Deixar-se tocar pelo outro: uma espiritualidade missionária

Por Mariana Aparecida Venâncio

O filósofo contemporâneo Jean-Luc Nancy, nascido em 1940, na França, ao desenvolver seu pensamento acerca do sujeito, coloca-o sempre em relação com o exterior.

Aliás, para Nancy, o sujeito existe em distinção ao que lhe é exterior e suas relações celebram tal distinção. Ele está sujeito ao que vem de fora: é, a todo momento, interpelado, ameaçado, celebrado, amado, [de diversas formas] afetado pelo que vem de fora.

Nancy parece traduzir em palavras a inspiração – ou deveríamos dizer vocação? – que todos nós trazemos em nosso íntimo a respeito do nosso lugar no mundo. Nossa missão é estabelecer relações com o que está fora de nós: o mundo, as pessoas à nossa volta, Deus.

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Há certa espiritualidade missionária no reconhecimento de si como um sujeito frequentemente interpelado pelo exterior. O mundo à nossa volta exige de nós respostas e reações, as mais variadas. Seria mais fácil e mais seguro, no entanto, permanecermos fechados em nós, em nossas seguranças, no território protegido do eu – onde posso prever os próximos passos, suprimir os pensamentos confusos, reprimir os sentimentos inquietantes, controlar as emoções que divergem.

Lá no íntimo, onde não há opiniões contrárias, onde não se estabelecem conflitos, onde não preciso lidar com o diferente, também não sou desafiado a mudar os meus parâmetros nem a ceder em minhas convicções para dar lugar à singularidade do outro.

É belo o despojamento daquele que ama o desafio de encontrar-se com o diferente, que não tem medo de ser sacudido por realidades diversas que nos tocam profundamente e imprimem em nós a vontade de mudar e de mudar o mundo à nossa volta. Ir ao outro e deixar-se tocar por ele sempre é inquietante, nem sempre é confortável, exige reservar um espaço no interior de si mesmo para que o outro possa habitar – e, às vezes, esse hóspede do íntimo pode não ser tão bem-vindo.

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Quantas vezes presenciamos irmãos em situações das quais gostaríamos de ter desviado os olhos? Há duas opções: desviar o coração e seguir adiante, ignorando aquele encontro, ou deixar que aquele encontro toque o mais íntimo de nós e transforme algo, crie um impulso de mudança, converta uma situação de vida, desinstale um vício confortador. Há certa espiritualidade missionária no deixar-se tocar pelo outro.

 A missão de Jesus em meio aos discípulos foi a missão de esvaziar-se de si e dar lugar às mazelas humanas, que, nele, produziam frutos de vida abundante. Jesus esvaziou-se de sua realeza para encontrar o mais pobre da nossa humanidade – desde a pobreza da miséria dos que viviam abandonados às ruas até a pobreza de espírito dos que endureciam seus corações. De diversas formas, as pessoas iam, aos poucos, notando que Jesus vinha da parte de Deus.

Em todas essas formas, porém, algo era constante: elas sentiam-se abraçadas e abrigadas pelo seu ser misericordioso, que não rejeitou ninguém, mas quis olhar no fundo dos olhos até mesmo daquela que, em meio a uma multidão, havia tocado o seu manto. Ele não rejeitou nossa humanidade, aquilo que era mais estranho à sua divindade.

E foi por não rejeitar o diferente que ele fez com que a nossa humanidade pudesse hoje olhar para a divindade não como o mais estranho a nós, mas como o mais terno e próximo, como Irmão, Redentor e Pai. Há certa espiritualidade missionária no sair de si e no deixar-se tocar profundamente pelo outro.

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa da Bíblia como Literatura, é autora de roteiros homiléticos para a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e oferece cursos bíblicos em paróquias. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar. 

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