A hospitalidade e a coragem de Raab

Livro de Josué
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Por Mariana Aparecida Venâncio

Continuamos nossas reflexões sobre o Livro de Josué, em preparação para o Mês da Bíblia deste ano de 2022. Na coluna anterior, acompanhamos a figura de Josué em uma reflexão concentrada sobre as bases de sua liderança. Desta vez, vamos examinar outra figura de liderança: a personagem Raab.

Um panorama sobre Josué 2 

A reconquista da terra de Canaã, tema central do Livro de Josué, não é feita de modo total e imediato. Segundo o Livro, pequenos territórios vão sendo conquistados até que Israel possa ocupar, com tranquilidade e organização, a maior parte da terra que fora de seus antepassados. A primeira entrada que eles conseguem encontrar, para a partir daí realizar novas conquistas, é por Jericó. Por isso, a conquista de Jericó será historicamente tão importante e também tão recordada pela tradição bíblica. A narrativa de Josué, porém, coloca no centro dessa conquista uma figura feminina estrangeira que, praticamente, possibilita que a reconquista de Jericó aconteça. A estranheza da figura de Raab, combinada ao seu protagonismo, atestam que ela foi uma das personagens principais no retorno à Canaã, de fato. Não fosse assim, sua memória não teria sido registrada de maneira tão expressiva.

Uma mulher de muitas virtudes 

Livro de Josué
Livro de aprofundamento para o mês da Bíblia. Foto: Arquivo Paulinas

É interessante que Raab seja citada logo no princípio do Livro de Josué por ser uma mulher estrangeira. Ela não faz parte do povo que chega do Egito e do deserto. Ela já estava lá naquela terra, fazia parte dos outros povos que a ocupavam. Raab é, assim, antes de tudo, sinal de Deus que suscita em toda parte aqueles que proverão ajuda para seu povo eleito. Ela manifesta uma fé cuja origem não tem explicação, senão como dom do próprio Deus – ela ouvira falar dos prodígios realizados por YHWH e o temia, simplesmente (cf. Js 2,11). É, também, figura da própria terra que se abre em acolhimento e hospitalidade ao povo que é seu. Raab exerce, assim, aquela que será uma das maiores qualidades para Israel, especialmente no Antigo Testamento: a hospitalidade. Ela é figura da casa e da terra que se abrem, que oferecem abrigo, amparo e proteção, que escondem e conservam a vida, que agem de maneira maternal e provedora. Mas Raab não deixa de lado aqueles que são seus, nem mesmo diante de uma missão divina: ela oferece hospitalidade a todo o povo de Israel que retorna, mas também garante um lugar na terra para sua própria família. 

Não se pode ignorar o fato de que o texto de Josué faz questão de apresentá-la como “uma prostituta chamada Raab” (cf. Js 2,1). No texto hebraico, há uma diferenciação entre a prostituição considerada sagrada, ou seja, exercida como culto a deuses estrangeiros, e a prostituição como profissão. A prostituição de Raab é deste segundo tipo, não um exercício de idolatria. O texto distancia-se, assim, dos padrões morais que acabavam de ser apresentados, inclusive, nos últimos trechos do Pentateuco, para colocar em relevo o temor a Deus. O que Raab efetivamente faz pelos dois espiões – e, por extensão, a todo o povo – é muito maior do que aquilo que ela fazia, certamente, para ganhar a vida e o pão sobre a mesa. Assim, a hospitalidade oferecida a dois homens – realizada em nome do temor a um Deus que ela conhece de longe – supera sua vida moral e sua origem estrangeira. É sua hospitalidade caridosa que a faz uma importante personagem da história do povo, uma nova mãe, praticamente uma sucessora das matriarcas do Gênesis, e que garantirá para ela, inclusive, um lugar na genealogia de Jesus em Mateus (cf. Mt 1,5).

“Tão somente, sê forte e muito corajoso” (cf. Js 1,7) 

O ensinamento de Deus a Josué, para garantir sua liderança, já é uma realidade para Raab. Ela não precisou ouvir tal exortação do próprio Deus, assim como Josué ouvira, mas somente as notícias que ela recebeu dos grandes feitos realizados pelo Senhor são motivo suficiente para que ela coloque em prática toda a coragem que uma figura feminina pode expressar. Ela é corajosa, perspicaz, audaciosa e confia em seus próprios artifícios. Ela é o protótipo de tantas mulheres que precisam enfrentar inúmeros desafios que, por sua condição, se multiplicam, e o fazem na confiança de que Deus torna suficientes as capacidades humanas em cada situação. Raab precisa tomar rápidas decisões e o faz de maneira sábia, mas também arriscada. Ao receber os enviados do rei de Jericó, ela mente dizendo que os espiões de Israel passaram por ali e já haviam ido embora, quando, na verdade, eles se escondiam em seu terraço. Ela sabia que, se eles fossem encontrados ali, ela e todos os de sua casa seriam condenados à morte. Mas ela se arrisca em favor dos que vêm da parte do Senhor e, por isso, receberá sua recompensa. Ela é também inteligente ao fazer os espiões descerem por uma corda e instruí-los sobre como se esconder, a fim de evitarem os perseguidores. 

Que a reflexão sobre a figura de Raab nos ajude a entender um pouco melhor o Livro de Josué e a forma como este compreende a maternidade da terra prometida, que, como mãe saudosa de seus filhos, vai se abrindo à sua chegada e oferecendo proteção estratégica. Que ela nos ajude, também, a reencontrar a verdadeira coragem e o verdadeiro temor a Deus em nossos tempos. 

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa sobre a Bíblia como Literatura e é assessora da Comissão para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar. Instagram: @marianaavenancio

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