Os 5 pilares da vida espiritual

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Cultivar intimidade consigo mesmo e com Deus não é uma tarefa fácil, especialmente em tempos de tanta conectividade, incerteza e crise de sentido

Por Francisco Galvão

Embora não exista receita pronta para a vida espiritual – pois cada pessoa tem a sua história e o seu próprio tempo –, é possível falar de 5 atitudes que são fundamentais em nossa busca interior.

1. Disciplina

A vida espiritual é dom de Deus e não sobrevive sem disciplina diária. Aliás, toda grande conquista na vida exige esforço e disciplina. No caminho espiritual não é diferente. A intimidade com Deus carece de ritualidade, tempo e renúncia, pois, como dizia Thomas Merton, “quando a regularidade é sinal de amor e liberdade espiritual, ela favorece a contemplação”.

Geralmente, encontramos tempo para tudo – para o trabalho, os amigos, a família, para as redes sociais –, menos para cultivar e cuidar de nosso interior. Quando se trata de tempo para si mesmo – seja para ler um bom livro, seja para meditar –, sempre surgem desculpas e razões para abdicar do “tempo do espírito”.

Quanto mais distantes de nós mesmos, isto é, de nossa verdadeira essência, mais cegos nos tornamos em relação àquilo que é essencial em nossa vida e, como afirmava Henri Nouwen, “sem um objetivo definido, estaremos sempre distraídos e gastaremos as nossas energias em coisas secundárias”.

2. Escuta

Em meio a tanto barulho e infinitas conexões, o silêncio tornou-se um bem raríssimo, cada dia mais escasso. Fala-se excessivamente, dentro e fora das redes. Todos têm ânsia de contar suas aventuras, mas, no fundo, ninguém se ouve. A humanidade está ficando surda para as coisas do alto, porque aprendeu a ignorar as coisas de dentro. Quando nos acostumamos demais àquilo que é raso em nós, tudo o que é profundo nos assusta.

Como lidamos com as muitas vozes externas? Um vídeo daqui, uma mensagem dali, um conselho, uma crítica… Pouco a pouco, vamos esquecendo o poder de nossa voz interior. Divagamos entre um caminho e outro sem saber onde está o nosso verdadeiro tesouro. Quanto mais nos afastamos de nossa interioridade, mais nos tornamos reféns das críticas ou dos elogios.

A escuta é um dom e fruto da vida de oração. Escutar a si mesmo é o ponto de partida para escutar a Deus e ao próximo. Para o Papa Francisco, “escutar nunca é fácil. Às vezes é mais cômodo fingir-se de surdo. Escutar significa prestar atenção, ter desejo de compreender, dar valor, respeitar, guardar a palavra alheia. Saber escutar é uma graça imensa, é um dom que é preciso implorar e depois exercitar-se a praticá-lo”.

“Como folha ao vento, abandonar-se à voz do Espírito Santo” / Imagem: Marija Zaric – Unsplash

3. Compaixão

Assumir a nossa própria humanidade diante de Deus e abrir mão de toda autossuficiência é um sinal de autêntica vida de oração. Isso exige de nós autoconhecimento e, ao mesmo tempo, abandono à voz do Espírito. Quanto mais nos conhecemos, mais identificamos a nossa necessidade de um amor absoluto.

Um segredo para saber se estamos no caminho espiritual é a passagem do julgamento para a compaixão, da indiferença para a empatia. Esse deveria ser o movimento mais coerente e natural quando o assunto é oração.

Em tempo de tanto individualismo, é mais cômodo ignorar o caos cotidiano e fingir a dor do mundo, mas, como dizia Henri Nouwen, “sempre que você orar e deixar de fora seu semelhante, sua oração não será mais verdadeira”.

Portanto, quando a oração é sincera, nunca sobra espaço para a indiferença. Mesmo em nossa mais profunda solidão, o sofrimento do próximo deve tornar-se prece. Se isso não acontece é porque, certamente, já nos acostumamos à frieza de nossa própria fé e, como sinalizava Merton, “sem amor e compaixão pelos outros, o nosso aparente amor por Cristo é uma ficção”.

4. Desapego

Ao longo da vida, acumulamos coisas, sentimentos, afetos e lembranças, mas chega certa altura do caminho em que é preciso ser honesto consigo mesmo e, no mais profundo silêncio, perguntar-se: “Será que tudo isso ainda faz sentido para mim? Eu preciso mesmo carregar esse fardo?”. Só uma profunda intimidade com Deus pode nos ajudar a abandonar o que é supérfluo e “escolher a melhor parte”.

Quando não sabemos o que nos traz contentamento interior, qualquer experiência nos dá a falsa sensação de completude. Todavia, quando aprendemos a escutar a nossa voz interior – no silêncio e na oração –, não nos deixamos enganar pelas emoções, apegos e sentimentalismos. Só o essencial basta para saciar a nossa sede de infinito.

Na visão de Merton, “quem busca liberdade espiritual nunca poderá se entregar passivamente a todos os atrativos de uma sociedade de vendedores, propagandistas e consumidores”. Quando alcançamos essa graça – de carregar na mochila só o essencial –, a caminhada se torna mais leve e plena de sentido.

5. Gratidão

A ingratidão fere o coração e acorrenta a caridade. Ninguém gosta de compartilhar o banquete da vida com alguém que não sabe agradecer, pois a gratidão é um estado de contentamento, um estilo de vida em que não há espaço para lamentações. Só quem experimenta a gratidão em sua vida conhece o poder da liberdade interior. Segundo Anselm Grün, “a pessoa que vive a gratidão reconhece, a cada momento, as dádivas que Deus lhe oferece”.

Uma pessoa que não sabe agradecer também não sabe rezar. Sua oração é superficial e carente de reconhecimento e, por isso, sua prece não cria laços com a eternidade. Por outro lado, uma pessoa que, mesmo diante da dificuldade, sabe olhar para o alto e reconhecer a presença de Deus nas pequenas coisas é alguém que despertou para a vida espiritual e se sente em paz em sua própria casa interior.

Francisco Galvão é religioso paulino, natural de Viçosa do Ceará. Tem interesse por temas como resiliência, espiritualidade, juventude e mídias sociais. Nas horas vagas, além de escrever e meditar, é aspirante a videomaker. É graduado em Teologia e mestre em Comunicação Social. Autor dos livros O cultivo espiritual em tempos de conectividade e Minuto de resiliência para viver com sentido, pela editora Paulus.

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