O humor que faz nossa cabeça

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Por Leo Cunha

Recentemente, encontrei nas redes sociais uma enquete que perguntava: qual o livro mais engraçado que você já leu? Muitas pessoas responderam que era difícil lembrar um título, pois não tinham o hábito de ler livros divertidos. No meu caso, o desafio foi diferente: sou fascinado pelo humor, pelo riso, pela comicidade em geral, e foi quase impossível escolher um só livro para responder à enquete.

Acabei indicando o romance surreal “A lua vem da Ásia”, de Campos de Carvalho. Muitas outras obras, contudo, me vieram à mente: o tragicômico romance “O apanhador no campo de centeio”, do norte-americano J. D. Salinger; o impagável “Auto da compadecida”, de Ariano Suassuna; a comédia “A megera domada”, de Shakespeare (muito conhecida no Brasil por conta da adaptação de Walcyr Carrasco para a novela  “O cravo e a rosa”); o juvenil “O gênio do crime”, de João Carlos Marinho, que mistura lindamente humor, aventura e mistério; ou ainda o infantil “Os bichos que tive”, de Sylvia Orthof, que já fez rolar de rir crianças de todas as idades.

Muita gente identifica a leitura com um ato de aprendizagem, instrução, esclarecimento e, por isso, desconsidera os livros de humor como se fossem menos importantes em nossa formação como pessoas ou cidadãos. Que engano! O humor é capaz de fazer nossa cabeça com tanta força – ou até mais – do que obras consideradas sérias.

É curioso que alguns dos textos mais engraçados que já li foram escritos por autores mais identificados com outros gêneros. Lembro-me, por exemplo, do conto “O crocodilo”, de Dostoiévski, que pouca gente apontaria como um autor de obras divertidas. Ou contos como “A esfinge” e “Pequena conversa com uma múmia”, nos quais Edgar Allan Poe, grande mestre da narrativa policial e de terror, explorou a comicidade. 

O mesmo ocorre aqui no Brasil. Érico Veríssimo, por exemplo, mais conhecido por romances históricos, como a trilogia “O tempo e o vento”, mostrou toda sua faceta cômica no magnífico “Incidente em Antares”. Machado de Assis e Guimarães Rosa também criaram obras de humor refinado e certeiro, especialmente em seus contos.

Não é de hoje que as comédias são vítimas de preconceito. Pioneiro no estudo e na análise das formas narrativas, o filósofo Aristóteles já punha as comédias em posição inferior às tragédias e às epopeias, o que se refletia, segundo o filósofo, até mesmo no tipo de protagonista. A tragédia e a epopeia giravam – lembremos que Aristóteles estava se baseando nas obras criadas na Grécia antiga – em torno de “um homem melhor do que nós”, ou seja, de heróis que possuíam posição social ou caráter moral mais elevado. O herói cômico, por outro lado, seria o cidadão comum, ou ainda “o homem pior do que nós”. 

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Até mesmo Henri Bergson, pensador francês que, no início do século XX, se debruçou sobre a arte cômica e a mecânica do riso, também fez questão de ressaltar que a comédia seria apenas “aparentada da arte”. Não é à toa que o romancista e professor italiano Umberto Eco reagiu: “Os homens de cultura ainda não conseguiram perdoar o senso de humor”. Vale lembrar que o mais célebre romance de Eco, “O nome da rosa”, é uma trama de mistério cujo elemento central é justamente um livro sobre a comédia, que, reza a lenda, teria sido escrito por Aristóteles e cuja única cópia poderia estar no mosteiro onde se passa a história.

Valorizar os textos cômicos é também entender que eles são muito variados. Por um lado, podem nos surpreender com enganos, equívocos e quiprocós diversos, na linhagem das farsas e das comédias de erros. Por outro lado, na linhagem mais satírica, podem nos fazer refletir sobre os (maus) hábitos das pessoas, grupos ou sociedades. Outros, ainda, de caráter paródico, nos fazem rir de outras obras, ao desmontá-las e recriá-las de forma exagerada ou degringolada. E há, ainda, aqueles que simplesmente propõem um mergulho na alegria desenfreada dos bufões, palhaços, foliões e qualquer um que se oponha aos poderosos e ao excesso de seriedade. 

Leo Cunha é graduado em Jornalismo e Publicidade e especialista em Literatura Infantil pela PUC Minas. Mestre em Ciência da Informação e doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Casado com Valéria, pai da Sofia e do André. Apaixonado pelas artes e pelo humor.

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