Sobre ler e carregar livros

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Confira os diálogos entre os carregadores durante uma mudança, espantados diante de tantos livros

Por Leo Cunha

No início de 2021, meus pais se mudaram de casa e, com eles, seguiu a biblioteca particular da minha mãe. São quase 20 mil exemplares, reunidos ao longo de várias décadas como professora universitária, pesquisadora, livreira, editora e colunista de jornais e revistas.

Na hora de escolher o imóvel para onde iria se mudar, a primeira coisa que minha mãe avisou à imobiliária foi que seria preciso uma casa com pelo menos uma sala muito ampla para abrigar sua biblioteca. Imagine encontrar um lugar onde caibam tantos volumes! Não foi tarefa nada simples para o corretor.

Desses quase 20 mil exemplares, quase metade é de pedagogia ou de literatura infantojuvenil, áreas às quais ela mais se dedicou profissionalmente. Foram dezenas e dezenas de caixas e, certamente, algumas toneladas de livros. Como pesa o tal do papel!

Eu queria ter acompanhado mais de perto a mudança, mas, por conta da pandemia e do distanciamento, não pude participar muito. Mesmo assim, consegui recolher alguns bons casos e diálogos.

A presença da leitura na vida

A proximidade com os livros – mais que isso, com aquela quantidade inusitada de livros – levou os funcionários da empresa de mudança a refletirem sobre a presença da leitura em suas vidas. Um deles lembrou uma história que o marcou na infância – se não me engano, um mistério da coleção Vagalume; outro fez questão de dizer que tem um primo professor e outro se lembrou com orgulho da irmã bibliotecária.

Um dos transportadores, ao final de um dia de trabalho pesado, sentou-se num degrau da escada e lamentou: “Tá vendo como são as coisas? Não li nada quando era mais novo e agora estou aqui carregando caixas de livros!”.

Uma mudança que fez pensar

Tanto esse rapaz como a maioria de seus colegas não resistiram e, de vez em quando, pausavam um pouco a tarefa de empacotar e carregar as caixas e começavam a espiar os livros, folhear um pouco, ler uma página aqui e outra ali. A mudança acabou se alongando um bocado por conta dessas interrupções, mas, certamente, foi por uma boa causa. Teve gente que, percebendo a existência de alguns volumes em duplicata, aproveitou para pedir livros de presente para os filhos e primos.

Um dos rapazes não conseguia entender por que havia tantos livros de Dom Quixote. Afinal de contas, não é uma história só? Sim, ele tem razão. Cervantes publicou em 1605, em Madri, as aventuras do “Ingenioso Hidalgo Don Quixote de La Mancha”, de seu parceiro Sancho Pança e de sua amada Dulcinea; este que é considerado por muitos o primeiro romance moderno e o maior da literatura ocidental. Porém, desde então, são inúmeras edições, traduções e adaptações. É o livro mais traduzido do mundo, depois da Bíblia. Minha mãe tem uma pequena coleção de Quixotes, uma de suas grandes paixões, e não é de estranhar o espanto do rapaz diante de tantas versões da mesma história.

Colecionar livros

A escritora britânica Jeanette Winterson declarou que colecionar livros pode ser entendido como uma obsessão, uma ocupação, uma doença, um vício, uma fascinação, um absurdo ou até mesmo uma sina. Mas nunca como um hobby. Entendo o ponto de vista da autora, pois não consigo entrar em uma livraria sem sentir o desejo de acrescentar pelo menos mais um item para o meu acervo.

Entre todas as frases que ouvi durante a mudança, a que mais se repetiu foi: “Sua mãe leu todos esses livros?”. Quando ouvi a pergunta, eu me lembrei do escritor Miguel Sanches Neto, que certa vez perguntou: “Por que estes livros que não foram lidos me olham assim com tanto ódio?”.

Leitura
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Claro que minha mãe não leu toda a sua biblioteca. É quase impossível ler 20 mil livros. Muitos estão ali para consulta, outros terão apenas uma página lida, um parágrafo, uma estrofe. E alguns simplesmente não serão nem abertos por minha mãe. Talvez sejam por mim, por meus filhos, netos, ou sabe-se lá por quem. Uma hora, torçamos, eles chegam ao leitor, ou o leitor a eles.

Leo Cunha é graduado em Jornalismo e Publicidade e especialista em Literatura Infantil pela PUC Minas. Mestre em Ciência da Informação e doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Casado com Valéria, pai da Sofia e do André. Apaixonado pelas artes e pelo humor. Além de autor do livro Cachinhos de Prata, publicado por Paulinas Editora.

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