Jornalismo, literatura e a morte estampada

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Por Leo Cunha

Eu me formei em Jornalismo em 1991 e publiquei meus primeiros livros de literatura em 1993. Nestes quase trinta anos exercendo de modo paralelo as duas atividades, refleti muito sobre o que aproxima e o que distingue a atividade jornalística da literária.

Dentre outros elementos, o jornalismo não pode, via de regra, apelar à imaginação. Em um conto literário, eu posso, por exemplo, imaginar o que um personagem está pensando ou especular sobre o que estaria passando por sua cabeça em um momento de perigo ou emoção. Já um repórter, ao elaborar sua notícia ou reportagem, não tem a mesma liberdade. O que ele pode (e até deve) fazer é perguntar às pessoas envolvidas no acontecimento o que estavam pensando ou sentindo.

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O jornalista não pode também inventar um fato: um acidente, um terremoto, a declaração de um presidente, a morte de uma rainha. Em abril de 2022, o maior jornal do país, a Folha de S. Paulo, publicou por engano, em seu site, a morte da Rainha Elizabeth. Era uma espécie de rascunho que os veículos de imprensa costumam preparar com informações sobre uma pessoa famosa que está muito idosa ou doente. Aquela morte, evidentemente, não devia estampar o site antes da hora, como fez a Folha em uma das maiores gafes de sua história.

Uma semana depois da morte da Amy Winehouse, as livrarias de Londres já tinham à venda pelo menos duas biografias da cantora. Muita gente pode estranhar: será que algum maluco escreveu o livro inteiro em dois, três dias, mandou para a gráfica e, antes de o caixão esfriar, a obra já estava enfeitando as vitrines? Não é bem assim que funciona…

A morte da Amy era só questão de tempo. Tudo bem, a morte de todos nós é só questão de tempo. Mas, no caso dela, lamentavelmente, a areia da ampulheta já estava nas últimas. Qualquer jornal precavido já tinha preparado um caderno especial para o dia fatídico, resumindo sua carreira, os grandes sucessos, o problema com as drogas e a bebida, muitas fotos etc. Tudo prontinho, na tocaia, só esperando os detalhes da morte propriamente dita. Em inglês, poderíamos dizer que só faltava “the final shot” (que pode significar tanto o último tiro quanto a última dose de heroína). Só faltava anunciar na capa: “Morre amanhã a cantora…”.

Para quem está de fora, tal atitude da imprensa parece mórbida, e não deixa de ser. Porém, quem já trabalhou em jornais sabe que, se a preparação não for feita com antecedência, os concorrentes farão melhor. Claro que nem sempre é possível preparar antes. Quando uma personalidade (artista, atleta, político, empresário etc.) morre de repente, por acidente, não há como nem o que preparar.

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Em meados dos anos 1990, quando Milton Nascimento emagreceu muito em um curto período de tempo, o jornal para o qual eu trabalhava decidiu preparar um obituário antecipado. O texto deveria ficar prontinho, para a eventualidade de o cantor não resistir. Boatos circulavam, más línguas se assanhavam, parecia que nosso grande “Bituca” estava com os dias contados.

Achei estranho o pedido do jornal, mas não tinha muito como escapar da pauta. A primeira coisa que fiz foi ligar para o Fernando Brant, o maior parceiro do Milton. Fernando tinha sido aluno da minha mãe e certamente falaria comigo. Mas ele estava viajando e não consegui encontrá-lo de jeito nenhum.

Recorri, então, à minha grande amiga e ex-colega de faculdade Renata Canabrava, que à época trabalhava na assessoria do Milton, ou na equipe de produção, não me lembro mais. Cheio de dedos, expliquei do que se tratava e perguntei se podia contar com ela.

Do outro lado do telefone, veio uma gargalhada!

– O Milton está ótimo, Leo! O negócio dele é diabetes, mas ele é forte e vai longe ainda.

Uau! Naquele instante, a Renata me salvou (e ao jornal) de um grande mico. Sim, porque, felizmente, o Milton continua firme e forte, quase trinta anos depois. Já a Renata morreu tragicamente em um acidente de carro, no norte de Minas. Muito querida, doce, divertida. Saudade da minha amiga, que partiu de repente e não deu tempo de ninguém se preparar.

Leo Cunha é graduado em Jornalismo e Publicidade e especialista em Literatura Infantil pela PUC Minas. Mestre em Ciência da Informação e doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Casado com Valéria, pai da Sofia e do André. Apaixonado pelas artes e pelo humor. É autor do livro Cachinhos de prata, publicado por Paulinas Editora.

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