Crônica: Urgência

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Por Carmen Maria Pulga

Foi no entardecer de uma sexta-feira, hora do rush, que, ao sair do vagão do metrô na estação da Sé, recuei um pouco para dar passagem a uma multidão que se atropelava pelas escadas e catracas. Parei o olhar e vi uma corrente de pernas e pés, ágeis, ora se entrelaçando, ora se esbarrando, desencontrados. Havia urgência no tempo. Havia pressa do abraço, do aconchego, da volta ao lar. Havia a energia do amor e do convívio. Havia meta e destino. Eu ali, parada, a olhar aquele quase desatino, senti nascer em mim um momento novo. 

Urgência
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De repente, percebi minha atenção cair no outro lado do mundo, naquele trágico cenário de guerra: a multidão de fugitivos nas estações de trem na Ucrânia. O mesmo espaço cinzento, duro, frio, a mesma urgência, o mesmo atropelo –, só que na contramão. O grito sufocado, o olhar vagando sem destino, lares desfeitos, sonhos abandonados. 

Então, como em um sopro vieram à minha mente as palavras de McLuhan: “Os homens criam as ferramentas e as ferramentas recriam os homens”. Mas também este pensamento desapareceu na mesma fluidez com que a vida me obrigava ao movimento naquele lugar de travessia.

Então fui surpreendida por uma lição inusitada. Ao descer a escada rolante à minha frente, um rapaz apontou para o tênis de uma senhora. Ela respondeu com um gesto de resignação. Ele, em uma agilidade imposta pela urgência do momento, se ajoelhou sobre o degrau, lhe amarrou o cadarço do tênis e desapareceu em meio a um mar de gente estranha. Em minha mente, outra vez as imagens se sobrepondo: a multidão de poloneses ajoelhados no asfalto, em prece de solidariedade ao país vizinho. 

Por alguns instantes, soltei o pensamento para o infinito e o olhar para o coração humano. E vi corações com asas, batizados de humanidade. Vi anjos espalhando a beleza de ser solidário. Vi redes de relacionamento apressadas em apoiar necessitados. Vi conexões internacionais negociando a paz. 

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Então, bebi em prece a alegria de constatar que, apesar de vivermos tempos difíceis, apesar da frieza da tecnologia, as lições de solidariedade prevalecem. Seja na floresta, seja nas selvas de concreto, no toque pessoal ou no gesto virtual, no micro ou no macro, é o ser humano quem faz a diferença, com seu senso ético, espírito de compressão e altruísmo. Estamos em um ponto da evolução humana em que a solidariedade é vital para a sobrevivência de nossa espécie. Isso significa entender que todos somos coabitantes deste planeta. Estando juntos é que vencemos os desafios, suportamos as diversidades e vencemos os medos.

Carmem Maria Pulga é filósofa, teóloga, mestra em Novas Tecnologias da Comunicação e autora dos livros A pétala e O divino livro proibido, ambos publicados pela Paulinas Editora. Gosta de arte, desde a culinária até a sucata, e ama ler os autores mais ecléticos.

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