“Doutor, é demência? Ou será
que é Alzheimer?”

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Distúrbios que afetam a memória podem ter diversas causas, algumas curáveis. Saiba diferenciá-los

Por Dr. Vitor Last Pintarelli

Quando alguém leva um familiar idoso com problemas de memória para avaliação médica, muitas dúvidas se acumulam. A primeira pergunta que fazem ao médico é se os esquecimentos são normais, atribuíveis à idade. Após o esclarecimento de que o envelhecimento faz a memória ficar mais lenta, mas não é normal “apagar” lembranças, as perguntas seguintes costumam ser: “Será que é demência? Ou pode ser Alzheimer?”.

Distúrbios que afetam a memória podem ter diversas causas, algumas curáveis, como depressão, distúrbios da tireoide, deficiências de vitamina B12, certos problemas renais e hepáticos. Certas doenças que requerem tratamentos neurocirúrgicos, como hidrocefalia de pressão normal e hematoma subdural crônico, também podem causar problemas de memória corrigíveis. 

Contudo, nem todo problema de memória é sinônimo de demência, e demência não é o mesmo que amnésia. Em termos médicos, para caracterizar um quadro demencial, além de comprometimento da memória, é preciso constatar também outros déficits, como dificuldades de raciocínio, linguagem, capacidade de execução de tarefas etc. É necessário que esses problemas impactem o dia a dia de seu portador, impedindo-o de realizar alguma atividade previamente desempenhada. E tal quadro não pode se resumir a episódios isolados de confusão mental desencadeada por problemas agudos, como fármacos ou infecções.

Para reconhecer se um paciente é portador de demência, o médico executa a consulta tradicional, na qual investiga os sintomas, examina o paciente e também aplica alguns testes de avaliação cognitiva, que servem para mapear as diferentes funções mentais, como orientação no tempo e no espaço, memória imediata e de evocação, atenção e cálculo, habilidades visuoespaciais, linguagem etc. Além disso, vários exames são requisitados, como uma bateria laboratorial, tomografia ou ressonância de crânio e outros, conforme as hipóteses diagnósticas consideradas.

Demências nos idosos

Nos idosos, as demências são ocasionadas, na maior parte das vezes, por doenças do sistema nervoso central, como distúrbios circulatórios (desde pequenas lesões reconhecíveis somente por exames de imagem até AVCs incapacitantes), e por doenças degenerativas (que levam à morte progressiva dos neurônios), como a doença de Alzheimer, a doença de Parkinson e a demência com corpos de Lewy. Essas são doenças para as quais, embora existam medicamentos para controlar seus sintomas, ao menos parcialmente, ainda não existem tratamentos que as curem. Ou seja, a doença de Alzheimer é uma das causas mais comuns de demência, mas há muitas outras doenças que causam quadros semelhantes.

Demência
Pixabay.com/Dependent-636111920

Covid-19 x memória

Uma novidade nessa lista é a constatação de que a infecção pelo novo coronavírus pode causar, em alguns pacientes, problemas de memória e raciocínio. Muitas pessoas que tiveram a Covid-19 descrevem uma sensação de “névoa mental”; outras referem que, mesmo depois de meses, percebem sua memória deteriorada, e há casos de pessoas que recebem diagnóstico de demência. Ainda não se sabe ao certo qual o percentual de pessoas infectadas pelo SARS-COV-2 que desenvolvem problemas cognitivos, nem se esses quadros são temporários ou definitivos, mas há indícios de que, em alguns casos, os danos neurológicos são permanentes.

Como prevenir demências?

Por fim, há como prevenir demências? Em parte, sim. Segundo um estudo publicado em 2020 na revista médica Lancet, cerca de 40% das demências podem ser prevenidas pela adoção das seguintes medidas: manter a pressão arterial controlada; corrigir problemas auditivos; evitar a exposição à poluição do ar e fumo passivo; prevenir traumatismos cranianos; reduzir ao mínimo o consumo de bebidas alcoólicas; cessar o tabagismo; promover a educação primária e secundária para todas as crianças; controlar a obesidade e o diabetes; ser fisicamente ativo; evitar o isolamento social; tratar os casos de depressão. Por nossa conta, podemos acrescentar: previna-se da Covid-19. Vacine-se e mantenha as medidas de prevenção!

Dr. Vitor Last Pintarelli é médico geriatra e professor da disciplina de Geriatria da Universidade Federal do Paraná. Autor de artigos científicos e capítulos de livros. É casado e pai de três filhos.

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