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Cultura da negação do envelhecimento  - Revista Familia Cristã

Cultura da negação do envelhecimento 

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A negação do envelhecimento e a busca por padrões estéticos se tornaram uma corrida contra o tempo

Por Catiane Leandro 

A expectativa de vida no Brasil tem aumentado, segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2020. Estima-se que a média de vida seja de 76 anos, sendo 73 anos para homens e 80 para mulheres. Com a população vivendo por mais tempo, cresceu também a busca por uma vida mais saudável para manter-se ativo e disposto por mais tempo, e também a busca por procedimentos estéticos que retardem ou disfarcem os sinais do envelhecimento físico.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) utiliza uma classificação em quatro estágios para definir o envelhecimento por idade: meia-idade, entre 45 a 59 anos; idoso, entre 60 e 74 anos; ancião, entre 75 e 90 anos; e velhice extrema, aos 90 anos em diante. Independentemente da idade ou do estágio, sabemos que chegar a essa fase da vida é um grande privilégio, pois se carrega uma bagagem de experiências e conhecimentos que apenas o tempo é capaz de trazer. O grande problema é quando os estereótipos impostos pela sociedade passam a perturbar o psicológico das pessoas que não se preparam para a chegada desse ciclo.

Para alguns idosos é muito difícil aceitar a chegada do envelhecimento. A psicóloga Suelen Dias explica os principais motivos disso: “Dois fatores são muito importantes para essa negação: a finitude em termos de vida e a inutilidade. A sensação de ver a vida passando e ter que ressignificar o seu lugar, perceber que você já não cabe em muitos espaços e lidar com a realidade de que a sua vida está chegando em um ponto de finitude e que precisa atribuir um novo significado a essa fase, causa frustração. Podemos dizer que é a melhor idade, mas muitas pessoas não veem desse jeito, trazendo essa negação do envelhecimento, que não é só por um fator estético, mas por uma idealização sobre aquilo que a vida impõe, como os questionamentos, olhar para trás e ver as coisas que fez e o que deixou de fazer. Tudo isso traz um misto de reflexões e emoções que acaba acarretando até uma depressão, por falta do reconhecimento como pessoa ao chegar nessa fase da vida”, relata.


Procedimentos estéticos como forma de driblar o tempo

Junto com a negação do envelhecimento, surge também a busca por procedimentos estéticos pela preocupação com a autoimagem e pela tentativa de se manter dentro dos padrões estéticos da sociedade. A maioria dos procedimentos é realizada por mulheres a partir dos 30 anos, e dentro da lista de mais procurados nos consultórios estão os de harmonização facial. Segundo a especialista em enfermagem dermatológica e estética Milena Ferreira, o procedimento mais procurado em seu consultório é a toxina botulínica, o famoso “Botox”, por se tratar de um procedimento que o custo não é tão elevado e é bem seguro, quando realizado por um profissional qualificado. Outros procedimentos que estão em alta no momento são o preenchimento labial, feito com ácido hialurônico, para deixar os lábios mais desenhados e volumosos, e a reposição de colágeno, que têm sido procurados por homens e mulheres. 

“Atualmente, 80% das minhas pacientes são mulheres de 30 anos. Hoje as mulheres e homens estão à procura da estética cada vez mais jovens. Alguns, para melhorar a aparência que a própria sociedade exige, e outras, como prevenção do envelhecimento. Os estudos antigamente apontavam que os jovens perdiam colágeno a partir dos 30 anos, mas os mais recentes apontam que isso acontece aos 25. Muitos jovens procuram procedimentos estéticos com essa idade, inclusive devido ao estilo de vida deles, com muita bebida, tabaco, sol e diversos fatores externos que fazem o envelhecimento acontecer de forma mais rápida”, conta a enfermeira. 

Questionada sobre como tratar os pacientes que buscam procedimentos estéticos como forma de negação do envelhecimento, Milena Ferreira diz que: “Nos pacientes que procuram por procedimentos com essa motivação, nunca faço algo estético brusco; faço uma toxina ou hidrato a pele. Acredito que esse paciente precise de acompanhamento terapêutico como forma de se aceitar. Se ele não se aceitar como está, como irá aceitar as mudanças? Então precisa de um acompanhamento”. 

Milena relata que sinaliza aos pacientes a necessidade de um trabalho multidisciplinar, em parceria com outros profissionais, como terapeuta, nutricionista, ortodontista, dermatologista, educador físico, dentre outros. E conta como é importante analisar e conhecer cada paciente: “Como profissionais, precisamos ter a responsabilidade e a empatia de entender e observar certos comportamentos, como forma de evitar problemas futuros. Fazemos isso através da anamnese, que não consiste apenas em saber do histórico de doenças, alergias e tratamentos que o paciente já fez, mas também em observar o paciente como um todo. Esse é o momento mais importante do atendimento. Hoje, as pessoas precisam entender que a estética não é só o físico e a aparência; trata-se também de bem-estar e saúde, inclusive de saúde mental”, conclui. 

A busca por procedimentos estéticos, quando está ligada à negação do envelhecimento, vem para satisfazer o desejo de manter a vitalidade e a autoaceitação: “A busca pelos procedimentos estéticos vem pela negação daquilo que vejo em mim mesmo. É uma tentativa de buscar em si ainda ‘alguma vida dentro da vida’. As pessoas se olham no espelho e veem que não possuem mais aquela energia vital em sua aparência e que têm limitações. É uma busca por tentar se encaixar e uma afirmação da negação do envelhecimento. A aparência é o primeiro sinal do envelhecimento; então, quando isso é modificado, fica mais fácil lidar com a ideia de que não quero envelhecer”, pontua a psicóloga Suelen Dias. 

Qual a melhor forma de aceitar a velhice e vivê-la bem?

Segundo a psicóloga, é começar a viver o presente e entender que existem fases durante toda a vida. Esse processo pode e deve ser feito desde a juventude: “A melhor forma de aceitar é primeiro começar a viver o aqui e agora! Entender que a vida tem suas fases: nascer, crescer, reproduzir e envelhecer, e que precisamos aceitar nossas limitações; sobretudo, entender que fizemos nosso melhor no passado, que é uma coisa que não volta mais, podemos fazer melhor no futuro e aproveitar o presente. Nesse momento em que muitos já estão aposentados, é hora de fazer aquela viagem que nunca fez, estar mais próximo da família, cuidar dos filhos e netos de uma forma que não teve oportunidade no passado”, conclui.

Negação do envelhecimento
Pexels.com

“Desde que me aposentei, busquei estar mais próxima da minha família, viajar, ir para romarias e passeios da igreja, realizar aulas de dança e de teatro, que me ajudaram a não me sentir sozinha. Busco me cuidar sempre, sou muito vaidosa, saio e me divirto muito com minhas amigas. Acredito que estou vivendo a melhor época da minha vida. A velhice tem que ser vivida como todas as outras fases da vida, com suas limitações e alegrias. Sou grata a Deus por me permitir vivenciá-la”, contou Maria da Conceição, no auge dos seus 63 anos. 


Catiane Leandro
, jornalista, pós-graduada em marketing digital, Webjornalismo e mídias digitais. Fotógrafa profissional, com foco em família e imagens religiosas. Católica, devota de Nossa Senhora Aparecida. Fotógrafa oficial da Arquidiocese de Salvador. Coordenadora de atendimento na Agência Clara Comunicação Católica. 

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