Onde está Deus no sofrimento humano?

Artigos Recentes

Crônicas interativas

Juntos, apresentaremos aos outros leitores uma nova obra de arte: crônicas interativas sobre fatos do cotidiano...

A luta para adaptar o trabalho em tempos de pandemia

O impacto da pandemia na taxa de desemprego foi de um aumento de 27,6%, obrigando adaptações com as tecnologias digitais...

Por Maria Goretti de Oliveira

Questão relevante enquanto habitantes de um tempo em que, para muitos, o sofrimento está sempre presente

Quando nos deparamos com tantos acontecimentos que levam a uma intensificação do sofrimento, surgem as perguntas: por que sofrer? Há um sentido para o sofrimento? Qual é a relação entre um Deus que é bondade e compaixão e o sofrimento humano? Como podemos crer em Deus quando há sofrimentos tão grandes no mundo? Por que Deus não criou um mundo sem dor? Por que Deus não impede o sofrimento? Será que Deus também sofre ou somente assiste ao nosso sofrimento?

Essas perguntas representam algumas das angústias mais universais e mais antigas da humanidade, pois não é fácil perceber o agir salvífico de Deus em nossa história humana, muitas vezes repleta de sofrimentos causados pela fome, guerra, doenças, exploração, desastres, violência, marginalização. Pode parecer contraditório conciliar o sofrimento humano com o mistério de um Deus amoroso.

O teólogo alemão Jürgen Moltmann trata desse tema especificamente na obra O Deus crucificado. A preocupação de Moltmann é superar a imagem divina transmitida pelos filósofos gregos que nos impede de ver Deus envolvido na história dos seres humanos, pois, segundo eles, Deus é impassível e não se deixa tocar pelo sofrimento.Para esses filósofos, a substância divina não pode padecer, pois, se padecesse, não seria divina.

Portanto, a afirmação da invulnerabilidade de Deus seria fruto do pensamento grego, em contraposição ao pensamento bíblico, que apresenta um Deus compassivo. Tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, Deus convive com suas criaturas. Escuta os clamores de um povo que sofre, é um Deus compassivo (cf. Ex 3,7-9).

Quando nos deparamos com a dor e o sofrimento, percebemos que somente um Deus que conhece o sofrimento pode entender quem sofre. A teologia de Moltmann se opõe a um Deus distante do mundo e das pessoas, indiferente ao sofrimento. Dentro dessa perspectiva, o teólogo propõe um novo olhar, argumentando que, se Deus fosse incapaz de sofrer, também o seria de amar. Deus sofre porque ama, nesse sentido, nosso sofrimento o afeta (cf. Moltmann. Quem é Jesus Cristo para nós hoje?,p. 47).

Deus caminha junto com a humanidade

Freepik.com

Deus não está à margem de nossas dores, angústias e lágrimas. Ele não somente nos ampara no sofrimento, mas participa dele. Deus sofre conosco, Deus sofre em nós, Deus sofre por nós: essa experiência de Deus revela o Deus unitrinitário (cf. Moltmann. Trindade e Reino de Deus, p. 20).  

O clamor de toda criatura que sofre é o clamor do próprio Deus. Da mesma forma que Deus se manifesta compassivo, ele nos chama a assumir uma atitude de compaixão e misericórdia, sendo presença no sofrimento daqueles que são por ele atingidos. A solidariedade que acontece mediante inúmeras pessoas que se colocam a serviço do mais necessitado manifesta a presença de Deus junto aos que sofrem.

Olhando ao nosso redor, constatamos que a distância entre ricos e pobres aumenta, sobretudo, nos países do terceiro mundo, nos quais poucas pessoas têm a chance de se desenvolver culturalmente. Há estimativas de que a metade da humanidade atual esteja vivendo em condições indignas. Tal realidade nos interpela, pois a todo instante, em todos os lugares do mundo, a dor adquire rostos concretos: adultos e crianças são encontrados imersos em diversas situações de sofrimento físico ou moral; e nos deparamos com o mistério da cruz.  

Deus entra na vida do ser humano para salvá-lo, libertando-o e possibilitando-lhe enfrentar o mal e o sofrimento. Com isso, buscamos demonstrar que em Deus não há impassividade, mas ele se deixa afetar pelo sofrimento dos seus filhos. É um amor que se esvazia, se despoja, respeita até o fim a nossa liberdade e não cessa de nos chamar à conversão. Somos convidados a experimentar Deus em nossa realidade, pois nossa participação no sofrimento do povo impede a apatia. Aproximemo-nos dos que sofrem, tendo a certeza de que Deus age mediante nossa liberdade e se manifesta através de nós. Essa posição obriga-nos a reformular a concepção de Deus, que passa a ser pensada não somente em termos de um Deus que intervém em casos particulares, mas um Deus solidário que está sempre presente em nossa vida, sendo uma presença contínua, apoiando-nos na luta contra a dor e na derrota. Um Deus que não abandona jamais os seus filhos, mas age continuamente na história.

Maria Goretti de Oliveira é irmã paulina, mestra em Teologia e licenciada em Letras. Ama o Sertão onde nasceu e carrega sempre na memória as lembranças mais felizes da sua infância.

2 COMENTÁRIOS

Deixe seu comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

error: Ação desabilitada