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Pesquisas comprovam que, a cada ano, o número de mulheres que passam a exercer funções antes dominadas apenas por homens tem grande aumento

Por Jossan Karsten

Arquivo Pessoal

Carmem Lúcia de Paula, 48 anos, é moradora de Guarapuava (PR), tem quatro filhos e é divorciada. As duas filhas mais velhas são maiores de idade e moram em outra cidade. Uma delas, conforme conta Lúcia, é casada, e a outra vive com o pai.

Separada do segundo marido, Lúcia exerce as funções de pai e mãe de dois adolescentes; a menina com onze anos, e o menino com quatorze. Ela trabalha no comércio de rua, vendendo doces artesanais no centro da cidade, atividade que lhe garante o sustento próprio e de seus dois filhos.

“Por ser divorciada, eu exerço as funções de mãe e pai, dos meus dois filhos. Eu venho de uma família de comerciantes. Meu pai, para se ter uma ideia, foi o primeiro pipoqueiro de Guarapuava. Foi ele quem trouxe o coquinho e o amendoim para nossa cidade. Quando eu comecei a trabalhar com meu pai, eu tinha oito anos de idade”, contou Lúcia.

Hiato

Depois do casamento, ela parou por um tempo com as atividades comerciais para dedicar-se à família. No entanto, depois da separação, ela retornou ao trabalho, mas exercia a atividade por certo tempo e, depois, interrompia o serviço por diversos motivos, uma vez que precisava cuidar da casa. “Eu parei com meu trabalho por diversas vezes, por vários motivos que me impediam de exercer o serviço. Quando meu filho, que hoje tem quatorze anos, tinha apenas três meses de vida, eu decidi que retornaria. Nesse meio-tempo, precisei parar de trabalhar por mais umas duas vezes, por problemas de saúde”, destacou.

A comerciante frisou que ama o que faz e que, através de seus produtos, procura levar alegria e amizade a todos à sua volta. “Eu amo a minha profissão. Por meio do meu trabalho, acabo conhecendo muitas pessoas, com as quais faço amizades para a vida toda. Através dos meus doces, eu procuro passar para todos um pouco do meu carinho, do meu amor e da paixão que eu tenho pelo meu trabalho”, sublinhou a comerciante.

Preconceito

Em relação ao preconceito, Lúcia disse que não só enfrentou essa situação, como também ainda convive com ela. “Eu não só enfrentei, como também, de vez em quando, ainda vivo essa experiência. Porque, para algumas pessoas, uma mulher separada do marido, divorciada, assim como eu, não é alguém que preste. Há quem diga que, quando uma mulher se separa, é porque ela está errada, o que eu considero uma grande mentira. Eu vivi essa situação. Como tive um histórico de dependência química, aí o preconceito só aumenta”, esclarece.

Ainda em relação ao preconceito, Lúcia conta que, por trabalhar há muitos anos no mesmo lugar, algumas pessoas que exercem atividades semelhantes à dela já tentaram fazer com que seu trabalho fosse interrompido. Essa atitude, conforme destaca, lhe causou muito transtorno, mas procurou seguir em frente, sem desanimar, pois tem a certeza de que está fazendo a coisa correta.

“Há quem não admita que eu esteja onde estou hoje, tanto em se tratando de local de trabalho, como em relação à minha vida, à minha saúde. Algumas vezes, pessoas como eu, pequenos empreendedores, ambulantes, não aceitam que eu esteja indo bem, trabalhando corretamente e por tantos anos. Por isso, eu já passei por muitos transtornos, como denúncia na prefeitura e vigilância sanitária. Por várias vezes, meu ponto comercial passou por vistorias, mas sempre estava tudo certo. Certa vez, fui denunciada duas vezes na mesma semana, mas nenhuma dessas denúncias se comprovou. E isso machuca muito e atrapalha os trabalhos”, recorda.

Por ser mulher, Lúcia considera que até mesmo alguns clientes tentam tirar proveito da situação, reclamando dos preços dos produtos. “O fato de uma mulher estar ali, trabalhando, à frente de um negócio, por pequeno que seja, incomoda algumas pessoas. Certos clientes, quando vêm comprar um doce, reclamam que está muito caro, mas, com jeito, eu acabo explicando para eles como as coisas funcionam e, por fim, muitos deles entendem a minha situação”, pontua.

Amor pelo trabalho

Arquivo Pessoal

Lúcia esclarece que sua vida está completamente ligada ao seu trabalho. De saúde frágil, ela ressalta que não pode exercer outras atividades, como ter um emprego formal, pois, em muitos momentos, precisa se ausentar para tratamento médico e para cuidar dos filhos.

Um dos sonhos da comerciante, segundo contou à reportagem, é ver sua atividade legalizada no município.

“Infelizmente, a prefeitura não fornece alvará de funcionamento para nós, ambulantes. Meu grande sonho era trabalhar de forma legalizada. Eu fico muito triste com isso, em não ter meu trabalho reconhecido pelo município. O prefeito atual conversou conosco e disse que, enquanto estivesse na prefeitura, era para nós, os ambulantes, ficarmos tranquilos. Mas no futuro, com uma nova administração, não sabemos como será. Eu tenho muito receio de que me tirem daqui no próximo ano e eu não tenha como trabalhar e fique desamparada”, lamenta Lúcia.

Pandemia

Por causa da pandemia, a comerciante precisou ausentar-se de seu ponto de trabalho, e isso, conforme explicou, impactou muito em seu orçamento. Além de ter os ganhos interrompidos, Lúcia conta que a saudade de se relacionar com as pessoas foi o que mais pesou quando precisou ficar em casa.

“Eu sofri muito tendo que ficar em casa por causa da Covid-19. Eu sentia muita falta do bom-dia das pessoas. Meus clientes são meus amigos. Além do dinheiro, o que vale, para mim, são as amizades, o amor das pessoas. Eu penso que o pouco, com Deus, é suficiente. Eu não quero muito. Eu só quero ter a dignidade e a liberdade de exercer o meu trabalho. Essa é minha meta e eu luto por ela”, ressalta.

Comportamento

Freepik.com

Lúcia, que retornou há pouco às suas atividades, conta que precisou adotar todas as medidas de higiene necessárias para não pôr em risco sua saúde, de seus filhos e de seus clientes. “As vendas caíram muito neste meu retorno. Como todo mundo, precisei adotar muitas medidas de segurança, como o uso de luvas e de máscaras. O álcool em gel eu sempre mantive à disposição de todos. Mas eu não me vejo trabalhando com outras atividades, pois amo o que eu faço. Mas acredito que tudo vai se resolver em breve, com a graça de Deus”, finalizou Lúcia.

Realidades

Tanto Regimara quanto Lúcia, cada uma a seu modo, enfrentando sua realidade, representam o momento por que passam as cidades, os estados e o País. Em se tratando das mulheres, as histórias quase sempre têm muitos pontos de convergência, principalmente quando se fala em dificuldades para se viver e cuidar da família com dignidade.

Neste ínterim, há muito espaço aberto às reflexões, buscando o entendimento sobre como a sociedade tratou as mulheres até o momento e sobre o que é possível fazer para melhorar essa situação nos próximos tempos, uma vez que a pandemia tem deixado muito claro que nada será como antes.

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Mulheres empreendedoras

Jossan Karsten é escritor, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados, além de roteiros para TV, cinema e teatro. Fomenta a paixão pela literatura, ciclismo e animais. Há cinco anos, atua como assessor de comunicação na diocese de Guarapuava (PR).

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