Celebrar o Natal: tornar novo o eterno

Ben White – Unsplash

Tempo que se faz novo para mostrar-nos que nunca é tarde para encontrar um novo caminho e assumir novas atitudes

Por Mariana Aparecida Venâncio

Poucas festas em nosso calendário – seja o civil ou o religioso, seja aquele calendário que vamos construindo com nossas memórias e com os fatos que marcaram nossa história – são tão significativas universalmente quanto o Natal. Embora, na liturgia cristã, a Páscoa seja a festa central, aquela que proclama a fé na ressurreição como a única esperança capaz de vencer a morte, é o Natal que tem o poder de acender luzes em diversos corações e congregar pela alegria pessoas tão diferentes. A festa do nascimento de Jesus faz nascer de novo tanta gente e faz nascer também a concórdia e a paz onde habitavam escuridões.

O Natal: arauto do novo

Os sinais do Natal que despontam em nossas cidades anunciam a chegada de um novo tempo: são luzes espalhadas por toda parte, enfeites coloridos em meio ao cinza da normalidade, presentes que carregam surpresas e expectativas, manjedouras vazias que aguardam a imagem do Menino, flores, velas, cânticos e sorrisos. O Natal é, por assim dizer, o arauto do novo: um novo Menino nasceu para proclamar um tempo de nova graça.

Nossa rotina tão assoberbada e estressante aguarda ansiosa por esses dias, em que todo cansaço parece ser recompensado não pelo que acontece, mas por aquilo que esperamos. Toda correria encontra, enfim, seu término. As pessoas estão dispostas a sorrir, a trocar presentes, a lembrar dos que são esquecidos no cotidiano. Enviávamos cartões, agora não mais. Mandamos mensagens e enviamos lembranças. A magia do Natal é abrir-se à fraternidade, assim como o presépio de Belém foi fraterno ao acolher tantos diferentes que se congregaram para ver a Deus e sentir que, enfim, ele estava conosco.

Uma espiritualidade de esperança

Jeswin Thomas – Pexels

A espiritualidade cristã também não proclama tanto o que acontece, mas principalmente o que esperamos. Aguardamos nosso encontro definitivo com o Senhor, quando todos os dias serão Natais – ou também Páscoas. Quando a realidade do Deus Conosco será tão próxima e real quanto a do Senhor, nossa Vida. Aliás, celebrar o Natal tem significado, a cada ano, porque a normalidade das nossas humanidades, tão sofridas pelos erros e pelas más escolhas, ganham a cada alvorecer uma nova chance de experimentar o Deus que não deixa nunca de ser Conosco. Ele é sempre Emanuel, e já podemos sentir, aqui, uma parte dessa graça.

Mas é importante pensar por que motivo a fraternidade do Natal está na categoria das novas coisas, dos novos propósitos que assumimos, do futuro que esperamos. Não seria a fraternidade o distintivo que nos identifica como discípulos de Jesus? Não seria a fraternidade o sinal mais pleno do Reino de Deus que já é uma realidade? Talvez a magia do Natal que traz a fraternidade de volta às nossas mesas seja também um sintoma da escuridão que se estende sobre os meses em que não celebramos o Natal, em que não fazemos o Natal acontecer em nossos encontros (ou desencontros?).

É Natal agora, é Natal de novo

Decerto, o Natal é tempo para assumirmos atitudes novas – e não é esse o convite cristão, afinal? O de encontrar sempre um caminho novo, que nos faça contemplar a salvação que vem do Senhor? O Natal celebra a Aliança antiga que se fez Nova, o Deus Eterno que se fez um novo Menino, os velhos profetas que se refizeram presentes em uma nova Palavra, cheia de autoridade e sabedoria.

A beleza do Natal é que não o celebramos como uma memória passada, como um aniversário que recorda um nascimento há muito tempo acontecido. É Natal agora, é Natal de novo. Nunca é tarde para buscar novas alegrias e sonhar com um mundo novo.

Será que temos feito do Natal uma ocasião para repetir velhos hábitos – os que não nos trazem alegria, não produzem fraternidade e só perpetuam velhas relações, caducas por sua escuridão? Oxalá um dia pudéssemos tirar a fraternidade da categoria das novas coisas para torná-la a nossa rotina! Façamos do sonho de Deus o nosso: fazer novas todas as coisas. E então repetiremos, confiantes, com o salmista: os confins do universo – e nós também! – contemplam a salvação do nosso Deus!

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa da Bíblia como Literatura, é autora de roteiros homiléticos para a CNBB e oferece cursos bíblicos em paróquias. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar. 

Contato: [email protected]

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