Em palavras tão humanas, um caminho de espiritualidade

Por Mariana Aparecida Venâncio

A espiritualidade se relaciona à forma como compreendemos nossa identidade e ao modo como imprimimos o nosso ser em nossas ações diárias e no contato com as outras pessoas. É algo que parte de dentro – do mais íntimo que só nós conhecemos – e transborda nas experiências que nos mesclam a tantos outros, ao mundo. Por isso encontramos em Deus uma fonte de espiritualidade: porque só ele nos conhece desde o ventre de nossa mãe e nos ensina, em seus sinais e em sua Palavra, a viver como irmãos, em nossa Casa Comum.

A espiritualidade é um caminho individual, porque é único o modo como vivemos nossas escolhas, opções, prioridades, gostos, habilidades, medos e reservas. Mais singular ainda será o modo que encontramos para elevar tudo isso à transcendência, a Deus. A espiritualidade é livre e criativa, porque é só assim que o ser humano sabe viver: livre e criativo, à semelhança de Deus.

Falar de criatividade me faz, sempre, pensar na Bíblia. Aliás, quando falo em “espiritualidade bíblica”, prefiro pensar além dos personagens que conhecemos, como o corajoso Abraão do Gênesis ou os angustiados e esperançosos profetas do Exílio. Instiga minha curiosidade a vida audaciosa daqueles primeiros homens e mulheres que começaram a compor as narrativas de Deus – ou seria melhor dizer “as narrativas do Israel de Deus”?

Há algo diferente na espiritualidade daquelas pessoas que não sabemos quem foram nem quando viveram – disso temos apenas poucas pistas. Elas não apenas transbordaram o seu coração sobre o seu tempo, mas criaram um abrigo para aqueles que viriam e que perguntariam sobre sua origem, sobre quem é Deus, o que é amar, ou qual é o sentido da existência.

Skyler Gerald – Unsplash

Talvez o princípio da espiritualidade bíblica seja o de abrigar em palavras: uma fagulha da luz de Deus; a intuição do que é ser humano; as memórias mais genuínas de um povo; ensinamentos que conduzem ao eterno; sinais de salvação que se atualizam; todo aquele que lê ou ouve a Bíblia. Afinal, a maneira como nos relacionamos com o outro bem pode ser esta: abrigar.

A genuína espiritualidade bíblica vem de corações audaciosos, que acreditaram, acima de tudo, que suas próprias criatividades poderiam se unir ao ser criador de Deus para produzir histórias. Ler a Bíblia é mais do que juntar letras e produzir sons: é entrar em comunhão com os primeiros corajosos autores da Escritura, uma comunhão que se faz a partir da nossa liberdade criativa, que dá vida à literatura e a faz ter sentido no hoje.

Quando entramos em comunhão com todos esses autores anônimos, aí entramos também em comunhão com o próprio Deus, que cultivou generosamente em nosso intelecto a capacidade de sonhar narrativas no íntimo, transformá-las em realidade com nossas mãos e esperar, no Senhor, que elas se transformem em eternidade.

E aí a vida, como a Bíblia, se torna uma arte compósita: um conjunto de narrativas diversas que ganham sentido no conjunto, em Deus.

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa da Bíblia como Literatura, é autora de roteiros homiléticos para a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e oferece cursos bíblicos em paróquias. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar.

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