Ciúme: patologia preocupante que afeta grande parte da população mundial

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Por Jossan Karsten

O ciúme pode causar grandes problemas tanto para quem sente quanto para a vítima deste sentimento

Ao longo do tempo, as pessoas, em seus núcleos de convivência, vão aprendendo a lidar com diversas sensações e sentimentos. Isso faz parte do desenvolvimento da humanidade, com suas carências, necessidades e vontades que vão se assomando à medida que o tempo passa.

Silvio Luiz Ortiz é psicólogo há 18 anos e destaca que o ciúme não era um sentimento conhecido nas sociedades primitivas, uma vez que as pessoas primavam pela coletividade, como uma questão de sobrevivência. Em meio ao povo hebreu, na Antiguidade, cerca de 2000 a.C., segundo o psicólogo, há relatos de algo que, se comparado à atualidade, poderia ser entendido como uma espécie de ciúme, mas que se diz mais sobre o rancor, a raiva e a própria inveja, algo muito mais pejorativo do que se entende hoje por ciúme.

“O ciúme, por si só, ele já é uma situação controversa. Tanto é que muitas pessoas acabam compreendendo o ciúme como uma expressão de amor. No entanto, ele não é uma expressão de amor, ao contrário, tem características bem distintas. Por exemplo: no amor, o foco é o bem-estar do outro. Já o ciúme é voltado ao bem-estar próprio, ou seja, só interessa o que é bom para mim (ciumento). Quem sente ciúmes não se interessa pelo que o outro sente, pelo que o outro pensa”, sublinhou Silvio.

Estudos apontam que o ciúme surge muito cedo no ser humano. Esse sentimento é despertado, principalmente na infância, quando a criança começa a entender o individualismo e a perceber que certas situações lhe acarretam perdas. Nesse contexto, há também a falta ou o desvio da atenção dos pais ou dos responsáveis para com esta criança, que, em seu psicológico, entende que, se fizer uma cena de ciúmes, pode reverter a situação.

Ciúme normal, neurótico e paranoico: entenda as diferenças

A psicologia trabalha com três tipos de ciúmes: normal, neurótico e paranoico. O ciúme normal, conforme estudos psicológicos, é quando há uma razão clara, concreta e objetiva para que a pessoa sinta ciúme, como a mentira e a má-fé, por exemplo.

O neurótico, de acordo com os especialistas, tem a ver com aquelas pessoas que passam a se sentir regularmente tensas. Em muitos momentos, não há grandes manifestações desse ciúme, mas a insegurança está sempre presente, fazendo com que elas vejam e sintam problemas e medos que não existem.

Em relação ao ciúme paranoico, os mesmos estudos apontam que este se diz daquela pessoa que teve sua própria percepção afetada. Em casos assim, os estudiosos sublinham que as situações são totalmente “fabricadas” pelo cérebro da pessoa, que remete tudo em sua vida ao sentimento de perda, ao medo do abandono, ao terror de ser trocada por outra.

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Complexo de Édipo invertido?

O funcionário público aposentado Orlando Siqueira Santos, 56 anos, é casado há 33 anos e pai de três filhas: a mais velha com 32, a segunda com 30 e a caçula com 23 anos.

Orlando contou que, por ser pai de filhas mulheres, percebe que há ciúmes para com ele, vindo delas. No entanto, em se tratando da filha mais velha, ele pontua que houve e ainda há muitos problemas relacionados a esse sentimento, que julga demasiado, doentio. Segundo Orlando, não há explicação para a intensidade do ciúme sentido pela filha em relação a ele, uma vez que o tratamento dispensado a todas é igual.

“Minha filha mais velha sempre foi uma criança de personalidade muito forte. Ela nunca gostou de perder, nem em brincadeiras. Ela sempre coordenou, mandou nas brincadeiras. Ela, talvez por ser a primogênita, sempre foi muito apegada a mim. Entre ela e a nossa segunda filha há uma diferença de dois anos, um tempo relativamente curto se for analisar. Talvez por isso o ciúme tenha começado muito cedo, por sentir que ia perder o colo. Acredito que tenha sido um mecanismo de defesa esta aproximação intensa para comigo”, conta Orlando.

Em relação às meninas, um estudo realizado também por Freud, em 1931, “faz observações a respeito da longa duração pré-edipiana da menina com a mãe e da existência de uma fase de rivalidade com o pai. Ele aponta que, para o menino, a mãe, que fora seu primeiro objeto amoroso, continua o sendo e, com a intensificação de seus desejos eróticos por ela, o pai se torna um rival”. O texto faz parte de um estudo chamado “Complexo de Édipo Feminino”, realizado por Luiza Rubim e Carolina Apolinário de Souza e publicado no portal do Instituto Sephora de Ensino e Pesquisa Lacaniana (ISEPOL).

No caso de Orlando, a situação do ciúme da filha mais velha destoa completamente dos estudos de Freud e passa a ser encarada como um Complexo de Édipo Invertido e com longa duração; neste caso, por um período de 32 anos. Conforme explicou, houve períodos em que uma simples aproximação física do casal resultava em um verdadeiro terror na família, por causa das crises de ciúmes da filha mais velha.

“Hoje, eu diria que a situação melhorou um pouco, mas o ciúme continua. Mesmo que hoje, ela (filha) esteja casada, seja mãe de família, uma profissional dedicada, toque sua vida como tem que ser, a relação dela para comigo continua muito intensa, e o ciúme, da parte dela, é visível. Eu já disse a ela que minha relação com a mãe delas é para sempre, pois se trata de um casamento, e começamos esta vida (de casados) apenas nós dois e vamos acabar assim, sendo nós dois. Eu digo que é uma situação muito difícil, pois foge de qualquer entendimento”, finaliza Orlando.

Jossan Karsten é escritor, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados, além de roteiros para TV, cinema e teatro. Fomenta a paixão pela literatura, ciclismo e animais. Há cinco anos, atua como assessor de comunicação na diocese de Guarapuava (PR).

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