Línguas indígenas

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Enquanto estiverem vivas, as línguas indígenas podem nos dar conhecimentos que não temos

Por Felício Pontes Jr.

O ano era 2014. O governo federal de então queria convencer o povo indígena Munduruku (PA/MT) a aceitar a construção da Usina Hidrelétrica (UHE) São Luís do Tapajós, mesmo com sérios impactos, como a inundação de parte do território. A reunião se passou em Brasília.

Depois de quase uma hora de explicação dos representantes do governo, com menções a quilômetros quadrados, metros cúbicos, vazões, superfície, chegou a vez de o povo indígena falar. A líder Alessandra Karop Munduruku foi a primeira. Ela disse que ninguém de seu povo havia entendido o que tinha sido exposto. E a razão estava em uma parte muito específica da língua munduruku que trata de números. É que esse povo possui um sistema aritmético rico e complexo, muito diferente do adotado pela sociedade dominante. Explica-se.

Em razão do uso limitado de tecnologias, os povos indígenas desenvolveram sofisticadas estruturas matemáticas para falar de distância, superfície e área, por exemplo. O sistema aritmético munduruku possui como números exatos apenas o “um” e o “dois”, e não existem em sua língua palavras que representem números acima de “cinco”. Todo o sistema é criado a partir de dados aproximados, e não de números exatos. Com isso, conseguem fazer cálculos que em nossa sociedade são realizados por matemáticos apenas.

O exemplo munduruku não é o único. Todas as sociedades indígenas desenvolveram sistemas de medição. E só podemos conhecer esse mundo tão distante através das línguas indígenas. Enquanto estiverem vivas, podem nos dar conhecimentos que não temos.

No Brasil de hoje, fala-se mais de 160 línguas e dialetos. Parece muito, mas estima-se que em 1500 eram mais de mil línguas. Uma delas foi perdida para a Covid-19. Aruká, o último homem do povo indígena Juma, morreu no ano passado em Rondônia.

Língua Indígena
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Quando uma língua desaparece, leva o conhecimento associado a plantas e animais também. Uma pesquisa da Universidade de Zurique, na Suíça, mostrou que 75% dos usos de plantas medicinais no mundo são conhecidos em apenas um idioma – a partir de uma pesquisa com 236 línguas indígenas na América do Norte, Nova Guiné e noroeste da Amazônia.

Década Internacional das Línguas Indígenas

O tema é tão sério para a humanidade que a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o período entre 2022 e 2032 como a Década Internacional das Línguas Indígenas. Seu objetivo é claro e desafiador: “Visa assegurar aos povos autóctones o direito de preservar, revitalizar e promover suas línguas, e integrar a diversidade linguística e os aspectos do multilinguismo nos esforços de desenvolvimento sustentável”.

Para que esse objetivo seja alcançado, o primeiro requisito é fazer com que os povos indígenas vivam em seus territórios sem qualquer tipo de ameaça ou invasão. No Brasil, o desafio é maior.

Nos últimos três anos, nenhuma terra indígena foi homologada – as demarcações deveriam ter sido concluídas no prazo de cinco anos, contados da promulgação da Constituição de 1988 (ADCT, art. 67). Na Amazônia Legal, são 93 Terras Indígenas sem processo de demarcação concluído.

Além de não demarcar, o governo federal editou atos com o objetivo de “revisar” demarcações em curso; não fornecer serviços públicos a comunidades cujas terras não estivessem homologadas; e, ainda, retirar a proteção territorial de terras indígenas não homologadas.

Todas essas medidas governamentais enfrentaram ações judiciais que impediram sua concretização, sobretudo no Supremo Tribunal Federal. Porém, não impediram o aumento do desmatamento (invasão) nesses territórios, ainda que em pleno período pandêmico.

Se é assim para os povos indígenas em contato com a sociedade dominante, o que dizer dos povos em isolamento voluntário? O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Querida Amazônia, alerta que eles “são os últimos depositários de um tesouro fadado a desaparecer (…) Temos que evitar considerá-los ‘selvagens não civilizados’; simplesmente criaram culturas diferentes e outras formas de civilização, que antigamente registraram um nível notável de desenvolvimento” (QA, n. 29).

Felício Pontes Jr. é procurador regional da República e sempre atuou na defesa de indígenas, quilombolas e populações tradicionais da Amazônia. É autor do livro Povos da floresta: cultura, resistência e esperança, publicado pela Paulinas Editora.

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