Terra Prometida: hospitalidade versus guerra

Livro de Josué
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Por Mariana Aparecida Venâncio

Continuamos nossas reflexões sobre o Livro de Josué, em preparação para o Mês da Bíblia deste ano de 2022. Na coluna anterior, conhecemos a liderança de Raab e o grande bem que ela prestou a todo o povo, representando o cuidado do próprio Deus que, em uma estrangeira, acolhe seu povo de volta à sua casa. Neste texto, continuamos a reflexão sobre a face cuidadosa do Senhor, que, por meio da Terra Prometida, oferece, ele mesmo, a hospitalidade.

A Terra Prometida: lugar e bênção 

Livro de Josué
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Para entender o grande dom que Israel recebe com a possibilidade de retornar à sua Terra, é preciso conhecer o Gênesis e sua relação com o lugar e com o sentido da terra. Inicialmente, há que pensar na relação que o homem estabelece com a terra já em Gn 2–3. O segundo relato da criação do mundo que o Gênesis apresenta é, provavelmente de tradição javista, uma das mais antigas narrativas que o povo contava e guardava na memória, como tradição passada dos pais para filhos. Nesse relato mais antigo da criação do mundo, o homem não é criado por último, mas primeiro. Há, aí, uma diferença substancial. Enquanto, no relato de Gn 1, o mundo é criado e o homem é criatura do último dia, colocado em um mundo previamente preparado para ele, em Gn 2, ele é criado antes das outras coisas, como que para auxiliar o Senhor Deus na criação e no cuidado do que será sua casa.

Mais tarde, diante da infidelidade à ordem de Deus e da desobediência, o homem será privado do paraíso – terra onde tudo lhe está à disposição. Mas, para não o deixar desamparado, com a despedida, o Senhor lhe dá, também, uma garantia de subsistência: do suor do trabalho sobre a terra, ele poderá tirar seu sustento. 

Por isso, quando o Senhor anuncia a Abraão a dádiva de uma Terra desconhecida, o dom é ainda mais expressivo do que podemos imaginar. Hoje, a terra tornou-se moeda de troca, objeto econômico, bem material que se especula, vende e gera riqueza. Em alguns casos, refere-se apenas a um espaço geográfico, quando não gera vínculos afetivos e identitários. Para Abraão, a Terra Prometida por Deus não era só uma riqueza, um bem material, como também a bênção maior que um homem podia receber. Enquanto a mulher carregava em seu ventre a possibilidade da maior bênção, que era gerar uma vida, o homem participava da mesma bênção com suas mãos e seu trabalho. O suor do rosto não era, também, só fadiga – mas era o meio pelo qual todo homem podia participar da ação criadora de Deus, que continuava a recriar o seu mundo no trabalho diário dos seus filhos.

A perda da Terra e os conflitos por sua posse, ontem e hoje 

A partida de Jacó e de seus filhos da Terra que Deus havia dado a Abraão é narrada no fim do Gênesis como algo inevitável. A Terra não mais provia o sustento do povo e era necessário partir dali para não sucumbir à fome. A sabedoria de Jacó é emblemática: ele sabe o momento de ficar, mas sabe também o momento de partir: até nisso a Bíblia nos ensina. Em outro momento histórico, o povo foi também forçado a partir – em meados do séc. VI a.C., por ocasião do Exílio na Babilônia. Forçados por um domínio estrangeiro, muitos homens em idade de trabalho precisaram abandonar a Terra Prometida e viver em terras estrangeiras. 

As ocasiões do retorno são diferentes. Na primeira partida, feita por Jacó e seus filhos, o retorno foi muito desejado: após a escravidão e o caminho do deserto, o povo ansiava pela Terra Prometida e fez do retorno seu ideal e propósito. No Exílio na Babilônia, no entanto, muitos homens haviam se estabelecido e tocado suas vidas e não desejavam mais retornar à terra de seus antepassados. O que une ambas as situações? A escrita literária. 

Livro de Josué
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É no tempo do Exílio que a narrativa da reconquista após o Êxodo é escrita. Tal acontecimento não é ocasional, mas serve às intenções proféticas do Exílio. Os sábios e os profetas do Exílio se lembravam da terra como dádiva divina e, mais ainda, se recordavam do grande dom que era a Terra Prometida. Eles não se conformavam que grande parte do povo aceitasse deixar a Terra Prometida sob domínio estrangeiro e não a desejasse de volta. As expressivas narrativas de reconquista da terra que aparecem em Josué, portanto, têm um fundo histórico e, mais ainda, uma intencionalidade muito clara: servem para animar um povo desesperançado e para lembrá-lo de sua herança preciosa. 

Hoje, o Ocidente assiste às grandes guerras que se desenvolvem na Palestina e, em grande parte, fecha os olhos ao sofrimento que ali se impõe. Pior que isso: contribui para sua manutenção, às vezes, inconscientemente. A necessidade de retorno que Josué outrora justificara não mais se aplica aos dias atuais. As guerras narradas em Josué não podem ser repetidas hoje, a morte e o sofrimento não podem ser suportados. O grupo radical que leva adiante a guerra e a financia baseia-se em uma leitura fundamentalista e unilateral do texto bíblico, que justifica a posse de Israel sobre o território, mas não se solidariza com a vida estrangeira, que poderia ser preservada. Não se pode esquecer que a grande mensagem do Livro de Josué está associada à hospitalidade que Deus oferece ao seu povo, recebendo-o de volta depois que ele experimentou a grande hostilidade do Egito. A fidelidade ao amor deste Deus precisa ser a coerência com sua própria ação, que se traduz, entre tantas práticas, na hospitalidade ao estrangeiro, não em sua execução. 

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa sobre a Bíblia como Literatura e é assessora da Comissão para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar. Instagram: @marianaavenancio

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