No túmulo vazio, um encontro: experiências pascais em João

Noli me tangere

A força de olhar para dentro do vazio do túmulo e encontrar a prova da vitória 

Por Mariana Aparecida Venâncio

Maria. É esse o nome com o qual Jesus chama Madalena, enquanto ela chora inconsolável junto ao túmulo vazio. Uma pequena palavra e um nome tão comum, mas tão cheio de significado, como todas as palavras que saíram da boca de Jesus e, também, como todas as palavras que a comunidade joanina escolheu para tecer o seu Evangelho. O anúncio da ressurreição de Jesus, conforme a narrativa do Evangelho de João, é essa palavra simples e tão cheia de significado que nos faz interromper as lágrimas de nossa desolação para olhar, esperançosos, para aquele que é a Vida e que está conosco.

Em Maria, uma grande comunidade 

A comunidade joanina fez uma série de escolhas literárias que a ajudaram a elaborar uma narrativa única para o fato da ressurreição de Jesus, que encontramos em Jo 20,1-18. Quero recuperar ao menos dois detalhes que podem estar ocultos nas entrelinhas do texto, a começar pela sua segunda parte (v. 11-18). Madalena está sozinha, à entrada do túmulo vazio de Jesus, e chora como uma noiva que perdeu o seu amado, a exemplo da angustiada protagonista do Cântico dos Cânticos (cf. Ct 3). Madalena experimenta toda solidão e toda decepção – expressões mais doloridas da nossa humanidade.

Ela esperava um encontro, ainda que fosse com o corpo já morto do seu Senhor. No entanto, o túmulo vazio se impõe como uma grande pedra que, embora aberta, fecha Madalena em seu isolamento. É ela quem está, agora, em um túmulo sem perspectivas para seguir em frente. Jesus, que aparece ressuscitado e já irreconhecível em sua aparência física, a relembra de sua identidade. Ele diz: “Maria”. Enquanto ela recorda seu nome e recobra o sentido de sua existência, nós, com o auxílio do texto, também vamos entendendo quem é aquela mulher, ali, junto ao sepulcro. Os exegetas Juan Mateos e Juan Barreto, ao comentarem o Evangelho de João, dão suas justificativas para que enxerguemos em Madalena a figura da comunidade da Nova Aliança, daqueles que caminharam com Jesus, testemunharam sua ressurreição e agora têm a missão de anunciar a esperança. Madalena, que agora é Maria da Nova Aliança, já não chora mais. Ela anuncia a maior das alegrias, a razão de toda esperança, o acontecimento que dispensa quaisquer outros: “Vi o Senhor”.

Vimos a vida separada da morte

Se, para Maria, é o encontro com o Senhor que traz sentido para uma nova caminhada, para os outros discípulos, o encontro do túmulo vazio já basta (vv. 1-10). Pedro e o outro discípulo, que correm bem cedo ao túmulo, encontram, no lugar, uma disposição singular de objetos que o Evangelho faz questão de descrever em detalhes. Os detalhes, quando descritos por João, merecem nossa atenção: enquanto entra no sepulcro, Pedro vê as faixas de linho que envolviam Jesus e o sudário que cobria sua cabeça. 

O sudário, que é o véu de morte, está cuidadosamente enrolado em um lugar à parte. Quem o enrolou e o colocou lá fora o próprio Jesus, Ressuscitado, visto que ninguém entrara ainda no túmulo. Ele teve o cuidado de separá-lo a fim de que não manchasse os panos de linho que, ao chão, simbolizam as núpcias. As núpcias de Jesus, Nova Aliança firmada em seu sangue com a nossa humanidade, são separadas cuidadosamente da morte pela sua Ressurreição. 

Cathopic

No vazio do túmulo sempre existe a esperança

A comunidade joanina faz a experiência pascal cotidiana de encontrar o Ressuscitado na comunidade de fé e testemunhar a vida que ele oferece, vida abundante que supera absolutamente a morte. O tempo Pascal é um convite da Igreja para que o nosso tempo faça a mesma experiência de encontro e testemunho, afinal, a Ressurreição não foi anunciada unicamente a Madalena, mas, por meio dela, a toda a Nova Aliança. A cada tempo, a cada época, cada pessoa chora, desolada, as próprias dores às portas do túmulo vazio. 

Em alguns momentos, temos a força de olhar para dentro do vazio do túmulo e encontrar a prova da vitória – nossas núpcias separadas da morte. Em outros momentos, no entanto, o vazio só pode mesmo nos parecer vazio: olhamos para o túmulo e só vemos o espaço vazio que antes era ocupado por uma razão de vida, por alguém, por uma conquista que perdemos, por um sentido que não vemos mais. Mesmo aí, nessas situações de solidão, o Senhor encontra um jeito de chegar ao pé do nosso ouvido e sussurrar algum sinal – talvez não tão claro quanto “Maria!”, mas certamente tão capaz de nos devolver a esperança. 


Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa da Bíblia como Literatura, é autora de roteiros homiléticos para a CNBB e oferece cursos bíblicos em paróquias. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar. Contato: [email protected]

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