para ajudar o companheiro. Foram ao psicólogo, ao psiquiatra, procuraram a religião, fizeram tratamento natural, mas, em dezembro de 2018, ele se suicidou.

O choque e a impotência tomaram conta de Solange e, no meio de tudo isso, por conta do trabalho, ela foi transferida para Araucária (PR). “No início eu achei que isso era uma coisa boa, que seria bom para o meu filho, mas não foi bem assim”, diz.

Com a mudança de ambiente, escola e pessoas, a mãe de Miguel* percebeu que seu filho ficou mais triste. Não conseguiu fazer amigos, sofreu bullying no colégio e foi perdendo interesse nas coisas que gostava. Então, ela pediu ajuda na escola, que indicou uma psicóloga, e logo de início o diagnóstico foi depressão.

Miguel teve uma boa melhora depois que começou o acompanhamento, mas, com o início da pandemia, a solidão que ele sentia aumentou e ele voltou a decair. “Ele não come, não toma banho, não quer estudar, brincar nem sair; não sente prazer, não quer fazer nada, absolutamente nada. É uma coisa assustadora. A fisionomia muda, o rosto muda, a forma como fala, se comporta. Quem nunca passou por isso, não consegue imaginar como é. “Chega um momento em que você não consegue mais raciocinar e não sabe mais o que fazer. A gente entra em pânico e começa a ficar doente junto. Eu já perdi um, não quero perder o outro”, desabafa.

Para Solange, o que mais a incomodou em relação a tudo que aconteceu foi a falta de compreensão e críticas que recebeu das pessoas. “É falta de ter o que fazer, é falta de Deus”, foram algumas das frases que ouviu. “Elas fazem com que isso piore. Entristece ainda mais, ao invés de dar força para quem está precisando naquele momento”, diz.

Irritabilidade como sintoma

A depressão infantil é um transtorno de humor com características diagnósticas e clínicas semelhantes a dos adultos e adolescentes. A psicóloga infantojuvenil Carla Saad explica que, para identificar a doença, é essencial ficar atento às mudanças bruscas de comportamento da criança. O principal sintoma da depressão infantil não é o humor deprimido, mas a irritabilidade.

As crianças menores de 6 anos apresentam recusa alimentar, atraso no desenvolvimento neuropsicomotor e de linguagem, problemas de sono, intolerâncias a frustrações, agitação extrema e isolamento.

Yang Miao – Unsplash

Enquanto nas crianças acima de 6 anos uma característica muito evidente é a piora no desempenho escolar, além da dificuldade de interagir com os pares. “Você percebe que a criança brinca menos, desenha menos, interage menos. A autoestima está prejudicada e, tanto nos menores como nos maiores, há muita irritabilidade”, diz a psicóloga.

O principal critério para diferenciar uma criança que está passando por um momento de tristeza para uma criança com depressão é a persistência de no mínimo duas semanas deste quadro, e os sintomas estarem causando prejuízos no desempenho social, familiar e escolar. “Meus pacientes com depressão falam ‘tenho preguiça’, e não é preguiça, é desânimo, falta de energia, cansaço. Outra coisa que também se torna evidente é a percepção muito negativa que elas passam a ter delas mesmas”, explica.

Carla ainda destaca que as causas da depressão infantil são resultado da interação de diversos fatores. Pode envolver genética, questões pré-natais e situações presentes no ambiente em que a criança está inserida, como a relação familiar, eventos estressores, perdas, negligências, maus-tratos, abuso sexual e violências em geral.

Tratamento e relacionamento positivo

Em relação ao tratamento, a psicóloga diz que é sempre necessário observar os sinais e, em caso de persistência dos sintomas, buscar ajuda de um profissional da saúde mental, psicólogo ou psiquiatra. “São esses profissionais que serão responsáveis por avaliar essa criança e ver se existe um transtorno, se ele é leve, moderado, grave, e qual a melhor maneira de tratá-lo”, pontua.

Para as crianças com menos de 6 anos, é indicada a psicoterapia com orientação familiar. Em alguns casos é recomendado o uso de medicação, porém deve ser avaliado pelo profissional. Sempre que for possível, a escola deve ser envolvida.

O principal fator de proteção para que a criança não venha a desenvolver o transtorno é o relacionamento positivo entre pais e filhos. São momentos prazerosos de lazer e proximidade, de colocação de regras e limites coerentes, de não utilização de punição física para educar, de participação ativa no cotidiano da criança, de reconhecer e validar as emoções dos filhos. “Enfim, são pais que conseguem suprir as necessidades psicológicas básicas e proporcionam aos filhos autonomia para evitar que um transtorno seja estabelecido”, conclui a psicóloga.

Erica Hong é jornalista, graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). É apaixonada pelos seus cachorros e ama ler os mais diversos temas. Sociedade e cultura a inspiram. Admira quem dá voz àqueles que precisam ser ouvidos e sonha um dia também dar luz às questões sociais que vivemos.

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