Sobre aprender a esperar

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Por Mariana Aparecida Venâncio

Sempre me senti abraçada pelo tempo que prepara a chegada do Natal. A beleza do lilás e das luzes, das bolas espelhadas dependuradas em pinheiros tão vívidos… Os belos e simples presépios, representações tão certas da humildade da nossa existência, destinada a acolher alguém tão maior… Os símbolos em nossas casas, e que estão nas nossas portas, são como portas abertas de uma casa que nos acolhe – casa de um outro, daquele que é totalmente Outro e inteiramente acolhida, aquele que veio até nós para que pudéssemos ir até ele.

O Advento, para mim, sempre foi um tempo carregado de uma espiritualidade muito singular: espiritualidade da ternura e da esperança, da necessidade de parar em meio à correria do fim do ano para esperar aquele que vem, espiritualidade da vagareza, do tempo, do aguardar, do almejar, do sonhar, da expectativa. Tempo em que, enfim, nossas agendas estavam cumpridas e só restava esperar as alegrias e os festejos tão tenros.

Neste ano de 2020, tudo está mesmo muito diferente. Nossas esperas mudaram, ou se estenderam. Nossos ritmos foram, à força, freados. A espera tornou-se uma tortura, não mais uma escolha, uma imposição, às vezes mais atrelada à insegurança do que à esperança.

De repente, somos chamados a ressignificar aquilo que, no decorrer de 2020, se tornou um cárcere: parar, desacelerar, ter paciência, cuidar de si e dos outros, esperar um tempo novo e ansiar por um tempo melhor – olhando por outra perspectiva, que não a das lógicas antigas, tudo isso é Advento!

Aprendendo sobre o valor da esperança

Cassidy Rowell – Unsplash

O povo de Deus esperou a vinda do Senhor durante muito tempo, sempre. Foram longos os anos em que Abraão caminhou pelo deserto; longos os meses em que Sara esperou por Isaac; duras as penas de escravidão suportadas pelo povo antes da libertação do Egito; frias as noites passadas sob o céu, no deserto; injustos e infiéis todos aqueles que o povo pensou serem messias, antes que viesse o Messias verdadeiro. O Advento do povo não foram os nove meses da gravidez de Maria, mas os séculos de espera até que o Deus Verdadeiro revelasse plena a sua face no grande Messias-Menino.

Assim, também o tempo do Advento que estamos a iniciar não se pode conter em quatro semanas, mas ultrapassa um tempo que se possa marcar no calendário. O Advento é a virtude daqueles que, em todo o tempo, sabem ligar-se ao Altíssimo pela esperança sempre viva, esperança que nunca decepciona, esperança que faz olhar todas as coisas, mesmo as piores, com a certeza de que o Senhor virá.  

Talvez o que levaremos de 2020 – se já podemos, ao fim de um ano litúrgico, nos permitir certa retrospectiva – seja exatamente o que aprendemos sobre o valor da espera e da esperança. Se olhamos com sensibilidade para todos os desafios que o nosso tempo enfrentou e ainda enfrenta, então pudemos participar de um grande e doloroso laboratório que nos mostrou, para além das frases prontas que costumávamos repetir, que o Tempo do Senhor não é mesmo o nosso tempo. Que Ele age conforme seus direcionamentos, pede de nós a esperança nunca vacilante e conta com nosso esforço e nossa ação quando parece que de nada adianta agir.

Aquele que sempre vem!

Percebemos que, para que o Senhor fosse reconhecido em nossas maiores dores, era preciso gestos tão simples… ficar em casa, cuidar dos mais frágeis, respeitar as distâncias, marcar presença pelos sentimentos, e não pelos contatos. Foi também assim que o povo esperou o Senhor: com paciência, sem imediatismos, caindo e levantando, errando e aprendendo, ouvindo os verdadeiros profetas e amando os verdadeiros necessitados. Foi assim também que Maria acolheu o anúncio do anjo: fazendo simples perguntas, expondo sinceramente suas dúvidas, aprendendo o que podia compreender e se deixando envolver pelo mistério do que não podia entender, partindo para ajudar sua prima, Isabel.

Como uma mãe a seus filhos, o Senhor tem nos ensinado a esperar… Ele tem nos mostrado que o Reino de Deus não é um consultório médico, em que se para numa cadeira qualquer e se aguarda um tempo determinado que logo findará. O Reino de Deus é uma espera constante, que logo vê seu fim e, ao mesmo tempo, se renova para um futuro desconhecido. Não é uma espera passiva, mas um tempo de preparação, durante o qual, com nossas mãos e coração, vamos construindo o futuro que queremos viver, vamos preparando a manjedoura dos nossos relacionamentos, para que ela se aqueça com o calor da fraternidade e possa abrigar o Senhor – aquele que sempre vem!

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa da Bíblia como Literatura, é autora de roteiros homiléticos para a CNBB e oferece cursos bíblicos em paróquias. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar. 

Contato: [email protected]

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