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A cultura nordestina traduzida em tinta e rima - Revista Familia Cristã

A cultura nordestina traduzida em tinta e rima

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A literatura de cordel é Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro e tem a cara do nosso Nordeste

Por Luciana Falcão

Das muitas tradições do Nordeste, o folheto de cordel é uma das mais conhecidas. Na capa, uma ilustração impressa de modo peculiar, como um carimbo. E as histórias ganham o mundo com seu jeito engraçado e criativo, de beleza leve e artesanal, num caminho para divulgar valores, desejos, opiniões e crenças.

A literatura de cordel tem a cara do Nordeste do Brasil. Foi trazida pelos imigrantes portugueses e, a partir do século XIX, ganhou roupagem nova, com a sabedoria popular e a criatividade do Nordeste, até que, em setembro de 2018, recebeu o registro de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.

Para conhecer um pouco desse gênero literário e da técnica de pintura que ilustra a capa dos livretos de cordel, a Família Cristã foi ao município de Bezerros, em Pernambuco, que fica a 100 quilômetros da capital Recife. O destino foi o Museu da Xilogravura (sim, esse é o nome da técnica de pintura).

O Museu é, na verdade, o ateliê de um dos mais conceituados mestres da área: o artista popular J. Borges. Com 83 anos de idade, sendo mais de 50 deles dedicados à arte, o bezerrense foi batizado José Francisco Borges e já foi comparado a Pablo Picasso em reportagem do jornal The New York Times (2006). O artista já nem sabe quantas obras produziu até hoje, entre xilogravuras e versos de cordel.

Com 83 anos de idade, o artista popular J. Borges, tem mais de 50 anos dedicados à arte. Foto: Luciana Falcão

A técnica da xilogravura é, aparentemente, simples: baseia-se em desenhar e talhar a madeira, criando relevos e pintando a parte mais saliente para carimbar o desenho no papel. A palavra vem do grego xýlon, que é a celulose da madeira. Lembram-se da expressão “aparentemente” na primeira frase deste parágrafo? Pois é. O processo complica quando é preciso o dom da criatividade para escolher o tema, o talento para desenhar, a agilidade para talhar a madeira, a sensibilidade para escolher as cores (nem todas as peças são em preto e branco) e a habilidade de prensar no papel. No ateliê de J. Borges, uma equipe auxilia nos procedimentos finais – muitos são seus familiares.

De Bezerros para o mundo!

A inspiração vem do dia a dia do nordestino: pobreza, desamores, fatos, personagens. “O povo desta região tem muita fé, e isso rende boas histórias, do bem contra o mal, causos com o diabo, com padres”. 

As telas de J. Borges traduzem um Nordeste bonito de ver. Desde as frutas como caju e jaca, até a esperança insistente das famílias retirantes. De vez em quando, tem uma cobra e um pinguço; tem caçador matando onça; tem gente dançando ciranda; tem casamento na roça. 

“Achei tudo bonito, mas me encantei com as imagens de São Francisco”, disse a psicóloga Renata Bezerra, que estava de férias em Pernambuco. Renata mora em São Paulo, um dos estados que mais consomem a arte de J. Borges. O artista conta que, quase diariamente, vende telas e cordéis para paulistas. Com a divulgação do seu trabalho pelo Instagram (@memorialjborges), o envio para São Paulo, pelos correios, é semanal. “Para Recife a gente mesmo leva, mas junta os pedidos e faz a entrega somente uma vez por semana”, disse J. Borges.

Os trabalhos do artista estão, segundo ele, “nos cafundós do Judas”, expressão local para um lugar muito distante. “Tem obra minha nos cinco continentes!”, comemora. Na contramão do mundo, 2020 foi um ano excelente de produção e de vendas no ateliê.

A fé como inspiração para as histórias

Para citar alguns trabalhos ligados à religião, o ateliê tem à disposição quadros de santos e festas religiosas. Há também textos sobre os conselhos de Frei Damião, a história de São João da Cruz, cantos para os romeiros. Mas a cultura popular dá seu toque de humor e alguns títulos são uma atração à parte: “A mulher que botou o diabo na garrafa”, “O padre mesquinho e o homem da promessa”, “Discussão dum crente com o cachaceiro”, “A moça que virou jumenta porque falou de topless com Frei Damião”, “A segunda queixa de Satanás a Cristo sobre a corrupção no mundo”.

Valorizando a arte popular

Foto: Luciana Falcão

A Literatura de Cordel está presente na maioria dos estados do Nordeste brasileiro. Geralmente, é exposta em cordões e, por isso, recebeu esse nome. Os livretos estão em feiras municipais e lojas de artesanato, mas são poucas as livrarias que oferecem esse gênero literário. Uma desvalorização que precisa ser revertida. 

A frase dita pelo paraibano Ariano Suassuna, “não troco meu oxente pelo ok de ninguém”, representa bem o sentimento de artistas como Vital Farias, poeta popular, violeiro e autor da música “Ai que saudade docê”, eternizada na voz de Elba Ramalho. Para ele, o cordel é um gênero que precisa de mais divulgação. “Eu aprendi a ler e a escrever com literatura de cordel, minha irmã me ensinando; era o que a gente tinha”, disse Vital, que nasceu na mesma Taperoá em que Ariano passou a infância, na Paraíba. E por falar em Ariano, que tanto divulgou a cultura nordestina no teatro, nos livros, no cinema e na televisão, sua morte foi contada em versos por seu amigo J. Borges. Com o título “A chegada de Ariano no céu”, o cordelista traduziu seu apreço pelo escritor, que muito divulgou seu trabalho. 

Como Ariano Suassuna, o poeta Bráulio Bessa tem ganhado espaço na televisão e conquistado admiradores para a arte popular nordestina, com sua participação semanal em um programa de entretenimento. Bessa arranca lágrimas do público com o desenrolar de seus versos. E assim o cordel ganha o mundo, saindo dos cordões das feiras para blogs, TV, Instagram e onde mais haja quem goste de histórias.

Exemplos de cordel

Ninguém fale da pobreza / que se fala com razão / se Deus quisesse bem dava / a cada pobre um milhão / mas ficava embaraçado / o caminho da salvação. 
(ABC da Pobreza – José Bernardo da Silva)
Pois no dia do juízo / Deus fará o julgamento / os bons serão escolhidos / pro sagrado aposento / Os maus serão reservados / e no inferno jogados / nas chamas do sofrimento.
(Conselhos de Frei Damião em Favor da Humanidade – J. Borges)

Se cem vezes nascesse, em todas cem /pediria a Deus Pai o mesmo dote / um caminho que busca ser do bem / e a missão de tornar-se um sacerdote / Foi assim que Dom Helder atendeu / ao conselho que o pai cedo lhe deu / sobre amor, sacerdócio e altruísmo: / Quer ser padre, pois bem, meu filho, seja / mas só viva pra Deus, o outro e a igreja / porque padre não casa com egoísmo.
(Antônio Marinho para evento da Arquidiocese de Olinda e Recife)

Foi ele um grande amigo / que na vida se dedicou / a escrever e ensinar / tudo o que ele estudou / Hoje tão longe da gente / só a saudade ficou.  (A chegada de Ariano no céu – J. Borges)

“Berço da mulher rendeira / E de Maria Bonita / A Raquel trouxe na escrita / Maria Moura Guerreira / A força da brasileira / A que enfrentou cada ardil! / Mostrando bem seu perfil / De forte mulher do agreste: não fora nosso Nordeste, seria pobre o Brasil. 
(Dalinha Catunda)

Luciana Falcão é jornalista e publicitária. Ex-aluna das irmãs salesianas (FMA), por muitos anos fez produção de TV. Foi assessora de imprensa da Agência Ambiental do Estado de Pernambuco (CPRH) e hoje trabalha na Pastoral da Comunicação da Arquidiocese de Olinda e Recife.

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