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O cérebro pandêmico, a educação e a mudança de via

O cérebro pandêmico, a educação e a mudança de via

Cérebro pandêmico
Pixabay.com

O que podemos aprender com a pandemia para iniciar novos processos e aprendizagens?

Por Amaro França

É perceptível quantas questões eclodiram em nossas vidas diante do quadro pandêmico. Muitas delas já tão histórico-socialmente presentes, mas que parecem ter sido descortinadas, revelando-nos a crueza de uma fotografia que, talvez, insistíssemos em não ver.

Dentre as inúmeras questões que afetaram a educação, uma das mais gritantes foi o número de alunos que ficaram sem acesso ao estudo emergencial remoto, por falta de wifi. Ainda não temos como mensurar as consequências desse hiato e o seu impacto na vida das crianças e dos jovens – quanto ao desenvolvimento das aprendizagens educacionais.

Constata-se, no entanto, que, depois de tanto tempo afastados do ambiente escolar, uma série de (re)aprendizagens estão sendo necessárias, pois essas são fundamentais, inclusive, para o bem-estar emocional dos alunos e, consequentemente, para a aquisição de outras aprendizagens cognitivas mais elaboradas.

O efeito da pandemia no cérebro

Recentemente, pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, têm sistematizado resultados dos trabalhos e das pesquisas acerca dos efeitos em nosso cérebro – devido ao longo tempo de isolamento social e da ansiedade gerada durante o período de pandemia. Numa entrevista concedida a uma rede de TV, a pesquisadora e neuropsicóloga Barbara Sahakian afirmou que: “Por meio de exames de imagem de pessoas socialmente isoladas, detectamos mudanças no volume das regiões temporal, frontal, occipital e subcortical, assim como no hipocampo e na amígdala”. São efeitos que atingem nosso dia a dia, como esquecimento de coisas rotineiras ou uma espécie de “névoa cerebral” diante de decisões que se costuma tomar com facilidade. Esses efeitos atingem a nossa capacidade de memória ou de concentração – tão essenciais aos desenvolvimentos de aprendizagens.

Segundo a própria pesquisadora e, também, o neurocientista Michael Yassa, do Centro de Neurobiologia da Aprendizagem e Memória da Califórnia, esses fenômenos foram identificados quando pessoas eram expostas a níveis de estresse elevados: “Já no passado, níveis elevados e prolongados de cortisol foram associados a transtornos de humor e encolhimento do hipocampo. Isso é observado especialmente em pacientes com depressão… O hipocampo é a área do cérebro responsável por implementar essa memória, justamente uma das áreas mais afetadas pelos efeitos da pandemia”.

O fenômeno “cérebro pandêmico”

A esse conjunto de problemas que vêm atingindo principalmente a saúde mental das pessoas, os pesquisadores têm cognominado de “cérebro pandêmico”. Os cientistas afirmam ainda que o fenômeno “cérebro pandêmico” varia de pessoa para pessoa, considerando principalmente o elemento da resiliência individual e o nível de estresse ao qual cada pessoa foi submetida.

Dessa forma, as respostas individuais diante do fenômeno vão apontar para os prováveis níveis de recuperação. Por isso, se faz necessário que nos diversos ambientes, como em casa ou na escola, as pessoas/os alunos sejam estimulados à elaboração de rotinas, como, por exemplo: levantar e arrumar a cama, se alimentar, fazer exercícios físico e estudar, sempre considerando os mesmos horários. É importante também adotar, de forma individual ou coletiva na escola, técnicas que visem estimular as funções cognitivas, como jogos de memória, jogos colaborativos e aprendizagens de coisas novas. Essas recomendações apontam para uma chance melhor de recuperação do cérebro.

Campanha da Fraternidade sobre o tema Educação

Em meio às construções de respostas a tantas consequências dos impactos da pandemia na educação, é fundamental uma educação que promova uma construção de conhecimento com significado. Os processos neurais e suas sinapses acontecem de forma mais rápida quando há interação com o objeto do conhecimento, lembrando que esses não estão apenas ligados ao campo conceitual cognitivo, pois aprendizagens significativas sob a óptica da dimensão colaborativa de interação com os outros estimulam o desenvolvimento de várias habilidades e competências pessoais, além de contribuir de forma efetiva para o bem e o desenvolvimento social.

Campanha da Fraternidade 2022
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Nesse sentido, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou o Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2022, que tem como tema: Fraternidade e Educação. Dessa forma, nos aponta que: “A educação será ineficaz e os seus esforços estéreis se não se preocupar também por difundir o modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza […]. Tal empreendimento exige repensar a ação educativa formal e informal e quais escolhas estão sendo feitas, qual modelo de sociedade e de pessoa estamos formando, pois educar é servir, e o verdadeiro serviço da educação é a educação a serviço”.

Faz-se necessário nos questionarmos, enquanto pessoas, mas principalmente enquanto pais e educadores, o que podemos aprender com a pandemia para iniciarmos novos processos e novas aprendizagens, vislumbrando uma nova realidade educacional. Certamente, estão presentes descobertas em torno da nossa vulnerabilidade humana (como a consequência do “cérebro pandêmico”) e tantas outras… Mas, também, descobriremos a nossa força de cooperação, o sentido de que estamos interligados, somos interdependentes e complementares. No dizer do filósofo e sociólogo Edgar Morin: “A consciência de pertencer à comunidade humana […] requer que cada sistema de ensino dê a seus cidadãos a consciência de pertencerem à humanidade. O futuro imprevisível está em gestação. Tomara que seja para a regeneração […], para a preservação do planeta e para a humanização da sociedade: é hora de mudarmos de via”.

Amaro França é escritor, palestrante e gestor educacional, autor do livro Gestão Humanizada: liderança e resultados organizacionais, da Ed. Ramalhete e Educação em pauta, da Editora Paulinas. Apaixonado pela educação, gosta de escrever, tendo como propósito impactar positivamente as pessoas com suas ideias, liderança e trabalho.

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