Trocadilho, pastelão e poesia

Trocadilhos
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Parece fácil, mas um bom trocadilho pede inteligência, rapidez de raciocínio, capacidade de associação de ideias e domínio da língua

Por Leo Cunha

Muita gente considera o trocadilho a forma mais banal de fazer graça com as palavras. Ele representaria, para o humor verbal, o que a torta na cara representa para o cinema. 

Aparentemente, é tão fácil bolar um trocadilho quanto acertar um pastelão cremoso na fuça de alguém. Sempre vai aparecer um crítico ranzinza para dizer que não passa de um humor rápido e rasteiro, apelativo e exagerado. Não vou negar nada disso. Mas fácil? Aí já vou ter que discordar. Um bom trocadilho pede inteligência, rapidez de raciocínio, capacidade de associação de ideias e, acima de tudo, um grande domínio da língua.

Sou fã declarado dos trocadilhos, a ponto de criar, ao lado do escritor Henrique Rodrigues, uma página de humor semanal chamada “Trocadilhos de Quinta”, que está prestes a completar seis anos ininterruptos no Facebook. Ali, um bando de gente divertida – escritores, jornalistas, professores, mas também engenheiros, advogados e qualquer um que curta esse tipo de humor – se reúne todas as quintas-feiras para falar bobagem, claro, mas também para bolar sacadas geniais, jogos de palavra inspiradíssimos e, ouso dizer, uma boa dose de poesia. 

Só para dar um exemplo, em janeiro de 2022, o mote dos Trocadilhos de Quinta foi a notícia de um vereador brasileiro antivacina que teve de se imunizar para viajar a Londres a fim de participar de uma manifestação… antivacina! 

A notícia era um prato cheio para os nossos trocadilhistas, e vejamos alguns dos comentários que surgiram por lá:

Esse tipo de vereador é a vã sina dos brasileiros.

O que ele não consegue ver é a dor das pessoas.

O vereador tomou vacina só pra inglês ver.

● É um caso que só dá par lamentar…

Sim, os bons trocadilhos são irmãos ou primos da poesia. Não é por acaso que em breve lançarei pela editora Paulinas o livro “Tim tim por tantã – trocadilhos poéticos”, em parceria com a Marta Lagarta, grande mestra nos jogos de palavras, anagramas e palíndromos. 

Mas por que, afinal, existe tamanho preconceito contra os trocadilhos? Desconfio que ele tenha a mesma origem da má vontade contra a comédia pastelão e o humor físico, em geral. Ambos parecem fáceis de fazer, mas só parecem. Lembremos, por exemplo, o genial Charles Chaplin. No filme O Grande Ditador (The great dictator), de 1940, há uma cena em que Carlitos – ainda antes de se tornar um líder por acaso – leva uma panelada na cabeça, e, imediatamente, sai cambaleando pela calçada, em um fascinante cai-não-cai. A cena é um maravilhoso exercício de equilibrismo, quase um balé, com movimentos que fazem Chaplin parecer uma marionete sem fios ou um boneco com dobradiças nos braços e pernas. No humor físico, o corpo burlesco age de forma inesperada, indomada, antinatural.

Tive a oportunidade de estudar o burlesco e o grotesco em minha tese de doutorado. Ambos recorrem ao exagero para provocar estranhamento, para surpreender e até mesmo chocar o público. Como escrevi em minha tese, esse tipo de humor funciona como “uma provocação contra o status quo e, sobretudo, contra o olhar academicista, que privilegia um ideal clássico de beleza, de equilíbrio e harmonia das formas. Se a tradição platônica estabeleceu uma identificação entre o verdadeiro, o belo e o virtuoso, o grotesco é o seu negativo, na medida em que explora o que há de disforme, mórbido, escatológico, asqueroso, elementos que, até o século XVII, eram pouco mostrados, a não ser de forma secundária ou voltada para a representação de personagens ou ambientes ‘baixos’: os pobres, os marginais, o inferno”.

Por isso o humor burlesco é muitas vezes visto como de mau gosto ou grosseiro, assim como os trocadilhos são frequentemente recebidos com caretas, gritos, vaias e xingamentos de “infame”. Mas lembremos o que disse o grande mestre Millôr Fernandes: “Sem trocadilho, sem jogo de palavras, Shakespeare não existiria. Ainda mais, a literatura não existiria”. 

Leo Cunha é graduado em Jornalismo e Publicidade e especialista em Literatura Infantil pela PUC Minas. Mestre em Ciência da Informação e doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Casado com Valéria, pai da Sofia e do André. Apaixonado pelas artes e pelo humor. É autor do livro Cachinhos de prata, publicado por Paulinas Editora.

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