“Não leveis bolsa”: a espiritualidade do anúncio

Bolsa de couro
Pixabay.com

O anúncio do Evangelho deve ser feito no despojamento: sem levar sacola nem sandálias, porque nunca foi confortável o caminho de Jesus

Por Mariana Aparecida Venâncio 

Naquele tempo, o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. E dizia-lhes: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita. Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho! Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: “A paz esteja nesta casa”. Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós. Permanecei naquela mesma casa, comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário. Não passeis de casa em casa. Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: “O Reino de Deus está próximo de vós” (Lc 10,1-9).

Nos últimos dias, estive meditando um discurso de Jesus aos discípulos, especialmente registrado pelo evangelista Lucas (cf. Lc 10,1-9). Segundo o trecho que citei, Jesus, dentre suas muitas escolhas, convida 72 discípulos para uma missão dura e exigente: eles serão enviados como cordeiros para o meio de lobos. A situação é singular. Jesus não esconde o desafiador caminho ao qual ele chama e, no entanto, 72 discípulos são convidados. Embora não sejam suficientes para dar conta de toda a messe, são 72 pessoas! Não é um número pequeno, mas é um número simbólico. São 6 x 12 pessoas. O número 12, na Bíblia, representa o número do povo da Aliança: eram 12 as tribos de Israel, 12 também os discípulos… Mas 6 é o número da falta. Falta 1 grupo de 12 para que a comunidade dos discípulos se complete. Esse grupo somos nós, leitores do Evangelho? 

Jesus não promete grandes conquistas, ele convida ao sofrimento. Ele convoca discípulos para partirem em seu nome, anunciarem sua palavra, irem aonde ele mesmo deveria ir e – principalmente – experimentarem da mesma rejeição que ele próprio experimentava. O caminho do discípulo deve ser feito no despojamento: não levar bolsa, não levar sacola, não levar sandálias, nada que dê conforto ao caminho – porque nunca foi confortável o caminho de Jesus. Quem quererá um caminho assim? Eram 72 pessoas naquele dia…

Fico pensando no quão resiliente Jesus foi diante dos que o ouviram. Decerto, o Evangelho escrito não deu conta de registrar a maioria dos encontros de Jesus – registrou apenas os principais. Essa atitude de anunciar a paz e contentar-se mesmo quando ela não for acolhida deve ter sido cotidiana no ministério de Jesus. Ele fez da resistência a força do seu anúncio. Mas penso em quantas vezes nós precisamos fazer isso e somos incapazes! 

Anúncio do Evangelho

Em nossas ansiedades tão humanas, queremos anunciar o Evangelho – seja com palavras ou obras – e queremos ver essas sementes lançadas germinando e dando frutos o quanto antes! Nossas vaidades humanas tornam muito difícil a esperança. Não queremos esperar. Não queremos dar tempo às pessoas nem a Deus. Achamos que as sementes germinam por esforço nosso – quanta ingenuidade! 

Sementes
Pixabay.com

Quem tem experiência com o plantio sabe que algumas espécies precisam ser plantadas, cuidadas e esquecidas. Algumas espécies de plantas não mostrarão seus frutos a quem lança as sementes, e é essa a grande chave para a felicidade do discípulo de Jesus. Em uma parábola, Jesus falou sobre os percalços daquele que saiu para semear. O que às vezes nos esquecemos é de que nossa participação no Reino de Deus é a de lançar as sementes, e nada mais. No cultivo da Palavra de Deus, é o Senhor mesmo quem rega e faz crescer, e os frutos das sementes que lançamos não serão nossos. Nada está sob nosso controle, nada nasce para nossa satisfação. Os frutos que sustentam a nossa missão não são os frutos que plantamos e carregamos na nossa bolsa – nem bolsa devemos ter! Nosso sustento vem de frutos cujas sementes outros lançaram. 

Talvez aí resida uma grande dificuldade nossa. Por mais que evitemos, nossa vida nos ensina a sermos egoístas: não queremos depender de outras pessoas para nada. Queremos carregar bolsas cheias de alimentos, de sentimentos, de planejamentos, de agendas, listas, metas, passo a passos, tutoriais e instruções. Queremos mapas em nossos alforjes, porque não queremos confiar em informações pedidas a estranhos no caminho. Ora, se Jesus abandonou seu destino e o destino do Reino que Ele anunciava, o destino da fé que Ele tinha em Deus, o destino do grupo dos seus discípulos, o destino do seu projeto, nas mãos de algozes desconhecidos, então aí está o modelo do despojamento. Ele quer discípulos que tenham a coragem e a audácia de não se empenharem no planejamento do próprio futuro, mas que vivam o presente confiantes de que a providência divina agirá pelas mãos dos outros – mãos essas que nem sempre são acolhedoras, mas podem ser flageladoras, inclusive. Porque, em outras situações, não seremos os anunciadores, mas os que colhem da Palavra anunciada – mas aí é outra história, a história do cuidado de Deus que nos olha com ternura. 

O caminho do pregador do Evangelho, do discípulo – eis o desafio! – é o de lançar-se: lançar-se ao desconhecido, à resistência, ao não planejável, ao incerto e ao incontrolável. É caminho de lançar sementes, não é caminho de colher frutos. 

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa da Bíblia como Literatura, é autora de roteiros homiléticos para a CNBB e oferece cursos bíblicos online. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar. Contato: [email protected] Instagram: @cursosbiblicos.mv

Artigos Recentes

Deixe seu comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

error: Ação desabilitada