Respirar um futuro melhor

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“Não posso respirar, não posso mais nadar. A terra tá morrendo, não dá mais pra plantar”

Por Carmen Maria Pulga

Refrões como esse, do sertanejo Luiz Gonzaga, em seu xote ecológico, e a expressão “Pensar globalmente e agir localmente”, do sociólogo alemão Ulrich Beck, vestem como luva neste histórico ano 2020.

“Não posso respirar” traz à nossa memória tanto o lamento da Terra como o grito do cidadão negro George Floyd, asfixiado em maio deste ano. “Não posso respirar” foi o apelo mudo, sufocado nos leitos de hospitais, de milhares de pacientes submetidos à respiração mecânica ou à intubação por causa da Covid-19. “Não posso respirar!” É um grito dramático, é o grito da vida. Abala global e localmente qualquer consciência social, ecológica, econômica e cultural.

Na realidade, sentimo-nos estreitamente ligados ao todo da orquestra sem entender o sopro peculiar de cada ser. Não somos ilhas isoladas, mas fios de conexão, comprometidos com o processo da existência. Somos irmanados com a natureza como o sangue de uma família, diz Ted Perry em A carta do Cacique Seattle. “Tudo o que acontece com a Terra, acontece com os filhos e filhas da Terra. O homem não tece a teia da vida; ele é apenas um fio. Tudo o que faz à teia, ele faz a si mesmo.”

A pandemia do novo coronavírus deu à natureza a possibilidade de respirar e se exibir como há tempos não se via. O distanciamento social, a desaceleração das atividades comerciais e industriais, a diminuição do trânsito e os cuidados saudáveis com os dejetos deram novo fôlego à criação e à saúde humana.

Belle Co – Pexels

Mas se, por um lado, houve um momento de descanso, de respiro para a natureza, por outro, o futuro, após esta crise, requer da consciência humana um esforço coletivo e individual. Pensar globalmente e agir localmente, ou o inverso, pensar localmente,decidir globalmente,é uma palavra de ordem, um mandamento, se queremos respirar um futuro melhor. O local e o global não se excluem mutuamente. Pelo contrário, o universal é fruto do particular e vice-versa. Cada um precisa fazer a sua parte, para que a vida respire mais saúde em nossa Casa Comum.

 A nova realidade mundial requer, a curto e longo prazo, partilha solidária e responsável entre os espaços públicos e os espaços privados, com o objetivo de garantir um futuro com sustentabilidade.

Em sintonia com o pensamento de Ulrich Beck, estudiosos afirmam que “somente sob esta pressão por mudanças eficazes em nível de política interior da consciência civil se poderia mudar também, rapidamente, a autocompreensão de atores capazes de atuar globalmente no sentido de que se compreendam cada vez mais como membros de uma comunidade, cuja única alternativa é a colaboração solidária e a superação recíproca dos interesses próprios”.

No pensar globalmente e agir localmente está relacionado, de forma intrínseca, o grande impacto que podemos gerar na vida do próximo por intermédio de nossas ações. Para agir com responsabilidade, precisamos perceber a repercussão de nossos atos no todo. Pensar nas ações globais, mas também agir nos pequenos atos individuais. Compreender e atuar no presente, planejar com esperança o futuro. Já previa o autor da Divina Comédia: “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. Portanto, vamos fazer a nossa parte?

Carmen Maria Pulga é filósofa, teóloga, mestra em Novas Tecnologias da Comunicação e autora do livro A pétala, da Paulinas Editora. Gosta de arte, desde a culinária até a sucata, e ama ler os autores mais ecléticos.

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