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Cidadania em tempos de pandemia - Revista Familia Cristã

Cidadania em tempos de pandemia

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A vida contida a que todos foram submetidos nos últimos tempos despertou a reflexão sobre a consciência individual e coletiva, a desigualdade social e a incapacidade do Estado em cumprir seu papel

Por Juliana Borga

O filósofo Léo Peruzzo afirma que a pandemia nos mostrou que nós dependemos de uma relação de alteridade com os outros. Imagem: Arquivo Pessoal

Há mais de um ano experimentamos uma vida de privações. Deixamos de abraçar quem amamos, de cumprimentar dando as mãos. Passamos a usar máscara para proteger não apenas a nós próprios, como também aqueles que nos rodeiam. A pandemia mostrou que minhas atitudes e escolhas afetam a vida do meu vizinho, parente ou colega de trabalho. Ela chamou a atenção para o conceito de viver em sociedade e criou novos parâmetros de comportamento individuais e coletivos.

Não vivemos isoladamente. A forma de organização social humana é coletiva. E a pandemia mostrou que a consciência individual e a coletiva são indissociáveis. Por outro lado, ela escancarou a questão da desigualdade. Mostrou que pode mais quem tem mais independência econômica e evidenciou como é dura a rotina dos milhares de brasileiros que vivem na marginalidade.

“A pandemia acaba mostrando que nós dependemos de uma relação de alteridade com os outros. Ela revela o quanto uma sociedade é capaz de pensar nesse problema, que nada mais é do que o nosso reconhecimento no rosto dos outros. Quando reconhecemos nos outros aquilo que nos complementa, acabamos enxergando nossa condição humana”, explica o doutor em Filosofia e professor da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), Léo Peruzzo.

Abismo cultural

A desigualdade não se restringe apenas ao âmbito econômico, ela também é brutal no que diz respeito ao acesso à educação e à cultura. Como podemos falar em conceito de cidadania se a ausência de condições culturais não permite que as pessoas tenham consciência do seu papel político e do lugar que ocupam na sociedade?

Para o professor de Ciência Política da PUCSP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e da FGV EAESP (Fundação Getúlio Vargas e Escola de Administração de Empresas de São Paulo), Francisco Fonseca, a universalidade do conceito de cidadania deve ser questionada. “Em sociedades tão desiguais como a que temos no Brasil, o conceito de cidadania nunca é universal. É um conceito que está se corroendo, de um lado, por conta da ação dos grupos negacionistas e, de outro, porque os poderes e as instituições no país estão falhando em cumprir com a Constituição. Ela diz que a cidadania é um código de direitos iguais para todos, mas isso efetivamente não tem ocorrido por aqui. Seja por razões estruturais de desigualdade histórica, seja porque, quem realmente está morrendo, são os pobres e não as elites”, defende o professor.

A real Ciência

Já pensou na razão pela qual existe uma corrente que instiga a descrença na Ciência? Por que muitas pessoas insistem em demonizar o vírus, afirmando que ele é mau?

Para Léo Peruzzo, a ideia contemporânea de Ciência é uma utopia, pois acreditamos que ela trabalha com certezas absolutas, mas essa é uma concepção idealizada. “Acreditamos que podemos vencer a morte, o tempo e qualquer outro obstáculo. Aí a pandemia mostrou que a frustração das pessoas é resultado da falta de acesso cultural e da dificuldade da própria Ciência em lidar com respostas rápidas. As pessoas não deixam de ter razão, por um lado, porque, do ponto de vista comum, é uma frustração diante dos limites da incapacidade do conhecimento humano em vencer aquilo que a natureza coloca. Mas o vírus não é mau. O coronavírus ou um carcinoma maligno é simplesmente a natureza se manifestando; é que o termo moral pesa”, explica o filósofo.

Parte da sociedade

Dentro deste contexto, como fica, então, a função do Estado? Sob o viés paternalista, o Estado, como um pai, assume o controle e a decisão de questões que efetivamente não tem conseguido concretizar. Mais uma vez, a pandemia ajuda a escancarar os fatos. A incapacidade do Estado em lidar com a relação entre os bens públicos e privados revela o problema da falta de igualdade de oportunidades.

Enquanto os hospitais públicos estão lotados, os privados ainda possuem vagas. Quem estuda em escola particular conta com sistemas tecnológicos e assiste às aulas em casa, bem diferente dos alunos das escolas públicas. “É por isso que conceituar cidadania não é tarefa fácil. Trata-se de um debate politizado. Não dá para despolitizá-lo senão entramos no mundo do que eu gostaria que fosse. Devemos seguir o que Maquiavel dizia: ‘Para mudar a realidade temos que ser realistas’”, completa Francisco Fonseca.

Do ponto de vista da filosofia política, o Estado até poderia fornecer um sistema desigual, desde que essa desigualdade fosse revertida em oportunidade para aqueles que têm menos direitos. Mas, o que vemos acontecer na prática passa bem longe disso.

Crescer como cidadãos

Gustavo Fring/Pexels.com

A pandemia pode e deve ser vista como oportunidade de crescimento. Lidar com tantas notícias de mortes, repensar nosso relacionamento familiar e refletir sobre o último adeus são situações que revelam o sentido existencial de cada um no mundo. Traz a consciência da finitude. “A forma como lidamos com a limitação do nosso tempo continua sendo horizonte sobre a maneira como caminhamos. A pandemia mostra que a gente precisa vencer a qualquer custo o coronavírus como se isso fosse vencer a morte, através da descoberta de um mecanismo de postergação infinita da vida. É justamente aí que nos enganamos, porque esse vírus não tira a possibilidade de termos um tempo de existência limitado”, finaliza Léo Peruzzo.

A cidadania, no que diz respeito à expressão das emoções, precisa ser cultivada como um elemento da nossa vida. Quem experimentou a ausência do último adeus entende como ninguém o que estamos propondo aqui. Cultive seus valores, a proximidade com quem você gosta e expresse sinceramente aquilo que o outro representa em sua vida. Os últimos tempos mostraram que é possível manter contato, mesmo que, por enquanto, ainda seja à distância.

Juliana Borga é jornalista, três vezes vencedora do Prêmio Dom Hélder Câmara de Imprensa. É mãe coruja da Helena e adora escrever sobre temas que colaboram para um mundo mais humano e solidário. Instagram:@juborgajornalista

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