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2021: um novo tempo para sonhar e construir - Revista Familia Cristã

2021: um novo tempo para sonhar e construir

Pixabay.com

Eis que farei uma coisa nova que já vem despontando…

Por Mariana Aparecida Venâncio

“Assim diz o Senhor, aquele que abre um caminho pelo mar […]: Não fiqueis a lembrar coisas passadas, não vos preocupeis com acontecimentos antigos. Eis que farei uma coisa nova, ela já vem despontando: não a percebeis? […] O povo que formei para mim proclamará o meu louvor” (cf. Is 43,16s).

Esse trecho do profeta Isaías traduz muito bem a confiança que depositamos no início de cada ano. Janeiro é o mês em que fazemos novos planos, estabelecemos metas particulares, fazemos propósitos. Esperamos deste novo ano uma nova vida, uma nova chance, desejamos escrever uma nova história.

Não há como negar que 2020 foi um ano difícil para todos nós: ano em que nos deparamos com a morte e com a impotência. Ano em que fomos sacudidos por uma pandemia e precisamos aprender, à força, que não somos senhores e senhoras das nossas vidas, que não decidimos a hora das coisas, que não sujeitamos o mundo à nossa vontade, que não submetemos às nossas preferências a ordem que há no Universo. Em 2020, entendemos que não somos deuses.

À sombra de acontecimentos passados…

Sempre que vejo dessa perspectiva o ano de 2020 e esta pandemia – que ainda não acabou e ainda desvelará muitos e novos desafios –, penso que estou diante de uma atualização possível das Sagradas Escrituras. No Antigo Testamento, foi frequente a luta dos escritores bíblicos para despertar a consciência de seu próprio povo para o fato de que nós não somos Deus e não podemos desejar o seu lugar.

 A narrativa mítica da torre de Babel (cf. Gn 11) versa sobre isso: a arrogância humana de querer alcançar o lugar de Deus e fazer um nome para si causa confusão, desentendimento, afastamento.

Adiante, na literatura bíblica, os profetas farão a mesma denúncia: quem somos nós para nos considerar a nação eleita do Senhor e tomar a Lei a nosso bel-prazer, cumprindo-a quando queremos, rejeitando algumas de suas partes sem a menor razão, oferecendo sacrifícios e sacrificando a vida de quem sofre em nossas cidades? A arrogância humana sempre foi denunciada pela literatura bíblica como o caminho para o fracasso.

Não pretendo sugerir que a pandemia que enfrentamos seja um castigo imposto pelo Senhor diante de nossa arrogância e individualismo – embora esses últimos sejam bem reais.

Mas talvez sejam, sim, a arrogância e o individualismo do nosso tempo que permitiram que um vírus ganhasse tanta força, se disseminasse tanto e matasse tanta gente. Muitos de nós não colocamos a vida das outras pessoas acima do nosso desejo de sair, reunir os amigos, festejar e aglomerar. Porque muitos, saudáveis e com acesso à saúde de qualidade, não se preocuparam em poupar a vida de quem não tinha assim tantas condições. Apenas revestimos de pós-modernidade o declínio que levou Israel ao Exílio: a incapacidade de viver como irmãos.

O povo, no séc. VI a.C., aproveitou o exílio para fazer uma revisão de vida, encontrar seus erros, admitir sua infidelidade à Aliança e, assim, desejar um novo tempo. Um novo tempo em que se comprometeriam com a vivência real da Lei do Senhor, com a conversão, com a mudança de vida e com uma religiosidade que brotava do coração, não das vestes ou dos gestos exteriores.

Muitos de nós revisitamos nossos passos ao longo dessa experiência de pandemia: faxinamos nossas casas e corações durante o isolamento social, jogamos fora velhos hábitos, terríveis sentimentos, deixamos de dar valor a algumas práticas e ressignificamos detalhes cotidianos.

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O povo que formei para mim proclamará o meu louvor

Acontece que o Senhor – que é infinito em bondade e misericórdia – nos dá sempre uma chance de recomeçar, uma chance de olhar com esperança para um futuro. Aliás, antes de tudo, ele nos dá um futuro. Fazemos novos planos porque não temos razão para perder as esperanças, porque sabemos que o Senhor, apesar de nossas faltas, nos reúne novamente como povo escolhido – não para a glória ou para a recompensa, mas para a consolação.

A segunda parte do livro de Isaías (cc. 40–55) é também conhecida como Livro da Consolação de Israel, exatamente porque começa com a ordem: “Consolai, consolai meu povo” (cf. Is 40,1). A chegada de janeiro é nosso consolo em meio a tantas ameaças.

E, assim, proclamamos o louvor do Senhor nesse novo ano que se inicia: quando, apesar de tudo, podemos estampar um sorriso sob as máscaras que cobrem nossos lábios e esperar dias melhores, acreditar em dias melhores e construir dias melhores quando e sempre que nos é possível.

Eis a maior prova de que somos gratos a Deus: quando, ao seu lado, vamos dando continuidade à obra da criação, sonhando novos sonhos, gerando novos sentimentos, fazendo novas escolhas, dignificando novas pessoas e construindo novas situações mais ajustadas ao projeto do Reino de Deus – que vai, enfim, se tornando presente já aqui e agora.

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa da Bíblia como Literatura, é autora de roteiros homiléticos para a CNBB e oferece cursos bíblicos em paróquias. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar. 

Contato: marianaavenancio@gmail.com

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