O tal do storytelling

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Tudo o que você já leu, assistiu, ouviu e vivenciou vai ter influência em sua interpretação da história

Por Leo Cunha

Há alguns dias fui convidado a participar de uma mesa-redonda sobre o tal do storytelling, termo que está super na moda e que pode ter sentidos diversos. No caso, não se tratava dos nossos conhecidos “contadores de história” (storytellers). Na roda de conversa, o termo foi entendido como a arte e a técnica da narrativa, seja na literatura, no cinema, no jornalismo, no marketing empresarial e em outras áreas.

Pensei muito sobre o que dizer naquela mesa-redonda. Storytelling, mais do que criar ou contar uma história, é fazê-lo de modo bem estruturado – com início, meio e fim –, com a intenção de surpreender, encantar, emocionar e cativar o leitor, ou ouvinte, ou espectador. Se tudo der certo, o público ficará com a sensação de que não apenas conheceu uma história, como também algo que, de certa forma, o levou a repensar sua visão de mundo, suas atitudes e escolhas, seus valores e crenças, ou ainda algo mais específico, como sua forma de encarar um bem, um serviço, uma instituição. A técnica tem sido cada vez mais usada em campanhas publicitárias, por exemplo, com o intuito de envolver o público com a história de um produto ou da própria empresa anunciante.

No campo da arte, podemos dizer que o storytelling é bem resolvido quando a história tem um sentido para além dela mesma. Nessa perspectiva, é bem diferente de uma notícia, um causo ou uma piada, que geralmente se esgotam em si mesmos. O relato vai deixar uma pulga atrás da orelha, ou uma semente brotando ali no cérebro.

Não basta a história ser lembrada – pois um causo, notícia ou piada também podem ficar na memória –, mas deve ser lembrada por conta de algum recado ali. E, quando digo recado, não é necessariamente uma moral da história, um ensinamento, uma lição, algo bem preciso, que será apreendido de forma semelhante por todos.

Pode ser – e até prefiro quando é – uma mensagem mais aberta, que possibilita leituras divergentes. Cada pessoa vai pegar aquela quantidade de sementes (palavras, imagens e/ou sons, dependendo de cada caso) e vai irrigá-las com a sua própria vida, suas memórias, seus conhecimentos, suas emoções, suas preferências, suas simpatias e antipatias. Tudo o que você já leu, assistiu, ouviu e, claro, tudo o que já vivenciou vai ter influência em sua interpretação.

Luis Quintero/Pexels.com

Assim, a história vai brotar de forma diferente no jardim de cada um, com cores diferentes, texturas diferentes, aromas diferentes. Uma só história é capaz de florescer inúmeros jardins.

O mais curioso é que esses novos sentidos costumam surgir independentemente da intenção original do autor da história. Podem ir além do que o próprio artista imaginou ou cogitou.

Para dar um exemplo, vou relatar um caso ocorrido comigo. No livro Cachinhos de prata, publicado pela Editora Paulinas, em 2017, eu criei a história sob a perspectiva de três netos que, a cada fim de semana, visitam a avó, que sofre de Alzheimer (embora o livro não mencione nenhuma vez o nome da doença). Três garotos que, movidos pelo afeto e pelo carinho, criam estratégias para que a avó se lembre deles.

Pois bem: em 2019, em um evento literário, o escritor Pedro Bandeira – célebre autor de livros como A marca de uma lágrima, A droga da obediência e O fantástico mistério de Feiurinha – ouviu uma leitura do meu Cachinhos de prata e fez uma interpretação inesperada para mim: ele entendeu a história a partir do ponto de vista não dos garotos, mas dos avós. Para Pedro, trata-se de um conto sobre o modo como as pessoas perdem o contato e se distanciam de seus entes queridos, mesmo de forma involuntária (como ocorre no caso do Alzheimer). Ali onde eu via, essencialmente, o desafio dos netos, o que tocou Pedro foi, sobretudo, o drama da velhinha que, de forma implacável, vai perdendo as lembranças e as relações afetivas.

Como ainda não sou avô, a leitura do meu livro sob esse ponto de vista não tinha me ocorrido, ou pelo menos não de forma consciente. Mas ela já estava lá na história: uma semente que germinou no jardim do vovô Pedro Bandeira.

Leo Cunha é graduado em Jornalismo e Publicidade e especialista em Literatura Infantil pela PUC Minas. Mestre em Ciência da Informação e doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Casado com Valéria, pai da Sofia e do André. Apaixonado pelas artes e pelo humor.

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